“Existe algo sobre isso que não possa ser debatido?” Sobre as lacunas do ensino de ciências sociais no Brasil

Por: Helena Mattos

O ensaio se propõe a discutir as lacunas do ensino das ciências sociais no Brasil considerando minha experiência como estudante negra de ciências sociais.  Pretendo pontuar alguns aspectos, como a transmissão de saberes na academia, sobretudo em antropologia, e as implicações deficitárias que repercutem no novo alunado que tem sido incorporado a partir da política de ações afirmativas, em especial alunos pertencentes a grupos subalternizados.  A partir do ingresso de tais alunos na área de ciências sociais, se faz urgente repensar a forma como o curso é estruturado.

Para além do ingresso, devemos buscar a verdadeira inserção. Movimentando-nos no sentido de derrubar as barreiras que impedem ou dificultam que haja uma mudança no lugar que foi reservado aos mesmos, para que passem(os) de “objeto de estudo” a protagonistas e produtores do conhecimento devidamente reconhecidos, respeitando-se também as necessidades específicas que a produção de nossos saberes possa demandar.

O baniwa antropólogo Gersem Luciano (2016) comenta sobre as especificidades de antropólogos indígenas. Segundo ele, por serem membros de culturas particulares, seus fazeres antropológicos também são diferenciados. Pertencendo a matrizes culturais,
metodológicas e epistemológicas próprias, distintas das que deram origem à antropologia clássica. É interessante também trazer um relato presente no artigo “Relatos de uma mulher negra na pós-graduação: trajetória educacional”.  A entrevistada, identificada apenas como “mestra em Psicologia Social”, fornece a seguinte resposta sobre ser “pesquisadora” e “pesquisadora negra” no Brasil:

“Ser uma pesquisadora em minha opinião é buscar referenciais, para desenvolver a sua pesquisa, não significa apenas referenciais teóricos ‘academicistas’. No meu modo de ver, implica em fazer um exercício de olhar a sociedade na qual você está inserido e verificar que referenciais ao redor podem pautar uma reflexão a respeito do tema pesquisado. Ser uma pesquisadora negra, eu acho que implica, demanda que as formas de ser e estar no mundo das civilizações negras seja trazido para a pesquisa, porque senão, a meu ver, seremos apenas pesquisadores de pertença étnico-racial negra, ou de cor negra, fazendo pesquisa dentro do mundo branco, dentro do mundo do ‘pensamento academicista’, racista e egocêntrico. […] Eu não estou sozinha, não sou eu indivíduo trilhando uma carreira e logrando êxito profissional única e exclusivamente por essa via. Sou eu e toda minha ancestralidade, e todas as pessoas da minha família que me ajudam, me ajudaram, e estão comigo”
(SILVA, M.A.B , 2017)

O texto principal no qual me baseei para desenvolver o ensaio é uma publicação de um site destinado a divulgação científica em espanhol, chamado Psyciencia. O texto é de autoria da psicóloga Gabriela Wabeke e se chama “¿Hay algo de esto que no funcione? Mi crítica al psicoanálisis y al sistema educativo argentino”. Nesse texto, Wabeke desenvolve sua crítica pessoal a psicanálise como forma de propor que se repense o que é considerado normal e aceitável, só porque nos acostumamos com isso​, a partir da pergunta “Existe algo
sobre isso que não funcione?”

Essa simples pergunta, feita por um de seus colegas na pós-graduação em psicanálise lacaniana, questionava sobre a doutrina ensinada na sala de aula e a forma como a mesma era ensinada. Isso levou Wabeke a repensar toda a sua carreira dentro da psicanálise e a questionar o curso no qual estava se pós-graduando, bem como o sistema educacional na Argentina, que, segundo a autora, não tinha como norma ensinar, nem facilitar o acesso a outras teorias, e, por esse motivo, não funcionava. Sua experiência de questionamento, se assemelha a minha,  dentro das ciências sociais, e enquanto aluna negra a partir de determinado momento da graduação. Se, no caso de Wabeke, a pergunta que se coloca é “¿Hay algo de esto que no funcione?”, a pergunta que me surgiu em determinado momento foi: “Existe algo sobre isso que não possa ser debatido?”

A partir dessa pergunta me refiro, inicialmente, a como, ao menos na minha formação, observei constantemente uma atitude de evitação, por parte de alguns professores, em comentar aspectos problemáticos de textos discutidos em sala de aula, sobretudo clássicos das ciências sociais. Me refiro a textos que trazem características que, enquanto antropólogos, deveríamos evitar, como a reprodução do etnocentrismo. Em lugar de abrirem espaço para discutirmos ou mesmo analisarmos as condições da produção do conhecimento que se está transmitindo, frequentemente optam por oferecer uma versão “purificada” do texto que está sendo lido, ou, em caso de comentarem um aspecto ou outro, tratam de rapidamente dispensá-lo.

Atitudes como essas impedem que seja posta uma autocrítica necessária às ciências sociais, repensando tanto as produções hegemônicas da grande área, seu surgimento e relação com o eurocentrismo, bem como as obstruções, manutenção, sustentação e perpetuação de realidades como o racismo institucional e desigualdades educacionais que recaem sobre estudantes de grupos subalternizados.

Referências bibliográficas:
RIAL, C. (Org.) ; SCHWADE, E. (Org.) . DIÁLOGOS ANTROPOLÓGICOS CONTEMPORÂNEOS. 1a.. ed. BRASILIA: ABA PUBLICAÇÕES, 2016. 184p

ANTONIO BATISTA DA SILVA, MARCOS . RELATOS DE UMA MULHER NEGRA NA PÓS-GRADUAÇÃO: Trajetória educacional. ITINERARIUS REFLECTIONIS (ONLINE) , v. 13, p. 1-19, 2017.

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