Dependência Acadêmica e Universalização do Conhecimento nas Ciências Sociais

Por: Daniel Máximo

De que maneira(s) a origem geográfica influencia as atividades acadêmicas? Que lugar ocupam as universidades e centros de pesquisa latinos no cenário acadêmico global? Quais os critérios utilizados para selecionar as referências que os estudantes de graduação em Ciências Sociais estudam? Com o intuito de explorar essas questões, abaixo estabelecerei um diálogo entre os artigos “El Karma de Vivir al Sur: Interlocuciones y Dependencia académica en las Ciencias Sociales de América Latina”, da socióloga argentina Eloísa Martín, e “Concept Misformation in Comparative Politics”, do cientista político italiano Giovanni Sartori.

Assumindo as ciências sociais enquanto um projeto coletivo e dialógico, o primeiro dos referidos textos acima advoga pela existência de um eixo central para as atividades acadêmicas: A interlocução. Do ponto de vista da autoria, ao fazer sociologia nós necessariamente estamos nos dirigindo a alguém, nos fazer entendidos por mais alguém. Nesse sentido, lidamos com uma audiência específica, para a qual direcionamos as informações relativas àquilo que pesquisamos previamente, com base em um número de referências, isto é, um conjunto de teorias, conceitos e autores selecionados.

No entanto, no âmbito da comunidade acadêmica essa interlocução é permeada por uma série de desigualdades, que em última instância traduzem uma divisão internacional do trabalho acadêmico. Mobilizando o arcabouço teórico proposto pelo sociólogo malaio Syed Farid Alatas, a forma do trabalho nas comunidades de ciências sociais de Primeiro e Terceiro mundo expressaria uma oposição entre quem, por um lado, realiza trabalhos intelectuais e teóricos e quem, por outro, realiza pesquisas empíricas; entre aqueles que se dedicam a estudar outros países e aqueles que se aspiram a estudar o seu próprio; entre os que podem realizar estudos comparativos e quem somente estuda casos singulares.

Dentre as seis dimensões formuladas por Alatas para descrever as relações de dependência acadêmica das instituições de pesquisa do chamado Sul Global, Martín mune-se de uma em especial para os fins de sua reflexão: A dependência de ideias, relacionada a uma submissão, em termos teóricos e metodológicos, que se consolida, entre outras formas, através do ensino. Esse fenômeno exprime uma transposição de grandes teorias, conceitos-chave e agendas de pesquisa de grandes polos acadêmicos, em especial dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e da França, para realidades outras que não se relacionam ao contexto original de sua produção.

Abordando especificamente o campo de estudos de sociologia da religião na América Latina, a autora tece breves considerações acerca da forma geral dos programas da disciplina. Em seu argumento, independentemente do país ou da universidade onde são ministrados, no geral, esses cursos são estruturados em torno de dois grandes eixos temáticos, o da teoria e o dos temas contemporâneos. No primeiro, são apresentadas e discutidas definições de religião – frequentemente aquelas cunhadas por autores clássicos da sociologia; no segundo, estabelece-se um recorte a respeito de casos locais, nos quais geralmente utiliza-se autores locais em uma interpretação de um contexto específico à luz de paradigmas clássicos oriundos de países academicamente hegemônicos, de modo a reforçar a divisão internacional do trabalho intelectual. A tendência desses programas, segundo Martín, de colocar as obras de pensadores clássicos em um patamar catedrático diminui as chances de inovação intelectual.

Acontece que, não raro, tais conceitos apresentam-se insuficientes para abranger a verdadeira complexidade de fenômenos locais. Em decorrência disso, é fundamental que, bem como coloca a autora, sejamos capazes de formular novos conceitos e modelos de análise que aspirem a uma validez universal.

É possível, nesse ponto, traçar um paralelo com o texto do cientista político Giovanni Sartori, que questiona as bases metodológicas gerais da pesquisa empírica na Ciência Política norte-americana. Para ele, a incapacidade em fazer uma conceituação eficaz, capaz de abarcar múltiplas facetas de um fenômeno social, gerou nesse meio acadêmico um processo de esticamento de conceitos pré-existentes, sob o argumento de se buscar estabelecer uma espécie de “ciência universal”.

Longe de negar a possibilidade de alcance de conceitos universais no âmbito das ciências sociais, Sartori alega, entretanto, que para formulá-los é necessário antes que sejam precisos, pois a mera replicação de conceitos do Primeiro Mundo para compreender a realidade do Terceiro – nos termos da época – produzem perdas conotativas que equivalem à possibilidade de uma extensão conceitual. O resultado disso são trabalhos acadêmicos que, apesar de almejarem ao posto de mais gerais, não oferecerem quaisquer estratégias para a formulação e validação de novos conhecimentos.

Como alternativa metodológica a esse cenário, Sartori sugere um procedimento de comparação como forma de se obter proposições mais gerais. Do seu ponto de vista, comparar está relacionado a um teste sistemático frente ao maior número de casos possível – falsificadores – para se verificar a pertinência de um conceito.

Se transpusermos essa discussão para pensar o quadro institucional brasileiro do ensino das ciências sociais, teremos um norte para pensar os focos da formação teórica que recebem nossos graduandos. Na verdade, nesse empreendimento intelectual devemos antes nos indagar acerca dos propósitos que norteiam os currículos, que em muitos trabalhos também apontam para a realização de pesquisas empíricas com o intuito de corroborar conceitos de clássicos. Não será essa corroboração mais uma faceta da nossa dependência acadêmica?

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