Que tipo de cientista social estamos formando?

Por Miguel Mendes

Uma questão que me aflige, e imagino que a todos os estudantes do curso, desde que escolhi cursar Ciências Sociais é: o que farei depois de me formar?  Neste breve ensaio buscarei concretizar reflexões a respeito disso, como fruto da pesquisa que desenvolvi para a 8ª Semana de Integração Acadêmica da UFRJ. Será que existe uma ampla gama de inserções profissionais possíveis aos graduados em Ciências Sociais? Elas são igualmente reconhecidas?

Destaco que aqui abordarei problemas que atingem alunos que ou já estão ou que estão prestes a sair dela, por terem completado o curso. Demoraria diversas páginas para tratar dos inúmeros crivos que devem ser superados para se entrar neste espaço e, tão importante quanto, para se manter nele.

Para se falar das possibilidades profissionais postas aos alunos de Ciências Sociais, deve-se começar pelo princípio: a escolha do curso. Uma pesquisa realizada por Simon Schwartzman com alunos da USP em 1995  apontou que apenas 17% dos alunos escolheram o curso por acharem que esse melhoraria suas “chances de conseguir um bom emprego”. Por outro lado, em um evento que resenhei para o Circuito as pesquisadoras demonstraram que, dos alunos que entraram na UFRJ em 2013, 86% o fez por achar que o curso se alinhava às suas aptidões pessoais.

Se para escolher o curso a inserção no mercado de trabalho foi secundária, a literatura aponta que, ao longo da graduação, este tema é abordado de modo tangencial. Para Durand, os cursos – na verdade, os docentes – no país passam uma visão excessivamente academicista da profissão, beirando a hostilidade em relação a exercícios extra-acadêmicos desta. Talvez por isso, diversos egressos do curso entrevistados sobre o assunto (disponíveis em ALVES 2007, MICK et al. 2012 , TORINI 2012, entre outros) relataram considerar a docência universitária como a atuação por excelência dos cientistas sociais.

A hostilidade relatada por Durand se traduz, para Bonelli, em uma divisão assimétrica de prestígio entre os exercícios das ciências sociais. A autora argumenta que a expansão universitária experienciada pelo país nas décadas de 70 e 80 – e a consequente absorção dos graduados – contribuiu para a concepção de que o curso teria como objetivo a renovação de seu quadro docente.

Mesmo sendo a ocupação mais reconhecida e a qual os alunos são mais expostos ao longo da graduação, na mesma pesquisa Bonelli apontou que apenas 13,3% dos filiados à ASESP (Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo) eram professores universitários. Braga chega a falar de uma diferença clara entre os papéis que se espera que os cientistas sociais desempenhem e o que de fato eles vêm desempenhando.

Se Cano fala de um esforço em tornar os graduados em eruditos, mais capazes de citar extensas bibliografias do que de basear seus argumentos em dados empiricamente coletados, os entrevistados das pesquisas supracitadas, muitos atuantes no mercado privado de pesquisa, corroboram suas afirmações. Eles relatam um total despreparo, ao sair da graduação, para o exercício das funções que lhes são atribuídas. Fala-se até da necessidade do mercado de reformar esses graduados.

Há um grande entrave se as capacidades mais requisitadas dos cientistas sociais fora da Universidade – segundo as pesquisas, seu arsenal metodológico – não são devidamente treinadas ao longo da formação dos mesmos. Na verdade, parece que apenas a graduação, de modo geral, é insuficiente para a inserção profissional dos graduados no curso. Em outra pesquisa, Schwtartzman aponta para a chocante cifra de que, dividindo o número de graduados no curso pelo de matriculados em mestrados da área, tem-se um mestrando a cada dois formados.

Por um lado, podemos nos perguntar de que forma o mercado absorve estes cientistas sociais, que funções espera-se que eles desempenhem e quão alinhadas elas estão com o que consideramos como ciências sociais. Se achamos que estas são praticadas essencialmente em um ambiente acadêmico e desinteressado, talvez esse tipo de debate não faça nem sentido. Por outro, por mais que possamos nos preocupar com a futura inserção dos alunos, devemos sempre estar atentos a como permitimos que as demandas do mercado privado afetem como pensamos o curso como um todo. No final das contas, a questão me parece ser do projeto que temos para o curso: que tipo de profissional/cientista espera-se formar e quão bem estamos o fazendo.

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Uma consideração sobre “Que tipo de cientista social estamos formando?”

  1. “tem-se um mestrando a cada dois formados”………colocando que a graduação não é a melhor de todos os tempos, o que acontece com a qualidade da pós? A galera tem procurado a pós para fazer pesquisa, fugir do desemprego, ou de alguma forma se manter na área?

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