Vamos falar da licenciatura? Dilemas e desafios do ensino da sociologia

Por João Paulo Ricotta

Um licenciando pode pesquisar? Há alguma defasagem nos currículos de licenciatura que comprometam a prática de pesquisa? As questões colocam dois problemas em evidência: um problema normativo, referente à primeira delas, e um problema de ordem operacional, referente à segunda, que diz respeito a estrutura curricular dos cursos de licenciatura. Trazendo a discussão para o campo das ciencias sociais, é preciso ressaltar que não estamos tratando apenas de uma expansão de horizontes profissionais, mas de um enriquecimento na própria prática do professor formado, que é sobretudo um difusor de conhecimento em sala de aula.

Para Amaury Cesar Moraes, em artigo já resenhado aqui no circuito, a presença das ciências sociais no ensino médio (como disciplina de Sociologia), além de comprometida com a formação de um cidadão crítico, desempenha a importante função de reduzir as diferenças de formação entre o ensino básico e o ensino superior, ao preparar possíveis estudantes universitários de ciências sociais do futuro. É nesse sentido que se afirma a importância de integrar ensino e pesquisa já na formação do licenciando. Familiarizado com os processos de produção e difusão do conhecimento científico, esse profissional pode garantir uma formação que contemple as demandas de articulação entre os diferentes níveis de ensino.

 

Na necessidade de compartilhar tais reflexões, se constituiu coletivamente a primeira Jornada Acadêmica da Licenciatura em Ciências sociais. Organizada pelos estudantes do Núcleo Autônomo da Licenciatura em Ciências Sociais (NALCS) em parceria com o departamento de sociologia, a Jornada ocorreu entre os meses de abril e junho de 2018, no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS – UFRJ), oferecendo uma sequência de atividades distribuídas no calendário para possibilitar a participação do maior número de pessoas. Também foram garantidos certificados individuais por atividade, para aqueles que não pudessem participar de toda a programação.

A mesa de abertura – Dilemas e desafios do ensino da sociologia, ocorrida no dia nove de abril, contou com a participação de Antonio Brasil Jr, professor do departamento de sociologia do IFCS – UFRJ, Cristiane Candido, professora de sociologia nas redes pública e privada, Julia Polessa e Anita Handfas, ambas professoras de prática de ensino no curso de Licenciatura em Ciências Sociais da UFRJ. As exposições na mesa foram precedidas da apresentação de uma entrevista com o professor Antônio Brasil realizada pelos alunos Victor Alcântara e Venâncio Batalhone. O material, produzido durante o ano anterior, tinha por intuito abordar justamente as dicotomias entre a formação do bacharelado e da licenciatura, além da discussão a respeito do  lugar da sociologia no ensino básico. Retomando as colocações feitas na entrevista, o professor fez um histórico da sociologia na esfera pública brasileira, reforçando o espaço escolar como mediador deste processo.

Uma discussão importante trazida mais adiante à mesa foi o processo de  institucionalização da sociologia no Brasil ao longo dos anos. A linha do tempo do ensino de sociologia no Brasil, organizada pela professora Julia Polessa no âmbito do Laboratório do Ensino de Sociologia (Labes), mostra, juntamente com os dados sobre a inserção da disciplina nas escolas brasileiras, o surgimento de associações e organizações profissionais de sociólogos, tais como ABA, SBS, APSERJ, ABCP).  A professora Cristiane, por sua vez, trouxe suas leituras sobre a prática docente nas escolas em que atua e sua leitura sobre os impactos diretos das reformas em curso sobre sua prática profissional. Fechando a mesa, a professora Anita compartilhou uma leitura inicial da Base Nacoinal Comum Curricular (BNCC), lançada às vésperas do encontro.

Esse primeiro evento da jornada contou com uma participação expressiva de alunos, tanto da licenciatura como do bacharelado. As exposições dos convidados à mesa, além de destacarem um movimento de desenvolvimento da sociologia que envolve tanto o ensino como a pesquisa, mostraram também que o próprio ensino de sociologia pode e deve ser objeto de pesquisa. É válido  ressaltar ainda o momento em que tal jornada se iniciou, marcado pelo horizonte de reformas profundas no ensino médio. Com a efetivação da medida provisória nº746 (Lei nº 13.415/2017), todas as disciplinas, exceto português e matemática, foram distribuídas em itinerários formativos definidos pela BNCC Esta, no que diz respeito a disciplinas como  Sociologia, Filosofia, Geografia e História, condensa conteúdos na grande área das ciências humanas. É pertinente, contudo, nesse momento no qual o próprio sentido da licenciatura é colocado em xeque, o comprometimento dos estudantes com sua formação profissional, reafirmando competências e mediações que só podem se desenvolver em um curso de licenciatura plena.

Fotos: Giovani Fiorin

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