#selfiesociologica

A ideia de “eu” (self) na sociologia foi muito explorada pela tradição do interacionismo simbólico, segundo o qual a concepção que fazemos de nós mesmos é mediada socialmente, seja pela forma como os outros nos veem, ou pela maneira que achamos que somos interpretados. De forma a pensar o conceito, o exercício proposto aos participantes do Circuito Acadêmico foi que tirassem uma selfie, procurando retratar elementos que representassem de alguma forma o que é ou faz um cientista social.  Qual a imagem que a sociedade tem do sociólogo? O que faz um cientista social segundo os olhos daqueles que não estudam as relações sociais? Como você se representaria caso perguntassem o que você estuda? Essas são algumas das questões que nortearam a selfie sociológica.

Abaixo, seguem dois relatos de como foi o processo de se representar em uma selfie:

Miguel Mendes

Supostamente treinado para analisar a representação dos outros sobre si mesmos, materializar em uma foto a que tenho de mim foi um desafio maior do que eu esperava.  Ponderar o que penso de mim mesmo com como vejo minha atividade sociológica cotidiana, ainda por cima tentando fugir de lugares comuns da representação do sociólogo, tudo isso expresso em um enquadramento apertado pelo comprimento do meu braço. Mais difícil que isso, só escrever um texto suficientemente denso que pudesse justificá-la.

Logo quando o exercício foi proposto, quando ouvi a brincadeira entre o self sociológico e a selfie, me veio à mente a brincadeira com o livro de Goffman. Foi algo tão espontâneo que achei que não possuiria as camadas de intencionalidade que se esperaria em uma atividade tão pautada na construção ativa de uma imagem. Para suprí-las, pensei em algo que pudesse expressar o ruminar constante da tal da imaginação sociológica enquanto vivemos nossa vida fora dos círculos acadêmicos.

Ao invés de tirar uma foto no plano de fundo mais tradicional de fotos do lattes, tentei capturar o caos urbano, esperando que os carros passando atrás de mim na São Clemente fizessem um efeito borrado interessante. Infelizmente o trânsito de Botafogo e a câmera do meu celular não se alinharam a minha concepção artística. Além de me expor ao ridículo em uma esquina da rua, a foto ficou ruim.

Para minha surpresa, minha primeira ideia, que julgara indevidamente leviana, foi aceita. A verdade é que ela foi concebida como uma piada para brincar com os membros do projeto. E, se tem uma corrente intelectual com a qual eu me identifico plenamente é a de que não se explica uma piada. Mesmo assim, por compromissos, devo fazê-lo.

Para isso, empunhei uma versão alternativa do clássico de Erving Goffman que, como o original, sugere que ativamente modulamos a forma como nos portamos nas diversas interações nas quais nos envolvemos no ambiente acadêmico (ou, no nosso cotidiano). Goffman fala de uma verdadeira preparação do personagem que antecede sua entrada em cena (nesse caso, em quadro). Não fiz diferente, coloquei meus óculos, minha melhor cara de intelectual e me posicionei estrategicamente na frente do lugar que mais sugerisse essa prática – confortavelmente a dois passos da minha cama.

De fato tirei duas versões da foto, que incluíram entre si umas 20 tentativas para cada. As primeiras, com uma câmera e uma iluminação pior, ficaram pouco definidas  e expunham demais meu lado boêmio. Para as segundas, pensei melhor em seu enquadramento, o quem mostrar da minha estante, que partes da minha cara revelar, e reforcei a alteração no título do livro. Foi assim que, nesta encruzilhada entre representar visualmente minha representação de mim mesmo e a do meu fazer sociológico, apelei para a (suposta) graça.

 

Julia Kovac

O processo de se pensar e construir uma imagem enquanto estudante de Ciências Sociais é desafiador. Porque, apesar desta ser uma das partes que me compõe, ela mesma é composta por várias facetas. Escolher apenas uma e ainda por cima uma que pudesse ser representada em uma fotografia foi a primeira dificuldade que tive quando me deparei com essa proposta.

Dentro dessa reflexão, um dos pensamentos que tive me transporta imediatamente ao centro de alguma cidade. Como moro no Rio de Janeiro, me transporta pra lá porque acredito que os centros representam e sintetizam uma das formas como eu vejo as Ciências Sociais. É lá que está exposto diversos tipos de relações e realidades sociais. Os centros são grandes campos de estudo. A atmosfera caótica e de contraste rende pesquisas e análises variadas. O movimento, o vai e vem desordenado, a correria, tudo isso é metáfora e ao mesmo tempo representação concreta da nossa rotina. São sempre mil livros, artigos, ensaios, resenhas, entrevistas para serem lidos e escritos. Apesar de ser meio paradoxal, o movimento é uma constante em nossas vidas. E essa fração do que é ser cientista social também está retratada nos centros.

A escolha do livro de Caio Prado Júnior para fazer alusão ao universo acadêmico, compondo assim a imagem juntamente com o centro, deu-se porque além de ser um autor que admiro, ele teoriza sobre a realidade e formação da sociedade brasileira, que é um dos temas que mais me interessa dentro do campo da Sociologia e das Ciências Sociais num geral. Ademais, Caio era concomitantemente militante, o que é mais um ponto de identificação que possuo com o autor, pois, assim como ele, eu também o sou.

Juntando a referência com o movimento das pessoas como fundo, me coloquei em primeiro plano para dar destaque ao sociólogo e a academia frente o ambiente social, como forma de representar um pouco do fazer do cientista social, enquanto observador analítico deste mesmo ambiente. O contraste entre as lojas físicas de marca e o camelô é uma forma de representar a diversidade das realidades sociais existentes.

Depois de pensada essa composição da imagem, tirar as selfies em si foi uma etapa engraçada. Foi difícil segurar o livro e o celular ao mesmo tempo e ainda apertar o botão para bater a foto. Estava acompanhada de uma amiga, que me avisava quando as  pessoas estavam se aproximando, para que eu tentasse capturá-las na foto. Fiquei em dúvida ainda se deveria sorrir ou não e no final acabei não sorrindo na maior parte das fotos. E ser observada enquanto todo esse processo acontecia fez ser difícil se concentrar na atividade e me deixou um pouco envergonhada, já que não é todo dia que uma pessoa para no meio do centro da cidade com um livro e começa a tirar selfies.

A reação das pessoas à essa situação também foi algo muito interessante de ser observado. Umas olhavam com estranheza, outras riam, muitas ignoravam e tiveram as que ficaram tentadas a parar e perguntar o que estávamos fazendo. E é justamente por isso que essa proposta foi tão desafiadora mas ao mesmo tempo excitante. Pois ela própria foi quase um campo e mobilizou a criatividade, aliada à conceitos e resultou em um fazer sociológico.

 

E você, como se representaria?

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