Universalizando o local ou localizando o universal

Por Miguel Mendes

Quantos autores do Sul Global você leu esse ano? Quantas referências teóricas não-ocidentais você possui? Quantas teorias brasileiras você estudou recentemente? Com base no artigo “Social sciences internationally: The problem of marginalisation and its consequences for the discipline of sociology“, da socióloga alemã Wiebke Keim, tentarei explicar estas e outras questões relativas ao modo como o conhecimento sociológico circula internacionalmente.

Inicialmente, o artigo se debruça sobre os impactos epistemológicos causados pela forma como a internacionalização das ciências sociais é feita atualmente. Embora não seja o objetivo da autora definir o que ela considera como internacionalização, fica claro que ela a entende como a circulação de teorias, conceitos, material didático, capitais e pessoas entre comunidades acadêmicas ao redor do mundo. Com base nisso, Keim se dedica à elaboração de um modelo analítico que descreva como a internacionalização se organiza, enfatizando a assimetria entre as academias centrais e periféricas.

Para a autora, a literatura vem abordando a temática da internacionalização de duas formas opostas: de um lado, aqueles que a defendem, porém que não descrevem as relações de assimetria dela resultantes; de outro, aqueles que insistem que a maneira como a internacionalização é feita atualmente reforça a posição de desvantagem das academias do sul global. A presente oposição, ainda segundo a análise de Keim, é uma manifestação da dificuldade de articular as aspirações universalizantes da sociologia com o seu desenvolvimento local ou nacional. Não parece ser mera obra do acaso o fato de tais pretensões universais serem frequentemente reproduzidas por quem advoga acriticamente pela internacionalização, muito menos o fato destes, de modo geral, escreverem de academias centrais.

Em seguida, Keim identifica dois tipos de interpretação sobre a assimetria entre os campos acadêmicos centrais e periféricos: uma que privilegia aspectos intra-científicos e outra, extra-científicos. A primeira justificaria a posição privilegiada da sociologia européia – e, em um segundo momento, estadunidense – em razão da disciplina ter sido historicamente formulada no continente. Em consequência disso, as sociologias desenvolvidas em outros lugares já se desenvolveram dependentes desta. A segunda, por sua vez, descrita por Frederick Henry Gareau, justifica a hegemonia da ciência estadunidense não por valores intrínsecos, mas pela dominação política, econômica e cultural do país. A respeito disso, a autora logo alerta para os riscos de se importar  considerações sobre a dependência economia para o âmbito da ciência, principalmente, como Gareau teria feito, de se apoiar em determinismos econômicos para explicar suas especificidades.

Com base nessa literatura, o artigo propõe-se a elaborar um modelo analítico para descrever a diferença entre centro e periferia, levando em consideração dimensões internas e externas à ciência. Esta dicotomia, para Keim, se diferencia em três níveis: infraestrutura e organização interna (desenvolvida e subdesenvolvida); condições de existência e reprodução (autônoma e dependente); posição e reconhecimento internacional (centralidade e marginalidade). Dado que o foco do artigo é o terceiro nível, mencionarei por alto como ela descreve os dois primeiros.

O primeiro diz respeito à autonomia, em relação a aspectos extra científicos, do campo e à organização da sua infraestrutura, tanto em termos materials, como disponibilidade de laboratórios e recursos, quanto pessoais, um campo desenvolvido possuiriam uma divisão interna do trabalho acadêmico, com pesquisadores dedicados tanto à coleta de dados quanto à concetualização. Vale relembrar como Pierre Bourdieu, em O Campo Científico (1976) , comenta sobre quem decide o que é uma boa ciência: são os que ocupam posições de maios prestígio no campo, que, por sua vez, a definem como a ciência que praticam. O segundo versa sobre a autonomia dos campos em relação aos seus pares internacionais, em especial no que concerne a possibilidade de se reproduzir sem a necessidade de importar conteúdos (didáticos ou teóricos) de outros países.

Nas palavras de Keim, o terceiro aspecto é descrito da seguinte forma: a “centralidade se refere a sociologias internacionalmente relevantes, que desfrutam de prestígio na comunidade internacional e que são reconhecidas como o núcleo da disciplina.”  Para demonstrar como a disparidade entre centro e periferia se manifesta, a autora fez uma análise empírica. Um levantamento bibliométrico no Social Sciences Citation Index, revelou que 83% dos periódicos listados no index eram ou da América do Norte ou da Europa Ocidental. Em um primeiro momento poderíamos nos perguntar se esses não seriam os periódicos mais relevantes do mundo. Contudo, deveríamos voltar ao questionamento sobre quem decide que tipo de ciência é mais relevante.

A seguir, a autora aponta para as consequências que a produção de ciência visando uma audiência internacional possui sobre o tipo de conhecimento gerado nas academias periféricas. A primeira a ser destacada é que, às vezes, por tentar ser “internacionalmente relevante”, os trabalhos deixam de dialogar com a realidade local a partir da qual são concebidos. Em casos extremos, observa-se ainda uma pressão para o exotismo, ou seja, para a formulação de teorias que devem ser apreciadas com a curiosidade de quem observa uma forma excêntrica de arte.

Em paralelo, dado que o destaque de produções acadêmica é feito com base no que nas agendas de pesquisa da comunidade internacional, a produção local que destoe dela acaba sendo internacionalmente irrelevante. O escopo deste fenômeno é ainda maior, se considerarmos que, com o intuito de ser internacionalmente reconhecidos, autores da periferia devem utilizar o material teórico-metodológico produzido nos centros, inibindo o desenvolvimento de teorias próprias ou inovadoras.

No argumento central de Keim, eis aqui a consequência mais nefasta que causada pela internacionalização, como feita atualmente. S. F. Alatas (2003), em sua obra, já havia observado, como parte da divisão internacional do trabalho científico, uma separação entre os coletores de dados – a periferia – e os analistas e produtores de grandes teorias – o centro. A autora avança a discussão alertando para o caráter evolucionista intrínseco à maneira como esta divisão está estabelecida. Nela, o Ocidente, posicionado como centro emanador das teorias de ponta, fornece modelos “universais” – baseados, supostamente, no ambiente mais avançado da sociedade -,  os quais autores periféricos deveriam utilizar para avaliar a sua realidade local. A ponta da ciência estaria nestas comunidades centrais, enquanto o resto do mundo tentaria alcançá-la.

No final das contas, a autora, por possuir um escopo mais macro-sociológico, não nomeia os atores que operacionalizam a internacionalização (agências de financiamento, universidades, Estados, etc.), atentando-se mais aos aspectos epistemológicos desta. Keim argumenta que as aspirações universais da sociologia são a origem das tentativas de internacionalizá-la. Porém, caso a sociologia pretenda mantê-las, questionar-se sobre como se chegou a estes aspectos universais é crucial. Da maneira como a disciplina está organizada atualmente, parece que o centro “miraculosamente encontrou o seu particular no universal e o universal no particular”

Anúncios

O que você tem a dizer sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s