Um caminho e distintas trajetórias em construção

Por André Luiz Gomes Soares

Ampliar perspectivas. Aprender o que (re)constrói você. E, sobretudo, (se) conhecer. São essas algumas das realizações que um intercâmbio proporciona. Viver sem suas referências é um desafio, mas o tempo é curto; os medos viram energia e são consumidos pela fome de descobrir. Desejo, apesar de tantos ataques que sofremos contra o ensino superior, contar algo feliz. Faz-se necessário, além de uma série de outras coisas, sorrir. E, nesse sentido, descrevo um pouco sobre um sorriso sob o sol, o azul e o branco da Argentina.

Queria, a princípio, paz e tranquilidade para fugir do caos carioca. Fui surpreendido com a vaga para Buenos Aires, uma outra grande metrópole. Contudo, novamente me peguei surpreso por como outras realidades são possíveis. A cidade é muito charmosa, principalmente se você for aprovado para o segundo semestre e pegar o fim do inverno e a primavera inteira, a cidade se transforma em cores, la gente é solicita, as ruas são mais vazias do que as do Rio e o transporte é barato! Infelizmente, é uma das poucas coisas baratas pela cidade. Cozinhem! Porque a inflação afeta muito nossos hermanos. A cidade oferece muitos eventos gratuitos para qualquer turista, mas ainda mais para estudantes de intercâmbio. É um lugar com uma aura cosmopolita, facilmente você encontra outros estudantes e grupos internacionais que ajudam bastante na adaptação, os perrengues, e até em facilidades com questões que você só descobre lá.Buenísima onda el Lio

Uma das coisas mais interessantes e reflexivas foi provar de um outro formato de Universidade. Fui para a Universidad de Buenos Aires (UBA), uma universidade  pública com um contingente estudantil que passa dos 300 mil. Elegi a carrera de sociologia para cursar meu semestre. O sistema da UBA é, de cara, estranho para um brasileiro, lá não há vestibular. Os estudantes devem passar por um Ciclo Básico Comum (CBC) e, se aprovados, estão aptos para adentrar o curso que escolheram.

A opção por cátedras e não disciplinas em que os professores se revezam é, sem dúvidas, o que mais nos impacta. É diferente, não digo melhor nem pior, mas com certeza um modo mais aprofundado de cursar as disciplinas – até pela carga horária e a quantidade normal de matérias por semestre (três). Os professores associam-se em torno dessas cátedras como se fossem os núcleos de pesquisa que temos aqui. Então, normalmente, são equipes que lecionam, revezando entre aulas práticas e teóricas de acordo com temas e especificidades. O notável é que se alicerça uma relação diferente com a universidade, com o aprendizado e com o quão profundo podemos ir na cursada. Isso tudo para fazer uma propaganda mínima da UBA e das boas experiências que ela pode oferecer.

Caminito
Foto do caminito, região turística tradicional da cidade

Buenos Aires é encantadora, turística, tem uma ótima gastronomia, é cheia de atrações para estudantes e possui algumas excelentes universidades que vão proporcionar a você conhecer gente que faz seu mesmo curso, mas que o vive de forma diferente. Esse é um trunfo importante em se fazer intercâmbio: aprender sobre distintas possibilidades de percorrer um “mesmo” caminho. E não é porque é o “mesmo” caminho que ele conduz para o mesmo lugar.

 Quando você está envolvido por uma outra estrutura, isso te faz repensar a sua. Para além de ser crítico, é como se você entendesse que existem mais realidades e que elas dão frutos diferentes da sua. Algo que supera a questão da formação e tudo que reverberam as diferentes modalidades universitárias: universos também delimitam pesquisadores. Estamos acostumados a buscar na realidade os espaços concretos que abracem nossos problemas de pesquisa; mas, ao intercambiarmos, descobrimos que as questões são postas em sintonia com a vida vivida. Isso também constitui seu ‘eu’ estrangeiro, nem todos estão preocupados com o que julgamos importante. Então, trocamos perspectivas e construímos relações com nossos pares, que acabam virando informantes, colegas, amigos.

Por último, mas não menos importante – talvez até mais importante que muita coisa descrita acima –, é a chance de aprender um idioma novo e de uma matriz próxima a nossa. A língua é uma sedução à parte. No meu caso, não sabia nada de castellano e ainda menos da variação río platense. Contudo, a melancolia apaixonante do sotaque argentino faz você se envolver rapidamente para logo se entregar à fala callejera
e os lunfardos. Sempre será divertido começar a falar e notar no rosto das pessoas que elas te identificam como algo que não são eles; como tem muito brasileiro em Buenos Aires, rapidamente perguntam de onde você é das terras tupiniquins. Quando isso não acontece, você nunca saberá se por alguns segundos seu castellano río platense atingiu o ápice ou se os brasileiros já semearam uma variação própria dele.

Entre pelas brechas que ainda temos. Percorra o seu caminho e descubra que ele não será mais o “mesmo” quando você retornar. Haverá mais horizonte, mesmo com a neblina de tempos tão obscuros. Diante de tudo, que outros sorrisos floresçam, e que sua curiosidade te regue até lá!

 

todas as fotos que ilustram o post foram tiradas e cedidas pelo autor

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