Favelados “in Paris”: pode o acadêmico negro periférico produzir? — Entrevista com Simone Ricco

Por: Aza NoAr

O título da entrevista faz referência ao rap “Ni**as in Paris” de Jay-Z e Kanye West, onde dentre muitas coisas, revoga-se a legitimação de grupos que ocupam/invadem determinado espaço, mesmo não utilizando das mesmas formas de linguagem que os corpos até então reconhecidos como “pertencentes” a ele. Se identificou? Então cola com nós que é sucesso

 

Excuse my French but I’m in France (I’m just sayin’)

Tradução: Sinto muito pelo meu francês, mas eu estou na França…

Trecho citado da música Ni**as in Paris

 

Com a ampliação de ingresso de pessoas negras nas universidades federais após a aprovação das cotas raciais no ano de 2012, o processo que tem como finalidade incluir uma população histórica e socialmente excluída dentro do território brasileiro  do meio acadêmico, tem servido como uma lupa para que se analise as diversas consequências desta exclusão.

Muitos alunos negros ingressantes no meio universitário enfrentam problemas para validar suas produções, em alguns momentos devido aos temas escolhidos para serem abordados e em outros pela linguagem utilizada para esta abordagem.  Alunos negros, principalmente favelados e periféricos, vindos de escola pública, possuem um grande distanciamento da linguagem acadêmica formal. Repare que digo “distanciamento da linguagem acadêmica formal”, e não incapacidade de produção acadêmica. Mas se este distanciamento de linguagem que é natural, partindo do ponto de que fala-se de pessoas de construções e vivências diferentes, não impede que esta população possua e produza conhecimento, quais seriam as razões para esta deslegitimação intelectual se fazer tão presente no meio acadêmico? E como pode-se modificar esta triste e inquietante realidade?

Para falar sobre este tema, iniciamos uma conversa (prosa afetuosa de forma impulsionadora) com a Mestre em Letras Simone Ribeiro da Conceição (Simone Ricco), que a partir de sua experiência enquanto Mestre tanto no meio Universitário quanto do Ensino Básico Público, se disponibilizou a nos ajudar nesta reflexão e proposta de diálogo entre os alunos negros favelados e periféricos e a Academia e seus docentes. Segue o baile! 

 

Poderia nos contar um pouco sobre sua trajetória como professora do Ensino Público Básico e os principais desafios que você encontra?

 

Ingressei no ensino público básico em 2013, após ser aprovada em um concurso para professor 40 h. Para assumir a vaga, me desliguei de um cargo técnico na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ao fazer a opção pela docência exercida no ensino público básico me deparei com questões que dificultam a aprendizagem e desmotivam a maior parte dos alunos e professores. Atuo numa mesma escola desde o início, tenho turmas do 6 ao 9 ano e procuro fazer com que o trabalho da disciplina língua portuguesa seja realizado em diálogo com outras disciplinas e explorando o máximo de linguagens. A experiência em uma escola na periferia do Rio de Janeiro comprova a carência de estímulos culturais, algo muito importante para o desenvolvimento do raciocínio e das relações interpessoais. Com intuito de interferir nesta realidade, tenho levado para a sala de aula variados estímulos presentes em músicas, textos da internet e diálogos que quebram a rotina marcada pelo acesso aos conteúdos necessários à navegação social dos jovens. Ao pensar o trânsito dos jovens por nossa sociedade, tornou-se importante investir na educação das relações étnico-raciais, tarefa exercida nas aulas expositivas cotidianas e nas oficinas, montagens teatrais, experiências visuais, saraus e outras possibilidades de expressão oral, escrita e gestual que venho utilizando para ter melhores resultados, e mais satisfação, em minha prática docente. É importante ressaltar que não se trata de uma prática permeada por facilidades. Os desafios estão dentro e fora da sala de aula e surgem na postura de pais, em cobranças absurdas dos gestores da educação pública, no desinteresse dos alunos, na prática questionável de alguns colegas.

 

Como você descreveria o processo de construção da escrita dos alunos do Ensino Público Básico? Algum fator que os prejudique ou os distancie ainda mais do mundo universitário?

Fatores estruturais existentes dentro e fora da escola pública dificultam a alfabetização, criando entraves ao desenvolvimento da escrita e produção de textos.  O resultado deste quadro é a fragilidade demonstrada por grande parte dos alunos na aquisição de saberes que tornem possível a escrita de acordo com as normas. A rede municipal de ensino do Rio de Janeiro buscou enfrentar as dificuldades na produção textual instituindo uma avaliação bimestral e, desse modo, tornando habitual a escrita de diferentes gêneros textuais. O uso de metodologias de produção textual em atividades inseridas no caderno pedagógico é outra estratégia para o ensino-aprendizagem de aspectos referentes à estrutura do texto, ortografia e características de cada gênero textual. No entanto, fatores como o grande número de alunos por turma, a defasagem dos alunos que avançaram até o segundo segmento sem o desejável avanço na alfabetização e escrita, tornam árduo o exercício da produção textual no segundo segmento.

O signo da dificuldade permanece atrelado à escrita de grande parte dos alunos do ensino básico público, muitos deles distanciados da leitura e, consequentemente, sem estímulos para a escrita normativa e com pouca habilidade na compreensão de enunciados e textos escritos. Esta falta de familiaridade com a leitura e escrita é algo muito relevante para o distanciamento entre jovens egressos da rede pública de ensino e um universo acadêmico que requer habilidade para diversas leituras e escritas.

 

 

Esses alunos, mesmo entrando na universidade, muitas vezes possuem uma dinâmica de produção textual diferente daquela exigida no ambiente acadêmico. Há algum método ou abordagem que você possa sugerir ao professor universitário que venha a lecionar para eles?

 

Creio que o método é o estímulo à escrita, com orientação. Em qualquer segmento, as oficinas de produção textual são uma excelente atividade prática, que permite rever aspectos teóricos importantes para criar textos com boa coesão, estrutura, coerência e bom uso da língua portuguesa. Escrever e reescrever  são os melhores exercícios para tornar melhor e menos sofrida a produção textual.

 

 

 

Sobre a entrevistada: Simone Ribeiro Rico é Mestre em Letras – Subárea Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Professora da SME/RJ – ensino fundamental. Desenvolve estudos sobre a projeção da matriz cultural africana em obras literárias, músicas e artes áudio visual criados no Brasil e em Angola. Como colaboradora do Neab UERJ atua em pesquisa e desenvolvimento de atividades destinadas à promoção de conhecimentos sobre africanidades, ao ensino de Literaturas Africanas e Literatura Afro-Brasileira e à formação de educadores.

Música “N**gas in Paris”, citada nesta entrevista:  https://www.youtube.com/watch?v=gG_dA32oH44

 

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