Contra o gênio individual

Por Edmar M. Braga Filho

 

Frequentemente associada à imagem de uma pessoa solitária e introspectiva, a atividade intelectual evoca a crença de que a criatividade é exclusiva e singular. Ainda que poética, ela ofusca alguns aspectos que devem ser abordados. Como a figura do artista perturbado ou hipersensível, essa representação superestima o gênio individual, invisibilizando o caráter coletivo da produção do conhecimento. Além disso, ignora a complexidade da rede que está presente no cotidiano do afazer acadêmico. E é sobre isso que esse texto irá refletir.

O filósofo Descartes alude à imagem do pensador que, sozinho e lançando mão apenas da razão, é capaz de produzir conhecimento

Se considerarmos o cotidiano do trabalho de um acadêmico ordinário – ou seja, aquele profissional contratado para dar aulas, escrever livros e artigos, e assumir alguns postos burocráticos – veremos que o conhecimento por ele produzido está envolvido numa teia complexa. Como nos lembra Martín (2015), se tomarmos apenas o artigo, veremos que, antes de ser publicado, ele passou por inúmeros processos de escrita e reescrita, abarcando o trabalho de editores, revisores, diagramadores e tradutores. Trabalho, importante reforçar, muitas vezes não remunerado e não considerado nos sistemas de avaliação pessoal e institucional dos órgãos de fomento.

A produção de conhecimento envolve uma rede de vários atores, ainda que ela seja invisibilidade no fetiche do artigo

Além disso, a escrita acadêmica está relacionada a dinâmicas geopolíticas, seja na publicação internacional, no envio de projetos para receber fundos estrangeiros ou ao submeter um paper para apresentação em algum congresso. Os critérios de seletividade põem muitas vezes em evidência a subordinação de autores periféricos que almejam internacionalizar sua produção. Dada a estrutura da dependência acadêmica, internacionalizar uma produção implica se submeter a parâmetros que privilegiam as academias centrais – por meio da escolha do tema, da perspectiva teórica, metodologia e do material empírico.

De ordem prática e estrutural, a esse ponto de vista se soma outro, que também questiona a representação do gênio contemplativo. Refiro-me ao âmbito material do nosso cotidiano, que passa despercebido de nossa atenção, ainda que fundamental. Por muito tempo, os estudos sociológicos sobre conhecimento estiveram preocupados com os processos de legitimação e institucionalização da ciência, com a construção social do conhecimento e com o campo científico. Uma abordagem mais contemporânea tem enfatizado a materialidade, destacando o papel de objetos na vida social, seja na formação de identidades, no exercício do poder ou na produção do conhecimento.

É com isso em mente que Medina (2008) pensa o papel das bibliotecas pessoais na rotina científica. Se é verdade que os acadêmicos são o que são, em certa medida, por causa do que leem, não é exagero dizer que os livros são parte constitutiva de sua identidade, da sua ocupação e do seu cotidiano. Por meio de um estudo qualitativo, o autor argumenta que as bibliotecas pessoais refletem e condicionam relações familiares, políticas e profissionais. Além disso, elas traduzem uma série de elementos da realidade do seu possuidor: classe social, afinidades teóricas e mobilidade.

Bibliotecas pessoais: elementos constitutivos do trabalho e da identidade de acadêmicos

Muitas vezes associadas à criação um hábito de leitura incentivado desde a tenra infância, as bibliotecas traduzem a socialização recebida pela família. Além disso, é por meio delas que se pode observar se o intelectual está inserido em contextos internacionais, via aquisição de livros, elucidando a tensão local/global. Afinal, as coisas também têm história.

Além desses aspectos, as bibliotecas também são formadas e alimentadas como uma reação à debilidade institucional do ambiente de trabalho acadêmico: a ausência de sólidas políticas de aquisição de livros, associada à falta de estrutura para comportar o ofício têm impulsionado os professores-pesquisadores a criarem essa estrutura em suas casas, utilizando recursos privados para a aquisição de materiais de ensino e pesquisa. Isso corrobora para a representação – errônea – de que as ciências humanas e sociais não precisam de investimento em laboratórios e tecnologia, já que lhes bastariam apenas uma mesa e alguns livros.

As bibliotecas pessoais são, portanto, atores em redes nas quais estão presentes outros objetos (móveis, livrarias, internet, softwares) e pessoas (colegas, estudantes, bibliotecários, autoridades universitárias e familiares).

“Reagregando o social”, de Bruno Latour. Obra seminal que versa sobre a agência de objetos na compreensão da sociedade

Outro aspecto da materialidade que cabe ressaltar na produção do conhecimento e no processo criativo é aquele que diz respeito às anotações, papéis, cadernos e diários que o acadêmico faz uso para clarificar suas ideias. Sobre isso, Meier (2016) compartilha sua experiência em “cobrir” com seus pensamentos materiais ao seu redor. Ela reforça como a atividade intelectual necessita de uma certa configuração material, de forma a organizar as ideias e torná-las inteligíveis à própria pessoa.

Essa reflexão, contudo, não é nova. É no clássico Sobre o artesanato intelectual que Wright Mills tece aquele que é um dos mais inspiradores textos dirigidos a alunos de ciências sociais. Defendendo o caráter artesanal do ofício intelectual, Mills sustenta a criação de um arquivo – uma espécie de diário – no qual o aspirante possa dar forma aos seus pensamentos, apontando para a indissociabilidade de sua vida pessoal em relação à profissional.

Onde eu coloquei as minhas ideias?

A despeito do caráter intrinsecamente social do conhecimento, é preocupante o seu ofuscamento num quadro mais amplo de promoção da competitividade e da atomização da vida social – aspectos reforçados naquilo que podemos chamar de racionalidade neoliberal, mas no âmbito acadêmico e científico. Pensar em formas coletivas de estimular a criatividade, reflexões e a produção e conhecimento é de grande importância. Isso pode ser feito a partir, por exemplo, da criação de grupos de discussão de temas de interesse e com a leitura de textos feitos por amigos, sucedida pela revisão. Além disso, estimular o hábito da escrita por meio de oficinas pode contribuir para o desenvolvimento de técnicas e estratégias imaginativas, o que envolve mais dedicação que contemplação.

Ao tirarmos o véu do mito do gênio individual, nos damos conta de que o pensamento não se elabora sozinho: ele é uma atividade que necessita de uma configuração particular, na qual se relacionam pessoas, objetos, estruturas e práticas.

Referência

MARTÍN, E. Publicação acadêmica internacional e o lugar do Brasil na sociologia global. In: COSTA PINHEIRO, C, BUARQUE DE HOLLANDA, B e MAIA, J. (Org.). Ateliê do Pensamento Social. Práticas e Textualidades. Pensando a pesquisa e a publicação em ciências sociais. 1ed.Rio de Janeiro: FGV, 2015, pp. 47 – 70.

MILLS, Wright. Sobre o artesanato intelectual e outros ensaios. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.

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