Celebridades Acadêmicas: afinal, quem são elas?

 

Por Daniel Máximo

Nos dias atuais, ao ligar a televisão, abrir o jornal ou ainda escutar o rádio, no início ou ao fim de um dia de trabalho, é comum nos depararmos com figuras oriundas do meio acadêmico comentando em  bancadas de telejornal ou como colunistas radiofônicos ou jornalísticos. Afinal, quem são essas pessoas? Qual o seu modus operandi nesses meios? E por fim, o que as diferencia em relação ao clássico intelectual público?

Da atual crise política brasileira a aspectos da vida pessoal, os temas sobre os quais são convocados a dar opiniões são os mais variados. Em alguns casos, vendem livros ao grande público e até participam como jurados de reality shows em que famosos dançam, caso repitamos o exercício de ligar a televisão, mas dessa vez em uma tarde de domingo. Por essas e outras, cunhou-se o termo “celebridade acadêmica” (WALSH, 2015) para se fazer referência a esses indivíduos.

Contudo, ao que tudo indica, o tipo de atuação desses acadêmicos difere do que outrora se convencionou chamar de “intelectual público”. O intelectual público, como fenômeno sociológico, tem sua gênese na própria formação do espaço público característico do mundo moderno, permeado pela existência da mobilidade social, da emergência do debate público e da consolidação do ideal kantiano de “saída do homem de sua menoridade” (DOMINGUES, 2011).  Esse intelectual, através de sua intervenção no debate público, pretendia reformular o conjunto geral de valores que orientam a existência dos indivíduos em sociedade, de modo a persuadi-los da pertinência de seu posicionamento político e alertar-lhe a respeito das desigualdades que permeiam a sociedade.

Sua atuação inicial tinha como objetivo, em última instância, promover uma revolução social, pautada principalmente por valores republicanos, como igualdade, liberdade e participação política. Foi assim, por exemplo, no caso francês, com a desconfiança pré-revolucionária em relação às instituições do país e o ideal de intérprete da nação, personificado por Émile Zola; no caso brasileiro, a aproximação entre intelectuais e a esfera política se dá a partir da Primeira República. Em suma, o intelectual público defende um projeto de dissecação do modus operandi do poder dominante e oferece ferramentas teóricas para enfrentá-lo.

zola
O francês Émile Zola é frequentemente descrito como o tipo-ideal do intelectual público moderno.

Já as chamadas  “celebridades acadêmicas”, emergem a partir de um ceticismo em relação a esse intelectual público (DOMINGUES, 2011). Com a entrada da ciência na esfera pública a partir do início do século XX, se tornando matéria de embasamento de políticas públicas, esse sujeito passa a ser visto pelo imaginário social como um mero “palpiteiro” a serviço de interesses políticos parciais e específicos.

Com a permanente desconfiança em relação a esse intelectual generalista, cresce a demanda por um atrelamento da inserção do indivíduo no espaço público a uma certa expertise. Em outras palavras, ele agora deve estar respaldado pela credibilidade e pela imparcialidade que só a ciência supostamente poderia  proporcionar. Assim, substitui-se progressivamente o intelectual público generalista por um expert, necessariamente vinculado a universidades ou instituições de ensino e pesquisa.

O deslocamento do intelectual generalista para o expert amparado pela ciência cria terreno fértil para o florescimento posterior da celebridade acadêmica, uma vez que  sua inserção pública na mídia reivindica um conhecimento “isento”, em detrimento do juízo de valor. Essa subsequente substituição do intelectual público pelo do expert científico está relacionada a uma ampliação do escopo de projetos e possibilidades comerciais de grandes conglomerados empresariais do ramo das comunicações (TURNER, 2006). Nesse movimento, os acadêmicos, tal como ex-participantes de reality shows que se retiram de suas mídias na mesma velocidade em que ingressam, são acessórios de cultura importantes, a serem utilizados conforme conveniência comercial.

Desse modo, a atuação de indivíduos como Mário Sérgio Cortella, Clóvis de Barros Filho, Luiz Felipe Pondé e Leandro Karnal pode ser interpretada como a  de interlocutores eficientes junto ao público não acadêmico. Dialogando com demandas ou assuntos pré-fixados que necessitam de respostas junto à opinião pública (ADORNO, T; HORKHEIMER, M, 2006), em geral são provenientes de postos ou cargos ilustres dentro das universidades e obtém algum grau de prestígio social a partir de tais posições e dos saberes específicos que possuem.

Se o intelectual público se pauta pela definição de temas sobre os quais se devotará a partir de sua própria percepção, a celebridade acadêmica volta-se para a análise de temas pré-fixadas na agenda pública. Desse modo, invertendo o paradigma norteador da atuação do intelectual público. Em suma, ela se direciona pela participação no espetáculo mediante a mobilização de um conhecimento que se pressupõe neutro.

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