#selfiesociologica

A ideia de “eu” (self) na sociologia foi muito explorada pela tradição do interacionismo simbólico, segundo o qual a concepção que fazemos de nós mesmos é mediada socialmente, seja pela forma como os outros nos veem, ou pela maneira que achamos que somos interpretados. Dando continuidade ao exercício proposto aos participantes do Circuito,  abaixo seguem dois relatos de como foi o processo para Aza e João Paulo representarem a si mesmos, como estudantes de ciências sociais, através de uma selfie – uma selfie sociológica.

Aza NoAr –  Ciências sociais, Ancestralidade e “conhece-te a ti mesmo”

Pensar ao mesmo tempo que me move, paralisa. Ter de pensar em mim mesma até então mais paralisava do que movimentava, afinal, eu tinha medo do que era, do que achava que era, do que diziam que eu era e das expectativas sobre o que eu poderia ser.

A escolha de cursar ciências sociais tem tanto a ver com as expectativas dos outros com relação a mim, quanto com as minhas expectativas com relação a mim mesma. Essa trajetória, já em seu início resolve banir o conceito de expectativa de minha vida, afinal, após o primeiro passo dado, eu honestamente não conseguia esperar nada, apenas receber o que viesse e lidar com isso com toda a virtú (e o axé) possível.

Voltando ao ponto das quebras de expectativas: sinto muito (na verdade não) por não terem livros de sociólogos renomados na foto, ou quadros de grandes figuras políticas ao fundo, isso definitivamente não é quem eu sou enquanto cientista social em formação.

O fundo branco representa algo como o “NoAr” em meu sobrenome. Enquanto estudante de Ciências Sociais, me encontro me desencontrando, discordando de mim mesma, me isentando da obrigatoriedade de ter um único e correto pensamento. Faço de mim mesma uma parede em branco, parte de uma construção sólida, mas sempre aberta a novas “cores” ou objetos de decoração (se assim preferir).

Na presença das plantas, há a sorrateira presença de minha ancestralidade. O trânsito entre a menina negra que saiu do “Morro do Santa” (Favela Santo André, localizada no bairro Bangu, Zona Oeste do Rio de Janeiro) para estudar em um lugar que até poucos meses antes nem sabia que existia não foi fácil. Quantas vezes chamei por Vovó, e todos os Orixás que diariamente me acolhiam e ainda acolhem neste novo território que escolhi para, mesmo que temporariamente, chamar de lar? Não há uma palavra, um pensamento, um olhar que eu produza sem essa força ancestral que me fortalece quando me sinto pequena demais para esse mundo tão grande. Dona Maria Helena (Tia-Avó), Dona Sueli (Avó) e Dona Cristiane (Mãe) estão comigo a cada passo, e nesta apresentação através de uma imagem, não poderia ser diferente.

Anteriormente mencionei a ausência dos livros, e esse é um ponto que para mim é de peso fundamental na compreensão desta selfie. Embora eu tenha crescido amante dos livros, tanto da leitura quanto da escrita e já tenha sido premiada enquanto escritora aos nove anos de idade, hoje aprecio a minha habilidade de observar. Ler não palavras, mas espaços, pessoas, sentimentos, possibilidades. Obviamente que reconheço a importância da leitura dos textos em minha formação acadêmica, mas elas de nada valeriam (ao meu ver) sem essa habilidade que faz tempo desenvolvi. Sempre observando, tentando compreender o que vejo e principalmente o que não vejo.

Pensar ao mesmo tempo que me move, paralisa. Ter de pensar em mim mesma até então mais paralisava do que movimentava, afinal, eu tinha medo do que era, do que achava que era, do que diziam que eu era e das expectativas sobre o que eu poderia ser. Mas hoje, compreendo que o meu caminhar é pensando e que o meu pensar é caminhando, aceitando e exaltando essa possibilidade unicamente minha de tanto profissionalmente quanto individualmente, ser o que espero ser: eu.

 

João Paulo Ricotta

Você é o que escreve. Essa frase talvez defina a representação que fazemos do cientista social e de nós mesmos ao longo de nossa formação. Sejam as teses defendidas, pesquisas realizadas ou campos abertos, nosso trabalho se expressa eminentemente pela escrita. Quando confrontado com a primeira atividade do circuito, de realizar uma selfie sociológica, fiquei meio atordoado. Não tenho o hábito de pensar minha representação através das fotos, então, me representar enquanto cientista social em formação por este meio era uma tarefa a princípio de difícil execução.

Como podem ver, refiz minha selfie várias vezes. Cada uma possui outras muitas versões que sequer foram enviadas. Todas em alguma medida se enquadravam na proposta pedida, com a exceção de alguns elementos. Aí se encontrava o maior desafio do exercício, pelo menos para mim. Uma dimensão muito importante que até então ignorava é que a representação também atende a expectativas que não as nossas. Representamos para o outro. Toda selfie é uma constante reflexão do que mostrar e do que não mostrar, tendo em vista o local onde veiculamos a imagem e para quem a veiculamos.

Partindo dessa premissa fui refazendo as fotos, sempre buscando conciliar a imagem que fazia de mim mesmo com a imagem que fariam de mim. Depois de algumas tentativas, passei a construir minhas fotos com mais facilidade. A selfie do espelho foi uma das favoritas, justamente pela questão da reflexividade que aborda. Mas não era possível distinguir os demais elementos na foto, já que o enquadramento forçava uma escolha: se focasse nos elementos, perdia o espelho, e vice versa.

Minha selfie definitiva, esta que vocês provavelmente verão ao lado do meu nome, foi tirada em São José dos Campos, minha cidade natal. Vinha de viagem neste dia, e assim que cheguei abri o notebook em minha mesa de estudos. Junto com o celular (com o qual tirava a selfie), o notebook é de longe meu principal instrumento de trabalho. A tela mostra um grafo com o qual trabalhava no gephi, um software cuja descoberta abriu todo um leque de referências e métodos que definem o que pretendo fazer nas ciências sociais (e além delas). Coloquei meus livros ao lado, encostados na parede e pus sobre um caderno lápis e caneta bem dispostos. Entre o notebook e os livros, vocês podem ver meu cantil, com água. Virei-me para trás, de onde tiraria a foto, e dei o clique.

O que ficou do exercício, além da foto que me representa dentro do circuito acadêmico, foram as reflexões em torno do processo de criação da selfie. No começo difícil, assim como a escrita, foi saindo com mais facilidade a partir da prática constante. Diferente da escrita por sua vez, a imagem permitiu (e permite) outra tradução dos elementos que constituem nossa prática, mostrando que somos muito mais do escrevemos, ou melhor, mostrando que a escrita vai muito além do que atribuímos a ela, preenchendo momentos inexprimíveis nas linhas que ensaiamos. É possível escrever por outros meios!

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