Discutindo o sexo dos anjos: um olhar sobre a intersexualidade

Por: Mayara Farage.

Vivemos numa sociedade que divide e classifica os indivíduos de maneira binária: homens/mulheres. Porém esta divisão, que foi criada, encontra-se frente ao desafio de categorizar um terceiro grupo: os indivíduos intersex. Bebês que nasceram sem genitais definidos, que não se apresentam com genitais tanto do masculino quanto do feminino. Eles representam, diante desta divisão feminino/masculino, uma terceira possibilidade: a de indivíduos que não podem ser classificados pela limitada separação dicotômica que a nossa sociedade faz. E é sobre estes que Paula Sandrine Machado fala no seu artigo: “ O sexo dos anjos: um olhar sobre a anatomia e a produção do sexo (como se fosse) natural. “

Ao longo do artigo, Paula Machado se preocupa em mostrar como as fronteiras entre o natural e o não-natural são falhas nesses casos onde são as normas sociais que as definem. Essa definição estabelece o sexo como biológico, limitando-o a apenas dois: o feminino e masculino. Ela também busca demonstrar que o sexo nada mais é do que uma construção cultural de cada sociedade, assim como Joan Scott já apontava que o gênero é.

Para escrever este artigo, ela realizou trabalho de campo em um hospital especializado em crianças intersex, onde ela pode conversar com pais, médicos e crianças nessa situação, e acompanhar os diferentes procedimentos aos quais elas são submetidas. Ela busca também entender como são classificados, o que os especialistas pensam, como reagem os pais e qual a influência desta situação na vida dessas crianças.

Paula cita que, para Bourdieu, o ato de nomear tem, em si mesmo, o efeito de criar. E é por isso que os médicos e equipe têm o cuidado de não nomear os órgãos genitais ou falar do recém-nascido com palavras que conotem um dos sexos. O órgão genital indefinido é chamado de fálus, uma expressão do latim referente a pênis, e o bebê nunca é chamado de “ a menina” “ o menino”. Este sendo um cuidado necessário para não influenciar as famílias sobre qual deveria ser o sexo do bebê intersex.

O olhar treinado do especialista é capaz de diferenciar o “normal” do “patológico”. Com um bom diagnostico é possível uma boa adequação deste corpo incompleto ao estado “natural binário”, e os corpos, sua representação e práticas sociais precisam estar alinhados para garantir um caso de sucesso.  A maior preocupação, tanto dos médicos quanto familiares, é sobre a funcionalidade do órgão após a adequação. É necessário que depois disso resultado sejam homens e mulheres completos e funcionais.

Sobre essa funcionalidade e adequação dessas crianças após os procedimentos de readequação. E, portanto, devem ser levadas mais do que só o que o olhar e técnicas. O exemplo é um dos bebês que Paula acompanha e que a mãe sempre chamou no masculino, por que ele tinha “ um jeitão”. Depois se provou após os testes feitos pelos especialistas que ele era do sexo masculino e iniciou-se  toda a adequação dele.

De cada um é esperado algo diferente após esta readequação. Enquanto das meninas se espera que sejam passivas, dóceis e que possam responder aos padrões reprodutivos esperado delas, dos meninos espera-se ter pênis funcionais que possam penetrar, e agir da maneira que se espera deles agressivos, agitados e heterossexuais. Uma homossexualidade nesses casos suscitaria uma dúvida sobre se a escolha do sexo para a readequação foi mesmo a correta.

Alguns pais se preocupam com a necessidade de uma cirurgia tão precoce, já que normalmente elas são feitas nos bebês logo nos primeiros meses. Seria mesmo o órgão genital que conseguiria adequar estes indivíduos à sociedade? A verdade é que a adequação do órgão genital responde a uma necessidade social. Nossa sociedade que é baseada nesta separação dicotômica entre os sexos não suporta a existência de um terceiro sexo. A não ser como forma de patologia: o hermafrodita ou o ser andrógino é um erro, que deve, portanto, ser adequado e recolocado na sociedade no seu lugar correto. Depois de resolvido e consertado, através da adequação dos seus corpos. Essas crianças, depois de readequadas, passam a viver suas vidas no sexo definido e precisam apresentar comportamentos dos que são considerados padrão para as crianças normais.

O que pretendia ao analisar este texto é mostrar como as questões ligadas à intersexualidade revelam como precisamos transcender a naturalidade como vemos a dicotomia dos sexos em nossa sociedade. Como de fato ela é uma produção enraizada no pensamento das pessoas em diversas culturas. Formada por saberes provisórios, culturalmente construídos e que respondem aos valores sociais da nossa sociedade. E questionar tal separação acaba por provocar mudanças não só teóricas, mas também na esfera cotidiana

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