Nas Trincheiras da Dependência: A Relação “Centro-Periferia” nas Ciências Sociais Brasileiras

Por Daniel Máximo

Desde meus primeiros períodos no curso de graduação em Ciências Sociais, quando fui exposto às teorias sociológicas clássicas e contemporâneas, venho me perguntando, talvez de maneira ainda um tanto quanto inocente, por que os autores cujas produções teóricas dentro do campo da Sociologia adquirem um alcance global se encaixam quase todos em um mesmo perfil: Homem, ocidental e proveniente de universidades europeias ou estadunidenses.

Não obstante, quando falamos em termos de uma “sociologia brasileira”, soa cada mais curioso o fato de que, salvo algumas exceções, as bibliografias dos cursos dessa cadeira se guiarem a partir de uma série de obras que aplicam grandes concepções epistemológicas para analisar traços da formação social do Brasil.

A partir dessas inquietações, e com base nos textos “Centro y Periferias en la Circulación Internacional del Conocimento”, da socióloga argentina Fernanda Beigel, e “Nas Trincheiras do método: O Ensino de metodologia das ciências sociais no Brasil”, do sociólogo espanhol Ignacio Cano, tentarei responder brevemente à pergunta: afinal, por onde andam as teorias sociológicas de aspiração universal de estudiosos de origens latinas, africanas e asiáticas?

No início de sua reflexão, Cano argumenta que as ciências sociais brasileiras privilegiam a teoria em detrimento da prática, de modo que os cursos universitários na área formam um tipo de cientista social que, apesar da grande erudição expressa no domínio de doutrinas clássicas na tentativa de analisar a sua própria realidade, pouco consegue fundamentar empiricamente suas afirmações, no sentido de compreender os traços particulares dela. Esse quadro, para o sociólogo, se replica mediante uma primazia da abordagem de teorias de grande alcance – leia-se teorias proveniente de grandes centros acadêmicos- nos programas de curso.

Simultaneamente, Cano ressalta que a prática universitária brasileira reproduz esse panorama quando os clássicos assumem o papel de cânones, sendo que suas ideias devem ser testadas ou aplicadas nos fenômenos particulares à nossa realidade social, ao ponto em que a pesquisa empírica, em muitas ocasiões, se converte em um mero mecanismo de corroboração das visões expressas nessas teorias.

Nesse aspecto, é possível traçar um paralelo com a análise oferecida por Fernanda Beigel acerca da circulação internacional do conhecimento nas últimas décadas. Ao iniciá-la, a pesquisadora chama atenção para a existência de um sistema acadêmico mundial dotado fundamentalmente de uma estrutura desigual, “configurada com base na universalização da bibliometria como ferramenta de avaliação da ciência, na supremacia do inglês e na concentração de capital acadêmico”. Nesse sistema, emergiram grandes centros acadêmicos cuja autoridade foi capaz de produzir, no plano histórico, critérios hegemônicos – no sentido gramsciano da expressão – de cientificidade e acreditação que inclusive as comunidades acadêmicas relegadas a segundo plano adotaram como legítimos para suas próprias produções. Assim, no argumento de Beigel, disseminou-se no campo universitário dessas comunidades uma obsessão em construir o conhecimento “à imagem e semelhança” do ideal de um conhecimento puro, tal como se concebia nos grandes centros.

Entretanto, seguindo a argumentação da autora, é necessário que rompamos com as concepções de dependência acadêmica que enxergam o fenômeno ora como produto de uma aculturação gerada pela situação de heteronomia à qual supostamente as periferias foram submetidas ao longo do processo de internacionalização da ciência, ora como um pretexto para um descolamento total de quaisquer influências do pensamento ocidental. Ao invés disso, devemos compreender que há uma série de razões concretas, de cunho histórico, a partir das quais se construiu a dominação expressa nos termos dessa dependência. Procedendo dessa maneira, captaríamos efetivamente a situação do desenvolvimento intelectual da ciência nas universidades latino-americanas.

No escopo do texto de Beigel, essas razões dizem respeito, em primeiro lugar, a uma universalização de um sistema específico de publicações. Mais adiante, mobilizando ainda os estudos de que participou no Programa de Investigações sobre Dependência Acadêmica na América Latina, a socióloga pontua que a profissionalização das ciências sociais nesse território produziu, ao contrário do que dizem algumas análises, teorias substantivas, cujo alcance, porém, é apenas regional.

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Os estudos realizados por pesquisadores na Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL) são um exemplo de teorias de alcance regional

Além disso, considera-se que a perda de autonomia acadêmica, decorrente da ascensão de regimes políticos autoritários no continente, com a qual se defrontaram universidades de países latinos, atrelada à hegemonia do inglês como idioma conferidor de prestígio internacional e a uma política de tradução de línguas dominantes, leva pesquisadores periféricos a se concentrarem em obter espaço em revistas acadêmicas de países centrais, onde conseguiriam a repercussão desejada para suas respectivas produções sociológicas.

Feitos esses apontamentos, parece razoável concluir que a deficiência de referências teóricas capazes de captar as particularidades de uma realidade social complexa, tal como denuncia Cano, expressa um traço de certa dependência acadêmica de nossas universidades. Contudo, ele por si só não seria suficiente para abarcar a temática em sua totalidade. Para tal, é preciso que retomemos o viés do texto de Beigel no que tange às limitações da internacionalização do conhecimento, traduzidas nesse conjunto de circunstâncias descritas em sua análise.

Somente então seremos capazes de responder à pergunta posta no início desse texto: “Por onde andam as teorias sociológicas de grande alcance formuladas fora dos grandes centros?”. Estarão misturadas às publicações das revistas e periódicos das potências acadêmicas? Ou será que simplesmente são renegadas ao esquecimento na rede deficiente de integração de publicações das periferias? Ao que tudo indica, devem estar escondidas nas trincheiras da dependência, fenômeno dotado de outros elementos mais complexos sobre os quais ainda precisamos avançar mais no esforço de compreendê-lo.

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