Sociologia, fácil de se reconhecer, difícil de definir

Por Miguel Mendes e Mayara Farage

Na noite da segunda feira passada, 11/06/2018, foi lançado no IESP o primeiro livro do sociólogo argentino Juan Pedro Blois “Medio siglo de sociología en la Argentina. Ciencia, profesión y política (1957-2007)”. A mesa do evento contou com a participação dos professores Antonio Brasil Jr, IFCS-UFRJ e pesquisador do campo de Pensamento Social Brasileiro, Eloísa Martín, IFCS-UFRJ e que pesquisa produção do conhecimento e disciplinarização da sociologia, e de José Maurício Domingues, do próprio IESP-UERJ e que já foi professor visitante na UBA. Devemos ressaltar que não pudemos ler livro, portanto a resenha a seguir trata das falas dos professores presentes.

Foto1
Da esquerda para a direita: Juan Pedro Blois, José Maurício Domingues, Antonio Brasil e Eloisa Martin

O livro, como indica o título, trata do último meio século de sociologia na Argentina, mais especificamente da sociologia feita na  UBA. É parte de uma coleção sobre a História e Memória da Universidade de Buenos Aires, porém não se restringe somente ao lado comemorativo. Seu subtítulo aponta para uma dimensão muito interessante do trabalho: a disputa pela definição do que seria a sociologia.  Em vez de recorrer ao conceito de campo de Bourdieu, o autor se refere à sociologia do país como um espaço; uma noção que, segundo ele, expressa melhor a heterogeneidade discursiva e prática da disciplina.

O autor explora como esse espaço se formou ao redor de três possibilidades de prática da sociologia: a científica, a profissional e a política. Em momentos diferentes, Blois nota, cada uma delas foi mais ou menos valorizada. Se em um momento achou-se que a sociologia seria um vetor de transformação social, em outro acreditou-se na importância do rigor científico para o seu exercício. Surpreendeu-nos a importância atribuída à sociologia no debate público argentino, com considerável circulação na imprensa nacional, extrapolando o público acadêmico. Destaca-se também como os estudantes mobilizavam e forçaram espaço de discussão dentro da política e da Universidade

O interessante é como Blois é capaz de tratar do desenvolvimento da disciplina condensando o que se chama de sociologia dos intelectuais com a das ideias, contextualizando os primeiros e dando rostos as segundas. Assim, como destacado por Antonio Brasil, sua análise não se prende a uma avaliação da autonomia do campo científico, nem a uma descrição de linhagens intelectuais. Trata, por sua vez, da maneira como os agentes envolvidos na consolidação desse espaço enxergavam, praticavam e projetavam o fazer sociológico.

Ele destaca também que os estudos sobre a sociologia argentina se faziam por cada período ou ruptura, mostrando cada ator e seu tempo. Seu livro se sobressai por unir todos esses períodos e suas rupturas, apontando como a sociologia na Argentina se fez e manteve ao longo destes. E deve-se créditos ao autor por conseguir condensar 50 anos de processos tão diversos em 300 e poucas páginas.

A comparação entre a Argentina e o Brasil é inevitável, ainda mais se considerarmos que o livro foi escrito, segundo Blois, no trânsito entre os dois países. Por um lado, a sociologia brasileira sempre se identificou mais com o ambiente acadêmico, não havendo uma abertura tão grande quanto a do outro país, onde não são raros, por exemplo, os sociólogos colunistas. Por outro, Blois fala de processos que atingiram as universidades argentinas a partir da década de noventa e que também foram e são sentidos nas daqui. Por exemplo, a padronização da cobrança por um tipo específico de produtividade, como a publicação em periódicos com revisão de pares, com menos apelo ao público não acadêmico, o que restringiria a relevância de sociólogos no debate público. Um ponto que foi destacado pela Professora Eloisa Martin durante sua explanação e que serve de ponto de referência para se pensar é o de que na década de 90, quando ela estudava na UBA, o curso contava com um corpo discente de cerca de 800 alunos ingressando por ano entre o turno diurno e noturno.

Assim, Blois traça uma genealogia nem um pouco teleológica sobre a sociologia argentina, demonstrando grandes eixos temáticos e práticos por onde a disciplina se desenvolveu nesse meio século.  Em um espaço permeado por assimetrias e descontinuidades, mostra como se chegou onde estão e como esse percurso não poderia ter sido previsto por ninguém. O resultado desse desenvolvimento aponta quase para uma polissemia do termo sociologia; embora seja fácil dizer de longe o que é, difícil é agrupar todos os possíveis fazeres em um todo unívoco. O livro foi escrito em ordem cronológica respeitando os períodos e rupturas de acordo com a ordem em que elas aconteceram, sem grandes saltos ou mudanças bruscas, tornando assim a sua leitura mais fluída e fácil. Nem que seja apenas por curiosidade sobre o tema, o livro vale o tempo do leitor.

foto2
O Autor Juan Pedro Blois, seu livro e a professora Eloisa Martin
Anúncios

O que você tem a dizer sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s