Resenha do evento “Para onde vão os cientistas sociais?”

Por: Miguel Mendes

“Com o que posso trabalhar depois de me formar em Ciências Sociais?” é uma pergunta que passa constantemente pela cabeça de todos os alunos do curso. Atrás de respostas para ela, um grupo de alunas da graduação de Ciências Sociais da UFRJ, Alice Machado, Ana Carolina Lourenço, Caroline Serôdio, Daniela Souza, Flora de Araujo, Gizelle de Castro, Paloma Porfirio e Vivian Santos, coordenadas pela pesquisadora e professora da casa Felícia Picanço, entrevistou 197 bacharéis em Ciências Sociais, formados na UFRJ entre 2000 e 2013. Os primeiros resultados da pesquisa foram apresentados no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais na segunda feira, 21 de agosto de 2017.

É importante ressaltar que a pesquisa foi feita a partir do Núcleo Docente Estruturante (NDE), entidade docente encarregada de avaliar o curso de Ciências Sociais, principalmente questões referentes ao currículo. Nesse sentido, uma imagem clara de como os egressos do curso se inserem no mercado de trabalho é essencial para a reflexão sobre o curso como um todo.

Das informações apresentadas, as que mais chamaram a minha atenção apontam para uma distância do curso com o mundo do trabalho de modo geral. Segundo dados levantados pela própria Universidade, 76% dos alunos que entraram em 2013 esperavam que o curso oferecesse “cultura geral e conhecimento para entender o mundo” e 86% deles disseram ter escolhido-o por aptidões pessoais.

Uma queixa bastante comum dos alunos do curso é sobre a falta de oportunidades profissionais ao longo da graduação. Dos egressos entrevistados, mais de 70% não teve um emprego estável ao longo da graduação e 35% sequer trabalhou. Um dado bastante relevante levantado pelas pesquisadoras é de que ter trabalhado ao longo da graduação aumentou em média em um ano o tempo de conclusão do curso.

Essa distância fica mais evidente se considerarmos que, além das poucas oportunidades de trabalho ao longo da graduação, há a percepção de que o diploma de bacharel em Ciências Sociais é insuficiente para uma boa inserção no mercado de trabalho. Dos entrevistados, 37% seguiram para um mestrado na área, 15% para um mestrado em outra área e 17% cursou uma segunda graduação. Aqui devo deixar uma ressalva: como os entrevistados foram encontrados majoritariamente pelo FaceBook, é possível que haja uma assimetria na amostra, há de se supor que alunos que se mantiveram na academia foram mais facilmente atingidos pelas redes mobilizadas por professores do Instituto. De qualquer forma, os dados são bastante expressivos.

Sobre a ocupação atual, qual foi o destino profissional dos egressos? Um pouco menos de 30% atualmente é bolsista (14,7% é bolsista de pós-graduação e 14,7% recebe a bolsa e trabalha), 17,8% é professor de ensino fundamental ou médio (relembrando que os entrevistados são egressos do bacharelado), 6,1% é professor universitário e 8,6% está desempregado.

A predominância de bolsistas, de novo, reafirma a percepção de que o diploma de bacharel é insuficiente para a inserção no mercado de trabalho. Ao mesmo tempo, aponta para um fenômeno já extensamente discutido na “sociologia dos sociólogos”: a sobrevalorização do trabalho de pesquisador em relação à docência ou a empregos na iniciativa privada.

Foram apresentados alguns dados que, mesmo que não sejam discutidos em mais profundidade, acho que merecem ser ao menos destacados. A literatura vem apontando para como a inserção em atividades acadêmicas complementares é essencial para a permanência no curso e os dados levantados confirmam isso, 92,9% dos entrevistados receberam algum tipo de bolsa, sendo 65,5% de iniciação científica. As pesquisadoras fizeram também recortes de gênero e cor e apontaram uma maior participação de homens no setor privado e de mulheres no público e uma maioria de não-brancos na docência no ensino fundamental e médio.

Pesquisas nesse sentido são de uma importância imensurável pois mostram o que as pessoas que se formam no curso fazem depois dele, nos convidando a refletir sobre o tipo de cientista social esperamos formar e compará-lo aos que de fato formamos. Ter sido feita no âmbito do NDE a torna ainda mais relevante, justamente por ser uma entidade vinculada à Universidade e com alguma influência sobre o desenho do curso.

Aproveito para convidá-los a assistir a apresentação das pesquisadoras na Jornada de Iniciação Científica deste ano.

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