Uma analise sobre o relatório “Gênero na Paisagem Global de Pesquisa”

Por Mayara Farage.

No último 08 de março, dia bastante significativo para mulheres do mundo todo foi lançado pela Elsevier o relatório “Gender in the Global Research Landscape” (em tradução livre: Gênero na Paisagem Global de Pesquisa). O documento é um seguimento do trabalho inovador já desenvolvido por eles e lançado em 2015 sob o título   “Mapeando o gênero na Arena de Pesquisa Alemã”.

Este relatório é resultado de um trabalho de 20 anos, que abrange 12 localidades geográficas (11 países e a União Europeia) e 27 áreas temáticas. Seu objetivo é desenvolver uma compreensão ampla sobre o papel do gênero na estrutura global de pesquisa, apontando dados que poderão ser usados por governos, instituições e indivíduos. Pretende com o relatório mostrar uma visão poderosa sobre pesquisa e políticas de igualdade de gênero.

Foram usados no estudo bases de dados da SciVale Scopus da Elsevier, da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), , além de outras organizações e indivíduos especialistas na área.  Ao longo de suas 96 páginas, são apresentadas as tendências globais, incluindo entrevistas de especialistas da área. Criando assim um relatório que pode se tornar uma base sólida para as pesquisas de participação de gênero na academia, publicações e entre outras.

As palavras de Ron Mobed, CEO da Elsevier para divulgar o relatório foram:

“Como mordomo da pesquisa mundial, a Elsevier tem a responsabilidade de promover a igualdade de gênero em Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática e promover a compreensão do impacto do gênero, sexo e diversidade na pesquisa. A este respeito, a Elsevier apoia plenamente o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas 5, “alcançar a igualdade de género e empoderar todas as mulheres e meninas” e a Declaração de Princípios e Ações do Conselho Global de Investigação para a Igualdade e o Estatuto das Mulheres na Investigação. – (em tradução livre)

No que diz respeito aos dados brasileiros, logo que divulgados foi surpreendente o fato de que hoje o país possui praticamente  uma igualdade entre homens e mulheres como pesquisadores responsáveis/autores principais de pesquisa. Os números são 51% de pesquisas comandadas por homens e 49% por mulheres. São resultados muito positivos e mostram uma mudança nas chances de oportunidades na academia para as mulheres. As publicações de artigos científicos entre mulheres, uma das principais fontes de avaliação na carreira acadêmica, cresceu 11% no Brasil nos últimos 20 anos. Além disso, as brasileiras recebem 0,74 citação por estudo publicado, enquanto os cientistas homens possuem 0,81 citação em seus trabalhos. Um número muito mais próximo que os habituais 30% de diferença entre os salários de homens e mulheres para as mesmas funções em outras carreiras.

Porém, apesar de animadores, os dados revelam outros pontos que também devem ser levados em conta neste momento. É necessária atenção para  a grande disparidade entre as áreas de conhecimento que as pesquisadoras vêm ganhando  espaço . Enquanto na medicina o campo de pesquisa atual tem grande participação feminina, 1 entre 4 estudos possuem como principal pesquisadora uma mulher. Nas áreas das chamadas “ciências duras”,como matemática, ciência da computação ou física, os números são muito diferentes: é de quase 75% o domínio masculino sobre a produção de pesquisas.

É preciso atentar também  ao fato de que, apesar do aumento da participação feminina nas pesquisas, o mesmo não se deu nos cargos de liderança. Ao analisar os postos de reitores de universidades, coordenadores de pesquisas ou chefes de departamentos, encontra-se uma imensa maioria de homens nesses espaços. Apesar do recente aumento do reconhecimento as mulheres por suas contribuições, ainda não são atribuídos a elas  os cargos de lideranças. Isso tudo mesmo com seus esforços para mudar suas posições.

Além disso,  há a pressão que a pesquisadora recebe dentro da academia para se manter o mais distante possível da maternidade. São conversas, quase sempre informais, que mostram o quanto a produção de outras pesquisadoras que são mães acabou por cair. Apontamentos sobre o quanto naquele momento seria prejudicial a maternidade para os resultados e o dia-a-dia da pesquisa que elas com tanto esforço desenvolvem. Como as participações em Fóruns, eventos da área, viagens ou palestras será diminuída por causa desse novo status social: “mãe”.

Apesar de todos os avanços que esse relatório aponta, e que são motivos para se comemorar em meio aos problemas diários da vida acadêmica, existe ainda um longo caminho para que seja alcançada a igualdade de gênero dentro da produção acadêmica. O avanço feito até aqui deve ser reconhecido, mas é necessário que se mantenha a vigilância. Como levar mais mulheres para as áreas das chamadas “ciências duras”? Como dividir mais do que citações e produção, mas também os cargos de lideranças? São alguns dos desafios que serão enfrentados nos próximos anos na busca por uma verdadeira igualdade de gênero.


Você pode acessar o relatório completo em inglês aqui.

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