Caminhos que conduzem o conhecimento

Por Miguel Mendes

Não há produção de conhecimento sem circulação. Circulação de ideias, de materiais, de dados, de livros, de pessoas… a lista é muito extensa para esse breve post. Em mais uma postagem no C/A sobre o trabalho da socióloga Wiebke Keim, debaterei como essa circulação se dá no âmbito das ciências sociais; como ideias circulam, sob que eixo, quem as recebe e quem as distribui.

Em seu artigo “Conceptualizing circulation of knowledge in the social sciences” (2014), Keim faz um extensivo trabalho de conceitualização do que ela entende por circulação. Para ela, nas ciências sociais, o conhecimento circula de três formas principais: recepção,  troca e diálogo entre a teoria e a prática (no original ela usa negociação [negotiation], mas a tradução me parece estranha em português).

A fim de se distanciar de parte da literatura sobre a história da ciência, Keim descreve e critica um modelo, de certa forma superado, que explica a circulação da ciência moderna europeia através do difusionismo. Nele, a circulação diz respeito à distribuição de um conhecimento europeu “pronto” pelo resto do mundo. As limitações éticas, epistemológicas e históricas desse modelo são inúmeras. Me contentarei em destacar que a ciência moderna não é um projeto endógeno da Europa. Pelo contrário, muito se fez para encobrir as contribuições não-européias para o seu desenvolvimento.

É importante destacar certas suposições da autora para a elaboração deste conceito. A primeira é que o difusionismo não é uma boa explicação universal para a circulação. Um dos motivos é a incongruência de se pensar a produção isolada de conhecimento nas ciências sociais, já que é sempre um empreendimento conjunto. Geralmente somos incapazes de estabelecer claramente uma origem geográfica, histórica, cultural ou institucional. Seguindo seus trabalhos anteriores, Keim procura focar em como a circulação impacta e é impactada pela divisão centro-periferia na divisão internacional das ciências sociais.

A autora avalia esse impacto de três formas. A que teria maior impacto sobre a circulação é a diferença material entre o centro e a periferia. O trânsito, seja de ideias ou de pessoas, tem custos, e a experiência em universidades brasileiras mostra bem como este é um recurso que não está sobrando – principalmente em departamentos de ciências humanas. Por outro lado, Keim indica como historicamente as academias do Sul Global dependeram da importação do conhecimento gerado nos centros, justamente pela dificuldade de se estabelecer tradições autônomas. A autora também assinala como a assimetria entre esses dois pólos é reforçada pela maneira como o conhecimento circula, o fluxo de teorias sendo muito mais relevante no sentido centro – periferia no que no contrário, o que, em última análise, reitera a ideia de que as melhores teorias são produzidas no primeiro.

Essa questão da importação de teorias é fundamental para o primeiro aspecto da circulação que Keim define: a recepção. Nela, autores incorporam teorias, métodos e conceitos que não são de sua autoria em seu trabalho. É importante destacar como, segunda a autora, a recepção é bem comum durante a produção de conhecimento científico, manifestando-se em diversos âmbitos como o temporal (a incorporação de teorias de autores que já foram assimilados à literatura), espacial (de teorias desenvolvidas em locais – percebidos como – distantes), disciplinar, institucional e em relações hierárquicas (onde a pesquisa de acadêmicos prestigiados é incorporada por outros pesquisadores).

O principal aspecto da recepção é seu caráter unilateral. O receptor incorpora o que lhe interessa sem que o “remetente” tome conhecimento, ou se importe. Se sua importância será aceita, reconhecida, corroborada ou criticada, pouco importa para a fonte. Um exemplo que ilustra isso claramente é a recepção que acontece ao longo do tempo. Marx seria incapaz de reagir, positiva ou negativamente, ao corpo teórico produzido pelos marxistas.

Por outro lado, a troca – como indica o nome – é necessariamente uma relação bi- ou multilateral. Ao contrário da recepção, na qual, por exemplo, um autor incorpora uma referência teórica finalizada por outro, na troca o conhecimento é construído em conjunto pelos dois polos. Desta forma, a troca parece ocorrer em um espaço-tempo mais condensado, comparada à recepção. Keim destaca como a troca é crucial para o desenvolvimento científico, sendo, por exemplo, a base de relações em revistas peer-review.

Para ela, a troca só ocorre se os participantes compartilharem algum interesse em comum e se forem capazes de se perceber de maneira recíproca como oponentes ou como parceiros. Esse segundo que “geralmente complica as relações  Norte-Sul”, nas palavras dela, visto que, por um lado pesquisadores do Sul perceberiam uma distância muito grande em relação aos do Norte que, por sua vez, não perceberiam os primeiros como possíveis interlocutores.

A terceira forma de circulação, o diálogo entre a teoria e a prática, merece uma explicação quanto ao termo por ela empregado. Por ele, Keim, utilizando termos do senso comum, se refere às relações entre o que é feito dentro e fora da academia. Ao contrário da troca entre dois agentes dentro da academia, nesta, a disputa está para além da dimensão acadêmica.

“O que é negociado aqui é a relevância prática, social, ecônomica ou política da produção das ciências sociais, por um lado, e as implicações de experiências sociais concretas em teorizações, por outro”. Ao mesmo tempo cientistas sociais devem se responsabilizar pelo conhecimento que eles disponibilizam para o debate público e o público serve de “teste de realidade” para os conceitos dos cientistas – uma forma de avaliação bem menos valorizada pela academia do que as intracientíficas.

Neste artigo um tanto denso, Keim formalizou conceitos que explicam aspectos da circulação do conhecimento, demonstrando tanto seus aspectos basais para a ciência quanto suas implicações práticas. A nós do Sul, repensar que forma de circulação privilegiamos, com que autores dialogamos, onde publicamos nossa pesquisa, é essencial se quisermos pensar um desenvolvimento alternativo à atual geopolítica do conhecimento.

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