Literatura feminista: gênero, desigualdade e produção científica.

Por Júlia Kovac.

A relação entre ciência e gênero é marcada historicamente pela desigualdade. Silenciadas durante séculos, – Hildete Pereira fala sobre isso nesta entrevista concedida ao Circuito Acadêmico – grandes mulheres cientistas viram e ainda veem seus nomes serem apagados de grandes invenções e descobertas. Se a história é escrita pelos vencedores, as mulheres por muito tempo não tiveram espaço e poder para disputar e contar suas narrativas. O resultado é uma história da ciência sem a presença feminina e, consequentemente, gerações de cientistas para lhes inspirar.

Felizmente, este cenário vem se modificando nos últimos anos. Neste sentido, destaca-se o projeto Mulheres na Ciência, uma plataforma colaborativa que visa divulgar e ser um espaço de troca entre mulheres cientistas. Outro exemplo é o  Pioneiras da Ciência, do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), que busca contar a história das mulheres cientistas brasileiras e suas contribuições.

Essas transformações são possíveis por se relacionar também com uma mudança comportamental que vem sendo estruturada a âmbito internacional e regional. Modificações essas que não vieram sem atuação histórica e constante das mulheres, como nos diz Hildete Pereira. A licença-maternidade para bolsistas de mestrado e doutorado da CAPES e CNPq, implementada em 2010, é um dos indicadores desse processo, no sentido de alteração do ambiente científico favorecendo a  presença e construção de carreira de mulheres cientistas.

Conectada a essas mudanças, a literatura feminista – romances, manifestos, relatos de escritoras que colaboram para a disseminação de ideias, princípios e teorias feministas – também possui um papel fundamental no processo de transformação comportamental, enquanto influência na formação da nova geração de mulheres, principalmente dos anos 2010 para cá (tema abordado neste artigo).

O livro da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, “Para Educar Crianças Feministas: Um Manifesto”, é uma grande contribuição nesse sentido. Escrito inicialmente como uma carta a uma amiga, editado e depois publicado, esse manifesto se estrutura em torno de 15 sugestões gerais para que a criança tome ciência e compreenda as desigualdades de gênero, de modo a enfrentá-las.

Adichie constrói seu livro como um mapa das próprias reflexões feministas, ressaltando a urgência de se ter conversas honestas e espaços de troca e diálogo sobre maneiras alternativas de criar os filhos. Ela parte do pressuposto que o feminismo é sempre uma questão de contexto, explicando que não nenhuma regra ou uma “resposta pronta feminista” para tudo. O que há são ferramentas e reflexões que nos ajudam a elaborar propostas e conselhos.

A autora expõe suas sugestões, dentre as quais destaca o rompimento com a ideia de que maternidade e trabalho são excludentes, o ensinamento de que “papéis de gênero” são totalmente absurdos e como a autonomia é a contrapartida a esses papéis, o questionamento da própria linguagem, pois a mesma é o repositório de preconceitos e pressupostos e o uso seletivo da biologia como “razão” para certas normas sociais.

“Se não empregarmos a camisa de força do gênero nas crianças pequenas, daremos a elas espaço para alcançar todo o seu potencial”, diz Adichie. Partindo dessa afirmação e estabelecendo uma relação entre literatura feminista e mudança comportamental, podemos dizer que, dentre as transformações ocorridas, está a do  mundo da ciência, tal como revela o estudo da Elsevier’s Research Intelligence sobre Gênero no Panorama Global da Pesquisa, que aponta o Brasil como o líder do ranking mundial de igualdade de gênero na ciência.

A partir do início dessa mudança, incentivada por projetos como os citados acima e tantos outros, há o encadeamento também na produção de uma literatura que  fornece condições de possibilidade para mulheres, difundindo ideias e princípios de emancipação que incidem e influenciam no incentivo e na abertura da ciência para as mulheres.

Quando as mulheres compreendem, através da literatura feminista e ocupam este espaço e se deparam com projetos como o Pioneiras da Ciência e a licença-maternidade, que as fazem reafirmar o pertencimento à esse espaço e manter-se nele, elas provocam e dão curso à mudança comportamental. É um ciclo que se fortalece e vem gerando resultados, mesmo que moderados.

Isso se conecta com uma outra frase, da filósofa Simone de Beauvoir, do livro O Segundo Sexo: “O drama da mulher é esse conflito entre a reivindicação fundamental de todo sujeito que se põe sempre como o essencial e as exigências de uma situação que a constitui como inessencial.”. Historicamente, como já fora sinalizado, as mulheres foram postas como passivas e não pertencentes ao mundo científico.

As mudanças são postas no sentido desse conflito, de afirmação por parte das mesmas como essenciais, pertencentes, sujeitas de ação. Ela é feita a partir do reconhecimento desta identidade por parte das mulheres, embasada e apoiada em uma consciência da emancipação como direito, que é criada em diálogo com esta literatura feminista apontada acima.

Referência bibliográfica: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Para Educar Crianças Feministas: Um Manifesto. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

  • Pintura por Aaron Shikler
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