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Literatura Pós-Colonial: Minha Pátria é Minha Língua?

Por Mayara Abrahão,

Quando falamos em teoria pós-colonial, geralmente, falamos também em multi ou pluri culturalismo, hibridismo e resistência. Porque, para descolonizar o pensamento e a cultura de cada país que já foi colônia, é preciso resistir ao passado: resistir às facilidades contraditórias de permanecer em estado colonial mesmo após a independência. Para tanto, é preciso resgatar o passado pré-colonial, as tradições e culturas nativas, sem necessariamente excluir aquilo que se tornou tão “nosso” quanto do “outro”, o que, a partir do processo de dominação, se introjetou na cultura do dominado, como o idioma, por exemplo.

Reivindicar a língua colonial como nossa própria língua é uma forma de ressignificar o passado. A literatura dos países africanos de língua portuguesa demonstra esse processo pós-colonial. No texto A Literatura dos PALOP e a Teoria Pós-Colonial (1999), o professor Russell G. Hamilton, do Departamento de Português e Espanhol da Universidade de Vanderbilt, discute a importância dessa literatura para a teoria e a prática pós-coloniais em Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe.

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Desaprender para seguir

Por Mayara Abrahão,

Em recente artigo, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos analisa a Europa atual, suas crises e contradições, a partir do passado colonialista daquele continente. Santos propõe, desde o título de seu texto (Para uma Nova Visão da Europa: Aprender com o Sul), a “desaprendizagem/ reaprendizagem”, para que a Europa se veja não mais como grande potência, – que, segundo o autor, deixou de ser desde o fim da Segunda Guerra – mas como lugar de multiculturalismo. Para isso, Santos propõe estratégias adotada por países do Sul Global que, a partir dos paradigmas da modernidade européia, criaram novas formas de democracia, economia e constitucionalismo.

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As diferenças como alternativa

Por Mayara Abrahão,

O que é universal e o que é particular? Segundo o teórico político Ernesto Laclau (2012), o universal é um particular tornado hegemônico. Assim, todas as identidades são particulares, ou seja, todas as culturas possuem formas particulares e próprias. O universalismo é uma maneira de dominação, porque classifica as diferenças como desvios. No mesmo sentindo, ao tratar da “invenção” da América Latina, o intelectual argentino Walter Mignolo (2008) demonstra o estabelecimento da diferença racial, a partir de um ideal universal de humanidade baseado no homem branco europeu, como principal forma de dominação e apagamento de identidades.

A discussão sobre universal e particular se apresenta de forma complexa, visto que as relações contemporâneas estão baseadas na diferença. O desenvolvimento do chamado Ocidente se deve a essa divisão, portanto, pares como universal/ particular ou moderno/ colonial possuem uma relação de interdependência, onde um não pode existir sem o outro. A proposta de Mignolo é a de que se criem pensamentos resistentes (“fronteiriços”), contra-hegemônicos que, em vez de negar a modernidade, evidencie-se o “outro lado”. Continuar lendo As diferenças como alternativa

Modernidade Anacrônica

Por Mayara Abrahão,

A partir das discussões sobre colonialidade e pós-colonialismo, compreendemos que a construção do imaginário social atravessa diversas esferas, como a política, a economia e a cultura. Podemos pensar a cultura e a arte sob a perspectiva pós-colonial, compreendeendo tanto a influência do pensamento colonial sobre as expressões artísticas e culturais como também a contribuição destas na formação de uma (ou muitas) identidade coletiva.

A cultura, como defendem autores como Aníbal Quijano e Aimé Césaire, é uma esfera de ressignificação de valores e de criação de sentidos que constroem identidades. Por isso, a Sociologia da Cultura pode contribuir em debates pós-coloniais, oferecendo ferramentas para a compreensão de fenômenos políticos, históricos e sociais. A partir da discussão promovida pelo historiador da arte Luiz Camillo Osorio podemos avaliar o significado das expressões artísticas no Brasil nos últimos cinquenta anos como respostas não só ao modelo tradicional de arte, mas ao pensamento colonial. A arte e a cultura têm papel fundamental tanto na representação de normas como no questionamento e na transformação destas. Continuar lendo Modernidade Anacrônica

Centralidade periférica

Por Mayara Abrahão,

Continuando as discussões sobre o pós-colonialismo nas ciências sociais, analisamos a relação de “subalternidade” das periferias enquanto produtoras de conhecimento, a partir do feminismo como teoria acadêmica. Como vimos em resenhas anteriores (especialmente em Quijano), o conceito de gênero, assim como o de raça, foi instituído pela modernidade colonizadora como arma política geradora de alteridade: mulheres e negros representam “o outro” diante do homem branco (civilizado). Assim, a partir do pensamento pós-colonial, diversos intelectuais questionam tais conceitos, bem como suas abordagens nos meios científicos e culturais.

No artigo Subalterno quem, cara pálida? Apontamentos às margens sobre pós-colonialismos, feminismos e estudos queer, a professora Larissa Pelúcio (UNESP/Bauru) apresenta diversos autores pós-coloniais e sugere uma nova epistemologia, na qual o “narrador” se localiza:

Anunciar o lugar de fala significa muito em termos epistemológicos, porque rompe não só com aquela ciência que esconde seu narrador, como denuncia que essa forma de produzir conhecimento é geocentrada, e se consolidou a partir da desqualificação de outros sistemas simbólicos e de produção de saberes. Continuar lendo Centralidade periférica

O racismo como herança colonial

Por Mayara Abrahão,

A professora do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília (UnB), Rita Laura Segato, escreve sobre raça, gênero e outros temas, sob a ótica do pós-colonialismo. Em seu mais recente livro, La Crítica de la Colonialidad em Ocho Ensayos (2015), Rita relaciona o colonialismo a discussões atuais das Ciências Sociais e, em especial, o próprio fazer antropológico, questionando os resquícios coloniais do saber acadêmico. No capítulo aqui debatido, El Color de La Carcel em América Latina. Apuntes Sobre La Colonialidad de La Justicia em um Continente em Desconstrucción, a autora traz a discussão do racismo estrutural presente na América Latina enquanto traço da colonialidade.

Em sua exposição, Segato apresenta a categoria raça como construto do colonialismo. Assim como Quijano, ela compreende que, antes da colonização da América no século XVI, a raça não existia. E a partir da invenção da raça e de sua função, a segregação social (racismo), Rita Segato descreve as dinâmicas modernas, como o Estado nacional e o Direito, enquanto reflexos de um pensamento colonial racista. A “cor do cárcere” a que Segato se refere, então, é o símbolo da continuidade do colonialismo.

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A PERSISTÊNCIA DA COLONIALIDADE NA ACADEMIA – PARTE 2

Por Mayara Abrahão,

A Europa se tornou o centro do mundo graças à exploração das Américas, pelos espanhóis e portugueses, a partir do século XVI. Com isso, criou-se um novo modelo econômico e uma nova hegemonia cultural. É a partir dos valores coloniais que se constrói a Europa enquanto ideologia – pretensamente una e superior ao “resto” do mundo. O ideal de progresso transformou o não-europeu em sinônimo de atraso, a ser superado com a “ajuda” dos colonizadores (como discutido na primeira parte do texto).

Segundo o sociólogo peruano Aníbal Quijano, os europeus se julgaram inventores da modernidade, mas na verdade, o que se pode atribuir ao colonialismo europeu é a invenção da globalização (“sistema-mundo”) e não avanços tecnológicos, como se vem afirmando: Com todas as suas respectivas particularidades e diferenças, todas as chamadas altas culturas (China, Índia, Egito, Grécia, Maia-Asteca, Tauantinsuio) anteriores ao atual sistema-mundo, mostram inequivocamente os sinais dessa modernidade, incluído o racional científico, a secularização do pensamento, etc. (Quijano, 2005:112). Continuar lendo A PERSISTÊNCIA DA COLONIALIDADE NA ACADEMIA – PARTE 2