Deixando a Torre de Marfim

Por Miguel Mendes

O conhecimento produzido na academia deve conversar com o resto da sociedade? Que tipo de valores são reproduzidos quando acadêmicos se relacionam com o público? Como acadêmicos operacionalizam este relacionamento?  Essas são algumas das questões que a socióloga Jana Bacevic explora em seu artigo “Beyond Third Mission: Towards an actor-based account of universities’ relationships with the society”.

No artigo, Bacevic se propõe a investigar como a demanda por engajamento com o público vem modificando as divisões entre a universidade e a sociedade. Através de uma pesquisa etnográfica com funcionários – pesquisadores e membros do corpo administrativo – de uma universidade no Reino Unido, a autora explora como eles experienciam tais demandas. Sua principal precaução é evitar armadilhas que fariam o investigador considerar os atores como “marionetes passivas” de transformações estruturais que lhe são alheias. Bem, dado que os membros da academia corroboram com essa demanda, eles o fazem por concordar com os pressupostos dela ou como forma de miná-los de dentro?

A “terceira missão” que o título faz referência (complementando as duas missões “tradicionais” da universidade, ensino e pesquisa) seriam práticas “visando a geração, o uso, a aplicação e a exploração do conhecimento e de outras capacidades da universidade fora do ambiente acadêmico” (tradução livre), definição próxima do que chamamos de extensão nas universidades brasileiras. No contexto da neoliberalização do ensino superior, onde a “prestação de contas” (accountability, no original) é constantemente requisitada, o impacto – como um indicador de “engajamento público” – passou a ser utilizado em 2014 pelo Research Excellence Framework (mecanismo de avaliação da qualidade das pesquisa nas instituições britânicas) [REF] como um critério de análise.

A autora explora, então, duas formas como, segundo seus informantes, esse “engajamento público” acontece na prática: a “transmissão” (broadcasting, no original) e a “coprodução” (coproduction, no original). Segundo os dados de Bacevic, a “transmissão” é privilegiado pelas ciências naturais, enquanto a “coprodução”, pelas sociais e humanidades.O primeiro mantém uma distinção clara entre a universidade, como pólo de produção de conhecimento, e o resto da sociedade. Esta geraria diagnósticos e prognósticos e os ofereceria a políticos ou empresas, que escolheriam acatá-los ou não. O segundo, à primeira análise, dissolve esta distinção, convocando membros das comunidades estudadas a participar das pesquisas e opinar sobre suas conclusões.

Em um primeiro momento, seria possível concluir que este engajamento público democratizou a produção de conhecimento e a sua divulgação pela sociedade como um todo. Porém Bacevic destaca que não. Embora o primeiro modelo faça crer que há uma influência do conhecimento produzido na academia sobre os legisladores, os informantes da autora relatam que aqueles que influem de fato o fazem mais por redes informais de contatos do que por qualidade concreta da pesquisa. Ao mesmo tempo que o segundo modelo, embora convoque parte dos estudados para a pesquisa, aparentemente o faz apenas para opinar sobre o desenho já montado da pesquisa ou como coletores de dados que serão traduzidos pelos pesquisadores. De certa forma, os dois modelos reificam a autoridade acadêmica, em um processo que Bacevic caracteriza como “mediação de condições estruturais enquanto se mantêm privilégios estruturais”.

Embora o artigo deslize um pouco em sua proposta de não submeter o discurso dos atores à teorias dadas, ele é bastante pertinente. Devemos nos questionar, por exemplo, o quanto a cobrança por utilidade pública das pesquisas é mais uma maneira de quantificar o benefício econômico por elas gerado do que uma preocupação por socializar o conhecimento acadêmico. Enfim, embora a pesquisa tenha sido feita no Reino Unido, pode iluminar alguns aspectos do futuro da educação superior no Brasil. As universidades britânicas, nos últimos vinte anos, sofreram mudanças drásticas, principalmente no que diz respeito a corte de financiamentos e fechamento de departamentos, utilizando como critério os dados do REF. Em uma recessão como a que vivemos no Brasil e com o já aprovado congelamento dos investimentos públicos, é de se esperar que cortes similares sejam feitos por aqui.

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