“Não fale em crise, trabalhe” – Acumulando funções em tempos difíceis

Por Vinícius Volcof Antunes

Como muitos devem lembrar, a esdrúxula frase acima foi proferida pelo Presidente da República, Michel Temer, em seu primeiro pronunciamento oficial[1], na aparente tentativa de acalmar os brasileiros diante da crise econômica que ameaçava a empregabilidade no país. Quase um ano depois, apesar da reversão de certos índices econômicos, a taxa de desemprego alcança 13,7%, ou cerca de 14,2 milhões de pessoas (IBGE, 2017[2]). Dentro do escopo da produção científica nacional, três movimentos podem ser associados a esse cenário de inseguranças: dificuldades financeiras ou falência de instituições públicas de ensino e pesquisa, como a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ); cortes de financiamento nos órgãos de fomento, como no CNPq [3]e o atraso cumulativo das bolsas da Farperj[4]; e a contingente articulação dos profissionais em protestos e paralisações, como na recente Marcha pela Ciência[5], ocorrida em contexto global.

Nesse texto sugiro como a recessão econômica que atinge diretamente o emprego e a produção nacionais também expõe um duplo caráter das ciências sociais e de seus agentes, que teriam que cumprir a demanda de “explicar” ou “dar respostas” a fenômenos complexos de um mundo em rebuliço, ao mesmo tempo que eles mesmos vivenciam os efeitos dessa instabilidade. Assim, subvertendo a epígrafe presidencial, a ciência social seria aquela que trabalha falando de crise, tendo indissociável uma da outra.

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Celina Turchi foi considerada uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista Time e também esteve na lista das 10 cientistas mais importantes de 2016 da revista Nature, por seu protagonismo nos estudos sobre o vínculo entre o zika vírus e a hidrocefalia em recém-nascidos. Epidemiologista da Fundação Oswaldo Cruz de Pernambuco, em entrevista recente[6] ela sinalizou suas preocupações com o corte de investimentos federais para o financiamento de pesquisas científicas no Brasil:Reduções [nos investimentos] nessa área [científica] implicam um grande retrocesso. Nós precisamos sempre manter um grupo de profissionais trabalhando na fronteira do conhecimento e isso significa jovens sendo formados”.

Embora não se possa deduzir que a prestigiada pesquisadora tenha uma visão agregadora do campo científico e inclua nas pelejas de suas ciências biológicas as dificuldades análogas que sofremos do lado de cá, nas Humanidades, o que mais me interessa em sua declaração é como, num contexto de crise, os cientistas são instados a falarem sobre a configuração do mundo, cada qual por um escopo que se complementa sem nunca esgotar-se, e que tampouco dá conta do quadro completo da realidade. Como se munidos de uma lanterna mágica, somos levados a um inevitável papo conjuntural que às vezes impõe a uma epidemiologista especializada no vírus da zika o debate público sobre a gerência de recursos públicos ou os caminhos de um projeto nacional.

Do ponto de vista dos cientistas sociais, essa fronteira se estilhaça com bastante facilidade e todo o campo parece virar uma zona cinzenta, uma “terra de ninguém” das fronteiras bélicas, onde os especialistas de grandes temas, como gênero ou violência, são colocados sob os holofotes para apresentarem análises pontuais em inserções no jornal local ou entrevistas de dois parágrafos no periódico de domingo.

Numa dinâmica de busca por respostas sintéticas e mágicas para problemas que não se justificam apenas por descompassos de curto-prazo, mas que se arrastam desde as origens nacionais, o cientista social tem que escolher entre fazer esse jogo midiático de consumo ansioso, resumindo toda a tessitura de nossa formação histórica em três ou quatro respostas apressadas, ou encasular-se entre seus pares. No primeiro caminho, ele pelo menos tem a chance de fazer valer sua voz, seu saber específico e aproveitar o espaço para o debate público. Já no segundo, embora seja possível que eventualmente ganhe o prestígio de seus pares e as benesses que uma sólida carreira pública pode trazer, há sempre a chance de internamente germinar um ressentimento galopante, rancoroso e amargo de quem se sente desprestigiado pela sociedade, preterido em meio às respostas epigramáticas dos filósofos-gurus ou da autoajuda meritocrática dos economistas-comunicadores que atualmente protagonizam o debate público.

Some a isso uma demanda muito comezinha, de todos nós, assalariados, que temos de pagar nossas contas, comprar comida, nos vestir e movimentar. Considerando a longa jornada de formação cientifica, entendemos que a carreira faz com que fiquemos muitos anos dependentes do financiamento estatal, quase sempre nossa única fonte de renda, apesar da defasagem do benefício, que ainda nos impõe a dedicação exclusiva. E é justamente assim que o duplo caráter de nosso ofício vislumbra-se ainda mais nitidamente, pois o mesmo processo histórico (história do tempo presente, análise dificílima de levar a cabo) que tentamos analisar sob os pressupostos metodológicos de nossa ciência é aquele que altera nossa realidade material e as formas de reprodução de nossa própria vida.

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Uma das primeiras crises de nossa disciplina versava sobre as fronteiras entre a subjetividade do pesquisador e a possibilidade de alguma objetividade em nossa prática. Hoje podemos atualizar o dilema em termos de pensar o pesquisador também enquanto sujeito histórico, situado num contexto que altera sua próprias condições de empreender a pesquisa científica. Essa proposta não é nova desde o materialismo histórico, mas é bom ser recolocada em destaque em tempos em que a busca por respostas entre os cientistas sociais parece uma daquelas “febres do ouro” que tomaram alguns sítios e fizeram a cabeça de tantos no século passado.

Não me parece existir uma Eldorado para os cientistas sociais, um lugar onde seremos alçamos ao prestígio público por termos desvendado as respostas centrais às angustiantes crises contemporâneas. Contudo, não nos vale apenas atestar o óbvio, dizendo que “o mundo está em crise”, tampouco abandonar-se no mais crasso despreparo profissional e entrar em desespero diante de uma conjuntura adversa. Mas talvez ainda nos reste a primazia desse duplo ponto de vista, como um personagem com a função especial de ocupar dois papéis numa mesma peça.

 

Referências:
[1] Huffington Post Brasil: “’Não fale em crise, trabalhe’, diz Temer, em seu 1º pronunciamento como Presidente em exercício”, em 12/05/2016. Disponível em: http://www.huffpostbrasil.com/2016/05/12/temer-posse-ministros_n_9937822.html

[2] IBGE, 2017. Disponível em: http://nossapolitica.net/2017/05/taxa-desemprego-142-milhoes/

[3] UOL.com: “CNPq corta 20% das bolsas no país”, em 06/08/2016. Disponível em: https://educacao.uol.com.br/noticias/agencia-estado/2016/08/06/cnpq-corta-20-das-bolsas-no-pais.htm

[4] O Globo: “Corte de 30% nos recursos da Faperj por parar até 2 mil laboratórios”, em 14/01/2017. Disponível em: https://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/corte-de-30-nos-recursos-da-faperj-pode-parar-ate-2-mil-laboratorios-20773379

[5] Folha de S. Paulo: “Marcha pela Ciência leva milhares às ruas em atos pelo mundo”, em 22/04/2017. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2017/04/1877731-marcha-pela-ciencia-leva-milhares-as-ruas-em-atos-pelo-mundo.shtml

[6] Uol.com: “Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/redacao/2017/04/20/qualquer-corte-na-ciencia-e-ruim-para-a-seguranca-do-pais.htm

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