#selfiesociologica

A ideia de “eu” (self) na sociologia foi muito explorada pela tradição do interacionismo simbólico, segundo o qual a concepção que fazemos de nós mesmos é mediada socialmente, seja pela forma como os outros nos veem, ou pela maneira que achamos que somos interpretados. Dando continuidade ao exercício proposto aos participantes do Circuito,  abaixo seguem dois relatos de como foi o processo para Daniel e Helena representarem a si mesmos, como estudantes de ciências sociais, através de uma selfie – uma selfie sociológica.

 

Daniel Máximo

Escrever sobre o conceito de uma foto não é tarefa fácil; conceber uma foto na tentativa de expressar um conceito, menos ainda. Com isso quero dizer que a concepção dessas selfies foi antes um processo do que um ato isolado de apertar um botão na câmera do meu celular.

Em primeiro lugar porque, quando se deseja transmitir uma ideia, é necessário ir além dos meros elementos presentes em um determinado ambiente; deve-se adaptar-se a eles ou adaptá-los às suas intenções anteriores. Curiosamente, a primeira opção foi o caso da minha primeira tentativa de produzir uma selfie que expressasse um dilema de conciliação entre questões postas na agenda pública e o rigor científico que uma disciplina como a Sociologia requer, inspirado pela leitura de um famoso texto de Michael Burowoy.

Nesse primeiro projeto de foto, inadequadamente em preto e branco, o observador me vê encostado contra a parede do meu próprio quarto, onde estão colados adesivos que traduzem alguns dos meus posicionamentos políticos mais enfáticos a respeito do momento controverso que atravessa a política brasileira. Meu rosto, naquelas imagens, intencionava transmitir uma ideia de incerteza ou dúvida perante a presença desses adesivos. Mais ainda, minha mão esquerda, ao mesmo tempo em que tentava esconder a presença deles, também os exibia por entre seus dedos, expressando de certa forma algum apreço pela mensagem contida neles. Posteriormente, a foto viria a ser vetada pela revisão de pares, justamente por expressar posições político-partidárias. Hoje, quando olho para ela, vejo que ela, de fato, não seria a foto mais adequada para o propósito geral do exercício das selfies.

A segunda ideia que tive para a selfie, por sua vez, encaixa-se no movimento de adaptação dos elementos presentes na imagem à mensagem que pretendia transmitir através do resultado final da foto. Contudo, mais uma vez, a tentativa não foi exatamente bem-sucedida. Dessa vez, inseri duas setas, uma preta e uma branca, localizadas acima da minha cabeça e apontadas em direções opostas, novamente na tentativa de expressar a mesma dicotomia que menciono acima.

A concepção dessa certamente foi um pouco mais difícil do que a primeira em virtude de as setas terem oriundas de um corte e cola que fiz com papéis da minha impressora. Além disso, não levei em consideração que elas deveriam estar posicionadas em uma altura adequada para o ângulo da câmera. Em função disso, fui obrigado a subir em um banco de cozinha para que meu rosto, enfim, se adequasse ao tal ângulo e, assim, ao propósito da foto. O problema dessa foi que, de certo modo, expressava que há uma oposição necessária entre rigor científico e engajamento em causas específicas, o que não corresponde à verdade dos fatos.

Por fim, a terceira e última foto: Novamente, junto às portas do meu guarda-roupa. Só que dessa vez me encontro na luxuosa companhia de Max Weber e Florestan Fernandes. De um lado, a neutralidade axiológica; de outro, a conciliação perfeita entre engajamento político e rigor científico. Eis a medida perfeita para transmitir o que entendo como meu “selfie sociológico”: a dúvida a respeito de em que medida é possível conciliar preocupação com questões caras à agenda pública e rigor científico.

 

Helena Silva

Fazer uma selfie sociológica não é algo fácil. Pelo menos é a essa conclusão que chego quando reflito sobre o meu processo de construção da minha. Como alguns dos meus colegas do Circuito, não sou uma pessoa muito inclinada para selfies. Isso fez com que num primeiro momento, ao buscar refletir sobre uma representação de mim mesma enquanto estudante de ciências sociais, eu optasse por escolher selfies antigas que possuíssem algum significado e valor para mim e cujos aspectos abrangidos pelas mesmas abarcassem aspectos que eu acredito me acompanharem enquanto estudante de ciências sociais.

Como boa introvertida que sou, percebe-se o quanto esse processo inicial situava-se num âmbito muito mais introspectivo, pouco permitindo aos outros terem a oportunidade de inferir algo sobre aquilo que exerço no momento. De fato, não havia elementos mais sugestivos nas selfies iniciais, nenhum vestígio generoso capaz de provocar naqueles que observam ao menos uma aproximação sobre o fato de eu ser estudante de ciências sociais. O resultado final foi precedido ainda de outra tentativa falha, dessa vez realmente busquei construir uma selfie, porém tive novos problemas com a composição de elementos.

Sobre a selfie final:

Resolvi compor uma selfie com elementos que sejam importantes para mim e estejam frequentemente presentes na minha trajetória enquanto estudante de Ciências Sociais, e a foto em questão está carregada deles. É manhã de uma quarta-feira e estou no meu local de trabalho, o que considero como um “ensaio” para uma de minhas possíveis atuações como cientista social. Estagio em antropologia e toda a minha rotina envolve cargas de leitura, pesquisa e elaboração de relatórios, o que me aproxima bastante de algumas tarefas desempenhadas durante a minha formação. Na mão direita, um copo de café para me manter alerta e ajudar no andamento dos trabalhos. Em segundo plano, na tela do computador, uma obra que foi bastante importante para mim pensando na minha formação em ciências sociais, porém que não possui relação direta com o meu trabalho ou o curso de ciências sociais em si, no sentido de ter sido uma obra vista durante a minha formação. Muito pelo contrário, entrar em contato com autores contemporâneos e com críticas a alguns clássicos das ciências sociais que apresentam pontos problemáticos a serem pensados na área como um todo foi uma das coisas as quais senti falta ao longo da formação.

Nesse sentido eu acho que há um forte diálogo com a reflexão sobre produção, circulação do conhecimento, epistemologias e afins. Pude entrar em contato com “Diálogos Antropológicos Contemporâneos” (2016) a partir de um trabalho a ser desenvolvido para o curso de Extensão Jurista Luiz Gama do qual participei no ano de 2017 na Faculdade Nacional de Direito. A minha ideia de abordagem inicial, em termos bem simples, visava tratar da contribuição da antropologia no posicionamento dos sujeitos negros e indígenas como o “objeto”, foi quando me deparei com os conceitos de “decolonialidade”, “projeto de modernidade/colonialidade” e afins. A obra que aparece na imagem foi uma indicação e disponibilização de uma colega com a qual formei dupla, o intuito era lermos alguns capítulos iniciais, onde há algumas considerações de antropólogos indígenas, com críticas especificamente a antropologia, exposição dos desafios que se colocam para grupos subalternizados, especificamente os indígenas, que possuem um fazer antropológico próprio que não dialoga com a matriz hegemônica da área, que acaba por impor um único modo de produção, colonizando fazeres antropológicos que possuem especificidades próprias.

Essas são principalmente as críticas e considerações do antropólogo indígena Gersem Luciano, do povo Baniwa da região do Alto Rio Negro. Não só a obra em questão e os trechos específicos descritos, como muitas outras com as quais entrei em contato para produzir o trabalho, ampliaram ainda mais a minha visão sobre a questão pensada inicialmente, me fez refletir sobre toda a minha formação e o meu próprio lugar e papel a partir dessa formação dentro das ciências sociais. Fez-me pensar como uma disciplina que se propõe a ser tão reflexiva e inclusive possui a proposta de auto-reflexividade tem sido falha justamente nesse último ponto nos termos em que deveria, ao menos é o que eu tiro de minha experiência enquanto concluinte do curso de ciências sociais, o que não exatamente me paralisa embora em certa medida provoque um descontentamento, que é compreensível e legítimo. Ao contrário, me sinto motivada a tentar me juntar a outras vozes já existentes, sobretudo de grupos subalternizados, de autores contemporâneos das ciências sociais, ajudando a levantar questões que devem ser mais avidamente e seriamente trazidas para dentro da grande área, tendo a sua devida circulação apesar de barreiras já conhecidas como a do racismo institucional. Compor essa selfie é um exercício de auto-reflexão que consequentemente acaba acionando outros processos de auto-reflexão aos quais tenho me exposto nessa trajetória de graduanda em ciências sociais.

 

E você, como se representaria?

 

 

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