PEDAGOGINGA: deixa os menó falar, deixa os menó aprender.

Por Aza NoAr.

 Se o racismo influencia diariamente na vida de homens e mulheres negras, como pensar que ele não afeta nossas crianças e a construção de sua intelectualidade? O ensino público brasileiro possui diversos déficits, mas, por agora, acompanhada pelo clipe “Pedagoginga”, de Thiago Elniño, falarei do racial.

Thiago Elniño é MC, educador popular e pedagogo. Já lançou o álbum “A rotina do pombo”,  os EP’S “Cavalos de Briga”, “Filhos de um Deus que dança” e a mixtape “Fundamento”. É válido ressaltar que toda sua arte é voltada para questões sociais, o que nos permite entender como a obra resenhada pôde ser  produzida com tanta conexão entre o entreter e ensinar, pedagoginga pura.

 

“Pra superação, tanta humilhação

Atravessar o oceano para trampar na sua plantação

Café, algodão, cana, escravidão

Alforriaram o nosso corpo, mas deixaram as mentes na prisão”

 

Em seu rap “Pedagoginga”, Elniño contextualiza sua crítica trazendo à tona o período escravocrata que por muito perdurou no Brasil. Africanos vindos em condições de escravizados, e seus descendentes, embora após muito tempo tenham sido libertos, foram excluídos  socialmente, sendo obrigados a criar seus próprios métodos educacionais, como por exemplo as rodas de capoeira e os terreiros de axé.

 

O Enredo do clipe de “Pedagoginga” é bem simples, mas com diversas possibilidades em seu significado: uma criança negra deseja informação, mas não consegue obtê-la na escola e se dispõe então a roubar livros, tendo como proteção duas entidades com referências à religiosidade afro-brasileira lhe acompanhando.

 

Os elementos religiosos podem ser uma representação metafórica das religiões afro-brasileiras, que com muita resistência continuam mantendo de pé grande parte da cultura de todo um povo que lida diariamente com o genocídio e o epistemicídio. Também podem significar um aviso relacionado ao descaso do Estado. Afinal, se ele não nos protege, em quem ou no que pode o povo preto confiar se não em seus orixás e ancestrais?

 

“Não! Abre logo a porra do cofre

Não tô falando de dinheiro, eu falo de conhecimento

Eu não quero mais estudar na sua escola

Que não conta a minha história, na verdade me mata por dentro”

 

Nesta estrofe de seu rap, Thiago evidência a questão do estereótipo de agressividade estendido sob a população negra, principalmente sobre o homem negro, que tem seu corpo visto como alvo do medo ou da descrença do meio social no qual se encontra. É muito comum a imagem do homem negro ser divulgada no lugar da agressividade, e acredito que isso tenha reflexo na formação de identidade dos alunos negros, principalmente atuando como fator desmotivacional aos estudos. Afinal, pra que tentar ser algo diferente se o mundo já te diz quem você é?

 

“Mano, vou te falar ein, ô lugar que eu odiava

Eu não entendia porra nenhuma do que a professora me falava

Ela explicava, explicava, querendo que eu

Criasse um interesse num mundo que não tinha nada a ver com o meu

Não sei se a escola aliena mais do que informa

Te revolta ou te conforma com as merdas que o mundo tá

Nem todo livro, irmão, foi feito pra livrar

Depende da história contada e também de quem vai contar”

 

Chegamos em um momento complexo e denso, onde o rapper levanta dois pontos não muito discutidos no que se diz respeito a ensino público: contextualização das dinâmicas de aula e conexão com os conteúdos. Eu, enquanto aluna de ensino público, muitas vezes me via completamente distante da sala de aula pelo simples fato de que ela em nada dialogava com o meu mundo, repleto de violência, adversidade e incertezas. Me lembro como se fosse ontem de mim, no último banco do ônibus pensando “Deus, eu não quero ser atendente de cinema para sempre”, isso aconteceu quando eu tinha dezesseis anos.

 

Também odiei a escola, assim como Elniño (ou o “eu lírico” do rap citado), e o principal motivo eram os professores. Riam das minhas dúvidas “bobas”, se recusavam a explicar pela quarta vez, e nunca me faziam sentir capaz. Acabei assim sendo protegida pelos livros e pela ancestralidade, tal como a personagem principal de Pedagoginga.

Hoje, mulher negra e universitária e cineasta aos vinte e um, consigo me imaginar em lugares que me pareciam impossíveis de chegar mesmo em sonho, só por saber que eles existem. Hoje conheço escritoras negras, cineastas negras. Enfim, consigo encontrar outros como eu, em diversos papéis diferentes, e sei o quanto isso influencia minha jornada. Assim como também sei como não se ver em lugar algum afeta os alunos negros do ensino público.

 

Mas apesar das dificuldades enfrentadas, eu tenho orgulho de ter saído de um lugar tão hostil e conseguido, através dos esforços da  minha comunidade, um futuro tão distante que por muito tempo nem conseguia imaginar. Vejo no clipe de “Pedagoginga” inspiração pra continuar tendo fé em mim e nos meus, afinal, enquanto o ensino público  não nos alcançar através de uma dinâmica que nos acolha e  que de fato nos ensine, nós vai de PEDAGOGINGA mesmo.

Link do clipe de “Pedagoginga”: https://www.youtube.com/watch?v=lEM-zYi7hcs

Letra completa do rap “Pedagoginga”: https://genius.com/Thiago-elnino-pedagoginga-lyrics

Saiba mais sobre o Mc Thiago Elniño: http://www.thiagoelnino.com/

Crédito de imagem: João Victor Medeiros

 

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