Atuações em Ciências Sociais: Os usos do saber antropológico – A academia não é o limite. Entrevista com Jacira Bulhões – Analista Pericial do MPF

Por: Helena Mattos

Jacira Monteiro de Assis Bulhões é analista pericial em antropologia, possui formação em Ciências Sociais pela UERJ (bacharelado e licenciatura), especialização em Relações Internacionais, atua no Ministério Público Federal com direitos socioculturais de comunidades tradicionais e possui experiência com comunidades da região do Mato Grosso onde atuou durante muitos anos. Atualmente atende principalmente comunidades localizadas no Rio de Janeiro e no Espírito Santo. A analista participou do documentário “Marãiwatsédé: O Resgate da Terra”, lançado no dia 14 de abril de 2018 pelo MPF, em uma das ações da instituição na campanha #AbrilIndígena. Nessa breve entrevista, concedida por email no dia 13 de junho, a antropóloga fala um pouco sobre sua carreira, atuação na instituição em que é servidora, desafios e usos do saber antropológico neste espaço institucional, permitindo que entremos em contato com outras possibilidades de atuação nas ciências sociais para além da atuação acadêmica. Confira!

Fale um pouco de sua trajetória como analista pericial em antropologia no MPF e os principais desafios que tem enfrentado na sua atuação.

Em 1973 – fiz o vestibular e, em seguida, por três anos letivos o curso de Ciências Sociais na UERJ, isso foi em plena ditadura, o que me deu um conhecimento baseado principalmente na escola americana. Em 1976 já morando no Maranhão, o que motivou a mudança de curso para Economia, tive minhas primeiras experiências com a pesquisa. Desenvolvi trabalho de campo para análise e pesquisa sobre a implantação e desenvolvimento de projetos ofertados as comunidades do interior, sob a orientação do pesquisador e antropólogo Sérgio Ferretti, falecido recentemente. No Maranhão foram dez anos sabáticos que me dediquei a criação dos filhos.

Em 1985 retornei ao Rio, mas só em 90 fiz novo vestibular, ano letivo de 91, em Ciências Sociais, período pós ditadura. Fato que contribuiu para ampliar o conhecimento sobre autores das várias escolas francesa, inglesa e alemã. Construí a grade curricular tendo a Antropologia como área de concentração. Terminei o curso  em licenciatura plena e a pós em 1995. Dei aula de Sociologia e História por dois anos letivos. Participei do segundo concurso do MPF em 1996.

Fui empossada em 1998 e lotada no estado de MT, este, que possui uma diversidade ecológica deslumbrante.  Em suas matas, cerrado e pantanal vivem populações indígenas dos mais variados troncos e famílias linguísticas. São muitas as terras indígenas, demarcadas e por demarcar que geram questões fundiárias; são mais de 30 os grupos indígenas; mais de 70 as comunidades quilombolas reconhecidas e tantas outras por reconhecer; ribeirinhos e comunidades tradicionais que demandavam os serviços do MPF.

Conhecimento, esse, que aprendi a dominar, em dezesseis anos de prática na região, sendo a única perita, exercendo o cargo de Analista pericial do MPF/Perita/Antropologia. Em MT fiz a especialização em Relações Internacionais. Hoje, trabalho há quatro anos lotada no Rio de Janeiro, fato que me ampliou o conhecimento sobre a diversidade populacional deste estado e de outros como o Espírito Santo e Minas Gerais.

Explico, o dever constitucional do MPF é zelar pelo bem da sociedade e pelo cumprimento da lei, das políticas públicas, garantir os direitos fundamentais e os interesses difusos e coletivos da sociedade. Assim, o MPF tem uma atuação judicial e extrajudicial, dentro de oito temáticas. Entre elas estão os grupos de populações Indígenas e Comunidades Tradicionais, chamados de “minorias”.

Para tratar com expertise as especificidades dos temas, o MPF entendeu ser necessário constituir um grupo de peritos. Assim, foi ofertado o 1º concurso para peritos em 1993, entre as vagas, a de antropólogo. De sorte que o antropólogo no MPF tem como objetivo a produção de conhecimento aplicado, produz conhecimento sobre esses outros grupos da sociedade – populações Indígenas e Comunidades Tradicionais, para dar visibilidade a alteridade, para que não percam seus direitos fundamentais. Vejo como desafio para minha atuação: manter a excelência científica mesmo com prazos muito curtos.

 

De que forma o saber antropológico pode ser útil para lidar com a questão das comunidades tradicionais? A que fins serve esse saber na organização em questão?

A importância do saber antropológico no MPF está em dar visibilidade ao “outro”, ao seu outro mundo, sua lógica e moral, seus códigos culturais e sociais de vida, revelando aos atores jurídicos a importância dos diferentes e suas diferenças sem julgamentos e olhares hegemônicos e, assim, ajudar a dirimir controvérsias com relação a fatos, a direitos e necessidades.

 

Você acha que o uso que se faz desse saber na organização difere dos usos que se faz em outros espaços como a academia ou a escola? De que forma?

A diferença está na possibilidade de ir além da produção de um conhecimento, ou seja, fazer uso desse saber para dar visibilidade aos grupos contemporâneos, com o objetivo de garantir uma proteção institucional que venha resguardar seus direitos constitucionais, sua dinâmica de vida, identidade, sua cultura seus vínculos históricos com a terra.

  • Capa: Imagem cedida pela entrevistada. Trabalho de campo no Rio Paraguai, a caminho da Terra Indígena Umutina, em Barra do Bugres – MT (2013)
Anúncios

O que você tem a dizer sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s