Arquivo da categoria: Resenhas

Desaprender para seguir

Por Mayara Abrahão,

Em recente artigo, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos analisa a Europa atual, suas crises e contradições, a partir do passado colonialista daquele continente. Santos propõe, desde o título de seu texto (Para uma Nova Visão da Europa: Aprender com o Sul), a “desaprendizagem/ reaprendizagem”, para que a Europa se veja não mais como grande potência, – que, segundo o autor, deixou de ser desde o fim da Segunda Guerra – mas como lugar de multiculturalismo. Para isso, Santos propõe estratégias adotada por países do Sul Global que, a partir dos paradigmas da modernidade européia, criaram novas formas de democracia, economia e constitucionalismo.

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Participação e Mudança: O lugar da transexualidade no feminismo.

Por Mayara Farage,

No artigo “Feminismo: velhos e novos dilemas uma contribuição de Joan Scott” Erica Melo Mestre em Sociologia pela UNICAMP abre espaço para pensarmos em uma ponte entre o dilema que Joan Scott aponta no livro “A cidadã paradoxal: as feministas francesas e os direitos do homem” e um problema do movimento atualmente. Os dois dilemas estão ligados por um ponto em comum: a anatomia dos corpos humanos.  Os corpos femininos foram negados e afirmados para legitimar o movimento feminista. E nessa dicotomia os corpos de mulheres transexuais se tornaram hoje uma barreira para sua aceitação por algumas partes do movimento.

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Da academia ao debate público: um enfoque sociológico à questão da punição de jovens infratores

Por Aurea Thatyanne Ferreira

Em tempos de debate sobre a redução da maioridade penal, é importante questionarmos o que a análise sociológica acrescentaria à discussão. Ante o enfoque da sociologia da violência e da sociologia da punição, a socióloga Bruna Gisi Martins de Almeida escreveu o artigo “Socialização e regras de conduta para adolescentes internados”, onde tece observações sobre os impactos causados pela internação, ou encarceramento, aos jovens infratores.

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As diferenças como alternativa

Por Mayara Abrahão,

O que é universal e o que é particular? Segundo o teórico político Ernesto Laclau (2012), o universal é um particular tornado hegemônico. Assim, todas as identidades são particulares, ou seja, todas as culturas possuem formas particulares e próprias. O universalismo é uma maneira de dominação, porque classifica as diferenças como desvios. No mesmo sentindo, ao tratar da “invenção” da América Latina, o intelectual argentino Walter Mignolo (2008) demonstra o estabelecimento da diferença racial, a partir de um ideal universal de humanidade baseado no homem branco europeu, como principal forma de dominação e apagamento de identidades.

A discussão sobre universal e particular se apresenta de forma complexa, visto que as relações contemporâneas estão baseadas na diferença. O desenvolvimento do chamado Ocidente se deve a essa divisão, portanto, pares como universal/ particular ou moderno/ colonial possuem uma relação de interdependência, onde um não pode existir sem o outro. A proposta de Mignolo é a de que se criem pensamentos resistentes (“fronteiriços”), contra-hegemônicos que, em vez de negar a modernidade, evidencie-se o “outro lado”. Continuar lendo As diferenças como alternativa

Modernidade Anacrônica

Por Mayara Abrahão,

A partir das discussões sobre colonialidade e pós-colonialismo, compreendemos que a construção do imaginário social atravessa diversas esferas, como a política, a economia e a cultura. Podemos pensar a cultura e a arte sob a perspectiva pós-colonial, compreendeendo tanto a influência do pensamento colonial sobre as expressões artísticas e culturais como também a contribuição destas na formação de uma (ou muitas) identidade coletiva.

A cultura, como defendem autores como Aníbal Quijano e Aimé Césaire, é uma esfera de ressignificação de valores e de criação de sentidos que constroem identidades. Por isso, a Sociologia da Cultura pode contribuir em debates pós-coloniais, oferecendo ferramentas para a compreensão de fenômenos políticos, históricos e sociais. A partir da discussão promovida pelo historiador da arte Luiz Camillo Osorio podemos avaliar o significado das expressões artísticas no Brasil nos últimos cinquenta anos como respostas não só ao modelo tradicional de arte, mas ao pensamento colonial. A arte e a cultura têm papel fundamental tanto na representação de normas como no questionamento e na transformação destas. Continuar lendo Modernidade Anacrônica

Ciências sociais e as pesquisas em saúde no Brasil

Por Aurea Thatyanne Ferreira

Uma das principais características do campo das ciências sociais é a sua amplitude de temas. Sendo diversos, seus objetos de estudo podem adquirir um caráter interdisciplinar. O tema da saúde é um desses exemplos e, embora vasto e complexo, a análise das ciências sociais em saúde ainda é pouco presente no ensino institucionalizado da disciplina no Brasil. O artigo O campo temático das ciências sociais em saúde no Brasil, da professora doutora Aurea Maria Zöllner Ianni, da Faculdade de Saúde Pública da USP, aborda esse domínio específico na área, introduzindo o leitor aos seus contextos sócio-históricos, entre outros tópicos. Continuar lendo Ciências sociais e as pesquisas em saúde no Brasil

A encruzilhada da Antropologia e da Filosofia, o caso de Kant

Por Raphael Lebigre

É sabido que as ciências sociais, disciplina que marca sua fronteira com as demais áreas a partir do século XIX, têm por base a filosofia, mãe de grande parte das ciências ocidentais. Apesar da paixão que alguns possuem em estudar as sociedades, não é incomum na cultura acadêmica brasileira a falta de profundidade entre a as ciências e o pensamento do “amor pelo saber”.  Um exemplo claro está na base frágil de filosofia entre os nossos alunos graduandos.  Na tentativa de utilizar a filosofia para entender a antropologia, proponho apresentar em poucas linhas a visão de Emmanuel Kant (1724-1804) sobre a última, situada no seu livro: “Antropologia a partir de um ponto de vista pragmático”, publicado em 1798. Continuar lendo A encruzilhada da Antropologia e da Filosofia, o caso de Kant