Antonio Candido, sociólogo brasileiro

Por Vinícius Volcof Antunes,

Morreu no último dia 12 de maio, em São Paulo, o sociólogo Antonio Candido de Mello e Souza (1918-2017). Expoente de uma geração diretamente responsável pela institucionalização das ciências sociais no Brasil, sua morte repercutiu na imprensa nacional como poucas vezes visto com um dos nossos. Assim, somando-se a outros textos em que discutimos especificamente um(a) autor(a), esse texto se dispõe a prestar-lhe um tributo, ao mesmo tempo que oferece um breve sobrevoo sobre sua densa produção intelectual.

Embora muitos jornais tenham resumido seu exercício à crítica literária (sem nenhum demérito a esse ofício), vale a pena destacar que a análise a que Candido se dedicou foi uma imbricação bastante ousada e original da teoria literária com o pensamento social brasileiro, área consagrada nas nossas ciências sociais que busca, pelo estudo exegético das tradições culturais, intelectuais, sociais ou políticas, aspectos da identidade nacional. Iniciado ainda nos anos 40, a esse exercício chamou de “crítica integradora”, constituindo um método dialético entre texto e contexto sobre o qual encolheu interpretar a sociedade brasileira.

Contudo, apontou enfaticamente as limitações de tal exercício investigativo no Brasil. Isso porque nossa produção encontrava as limitações da herança colonial e, por conseguinte, a dependência formal estrangeira: “nossa literatura é um galho secundário da portuguesa” – afirmou [1]. Mas mesmo que “pobre e fraca”, ela ainda era a que melhor nos expressava, pois a única originária daqui, tendo também a função de nos apresentar ao mundo: “se não amada, não revelará sua mensagem; e se não a amarmos, ninguém o fará por nós”. O que talvez o literato não percebesse era que ele mesmo se tornara uma ponte interpretativa, através de seus ensaios e críticas, entre a produção literária brasileira e a mundial.

Tais pontuações, por duras e generalistas que pareçam, parte dessa forma específica de fazer pensamento social, em que escolhe-se mergulhar na ficção, o texto ganha primazia  ficção e representa a própria história. Para tanto, seus materiais de trabalho foram, sobretudo, obras seminais da produção literária brasileira, como O Guarani (1857), de José de Alencar, e Memórias de um Sargento de Milícias (1854), de Manoel Antônio de Almeida. Sobre essa última, em um de seus mais notáveis trabalhos, cunhou o conceito de “dialética da malandragem num mundo sem culpa” [2], como o ethos específico de um Brasil em formação.

Herdeiro da tradição uspiana das ciências sociais, onde ingressou ainda nos anos 30 e tornou-se professor nos anos 40, ao lado de Florestan Fernandes (1920-1995), tendo um de seus primeiros trabalhos o já paradigmático  “Parceiros do Rio Bonito” (1954). Teoricamente foi fortemente influenciado pela crítica advinda da escola de Frankfurt, fundada no começo dos anos 20, sob tradição marxista. Também bebeu da fonte do humanismo, pela proximidade com o padre dominicano Luis-Joseph Lebret (1897-1966), criador dos centro de pesquisas e ação econômica “Economia e Humanismo”, com quem conviveu a partir dos anos 40. Assim, tanto seu trabalho acadêmico, quanto sua atividade pública foram preenchidas por essas duas influências: na militância política, por exemplo, participou da fundação do Partido Socialista nos anos 40 e do Partido dos Trabalhadores nos anos 80. Assimilando essas duas dimensões, em seu trabalho acadêmico nota-se uma forte preocupação com as questões sociais, como a formação do público leitor brasileiro.

No ensaio “O Direito à Literatura”, de 1988, voltou-se às “coisas desimportantes” para traçar uma forte crítica (sem deixar de referenciar sua importância) à insuficiência dos direitos humanos em oferecer ao outro subjugado tudo o que se considera como um direito nas sociedades modernas, incluindo a literatura:pensar em direitos humanos tem um pressuposto: reconhecer que aquilo que consideramos indispensável para nós é também indispensável para o próximo (…). Mas será que pensam que seu semelhante pobre teria direito a ler Dostoievski ou ouvir os quartetos de Beethoven?” – provocava.

Testemunha da mudança de pensamento de muitas épocas, ele viu nascer um forte solidarismo para com o outro – um novo olhar e atitude sobre os pobres, segundo seus próprios termos: “agora a imagem da injustiça social constrange, e que a insensibilidade em face a miséria deve ser pelo menos disfarçada, porque pode comprometer a imagem dos dirigentes” –, que não chegava à oferta da variável literária. Ainda que ele próprio faça questão de dimensionar a menor importância dessa questão frente às condições materiais mais basilares, como direito à alimentação, moradia ou voto, sua reflexão crítica (quase um manifesto) salienta o caráter de “hipocrisia generalizada” dessa conscientização social moderna, bem como a importância da democratização dos saberes e da produção intelectual na formação da subjetividade humana e, em termos sociais, da identidade de um povo. 

Um apaixonado por seu objeto, via a literatura como algo vivo, e esse diálogo inter(con)textual como produtor de algo que extrapolaria a subjetividade leitora, atingindo a formação da identidade social. De certa forma, uma tomada de consciência, dando a essa obras uma função específica no âmbito social.

Professor, literato e cientista social. As atividades a que Antonio Candido se dedicou durante os 98 anos de vida notabilizaram-se pela capacidade de síntese entre a produção escrita e a análise social de uma forma rara de encontrar no Brasil. Na vida pessoal, foi casado com outra renomada pensadora das humanidades, Gilda de Mello e Souza (1919-2005), conhecida pela obra A Moda no Século XIX (1952). Desse casamento, nasceram a designer e escrito Ana Luísa Escorel, e as historiadoras Marina e Laura de Mello e Souza. Como um literato que fazia ciência social (ou um cientista social que dedicou-se à análise literária), sua produção intelectual aparece inextricavelmente fundida às obras clássicas de nossa literatura, tornando-se, ela mesma, um subtexto dos escritos sobre os quais se empenhou em destrinchar.

Referências:
[1] Candido, A. Formação da Literatura Brasileira, 1957.
[2] ____________. Dialética da Malandragem, 1970.
[3] ____________. O Direito à Literatura, 1988.
[4] Chaguri, M.; Paixão, A. Nota Biográfica: Antonio Candido (1918-2017). Disponível em: https://blogdosociofilo.wordpress.com/2017/05/15/homenagem-a-antonio-candido-1918-2017-nota-biografica-e-excertos/
[5] Ramassote, R. M. A Sociologia Clandestina de Antonio Candido, 2006.

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