Literatura Pós-Colonial: Minha Pátria é Minha Língua?

Por Mayara Abrahão,

Quando falamos em teoria pós-colonial, geralmente, falamos também em multi ou pluri culturalismo, hibridismo e resistência. Porque, para descolonizar o pensamento e a cultura de cada país que já foi colônia, é preciso resistir ao passado: resistir às facilidades contraditórias de permanecer em estado colonial mesmo após a independência. Para tanto, é preciso resgatar o passado pré-colonial, as tradições e culturas nativas, sem necessariamente excluir aquilo que se tornou tão “nosso” quanto do “outro”, o que, a partir do processo de dominação, se introjetou na cultura do dominado, como o idioma, por exemplo.

Reivindicar a língua colonial como nossa própria língua é uma forma de ressignificar o passado. A literatura dos países africanos de língua portuguesa demonstra esse processo pós-colonial. No texto A Literatura dos PALOP e a Teoria Pós-Colonial (1999), o professor Russell G. Hamilton, do Departamento de Português e Espanhol da Universidade de Vanderbilt, discute a importância dessa literatura para a teoria e a prática pós-coloniais em Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe.

Cabe dizer que tanto o processo de colonização como o de descolonização desses países difere das demais histórias coloniais africanas, pelo fato de Portugal ter sido a potência que durante mais tempo manteve territórios dominados (do século XVI ao XX) e também pelas lutas de libertação, em especial as de Angola e Moçambique, que contaram com a participação dos militares portugueses revolucionários. As ex-colônias portuguesas passaram também por um processo de aculturação e assimilação que, como ocorreu no Brasil, visava afirmar o mito da democracia racial, buscando certa homogeneização cultural, necessária ao projeto modernista das décadas de 1930 e 1940.

Entre os debates que seguiram as independências desses países está a manutenção do idioma colonial. Se, por um lado, fazer uso da língua colonial como língua nacional pode parecer uma vitória do passado recente, por outro, significa um triunfo anti e pós-colonial. O idioma deixa de ser símbolo da opressão colonial para se tornar uma marca da resistência; para os autores desses países, escrever em língua portuguesa significa contar sua história, uma nova história, na qual o idioma seja uma ferramenta e não uma arma. Adotar o idioma colonial como nacional representa o pensamento pós-colonial, a fórmula de pensar o presente e o futuro sem esquecer o passado.

Por isso, Russell e outros autores, como Appiah, e Paul Gilroy, veem o hibridismo como “componente inevitável da pós-colonialidade”. Não parece existir uma forma de decompor a cultura de um povo, isso se mostra tanto no processo colonial quanto no descolonial. Há sempre resquícios, pequenos detalhes, histórias e expressões, danças, cantos e gestos que se mantêm; assim, é quase impossível falar em uma cultura pura e uma volta a ela. A cultura se modifica a partir e através das interações sociais e não é o idioma em si o que importa quando avalia-se a literatura dos países em questão, mas a trajetória percorrida por ele, de símbolo colonial à reminiscência de uma luta por identidade e soberania.

O uso da literatura (do idioma, e da cultura em geral) como instrumento de distinção, para demarcar a fronteira entre o passado colonial e presente e futuro pós-colonial, nos apresenta a importância da cultura na vida social. “Re-escrever e re-mitificar o passado é, de certo modo, uma estratégica estético-ideológica que tem em vista protestar contra as distorções, mistificações e exotismos executados pelos inventores colonialistas da África.” (p.18). O romance, o conto, a poesia, portanto, são instrumentos políticos tão valiosos quanto teorias e manifestos anti-coloniais. Autores como Pepetela, Mia Couto e Ungulani Ba Ka Khosa, citados por Russell, têm importância vital para a vivência pós-colonial de seus países porque expressam, em suas literaturas, a busca por raízes, tradições e identidades africanas.

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