Em meio ao banimento de Trump aos muçulmanos, todos os acadêmicos têm uma responsabilidade para agir

Por Sari Hanafi

Traduzido por  Daniel de Lima

O presidente Donald Trump assinou um decreto que impede pátrios de Irã, Iraque, Síria, Sudão, Iémen, Líbia e Somália de entrarem nos Estados Unidos. Refugiados sírios estão proibidos indefinidamente, e outros refugiados estão por 120 dias. Não se tem certeza sobre o que virá a seguir.

Durante sua campanha, Trump também afirmou sua intenção de remover os 11 milhões de “imigrantes ilegais” do país. A nação está esperando para ver o que acontecerá com eles.

Em estudos migratórios, há uma lamentação comum a respeito do desgaste da “política de compaixão” e do desenvolvimento do que Hannah Arendt e Rony Brauman denominaram “política de pena”, que substituiu  a compaixão, a empatia e a justiça. A compaixão acontece quando a pessoa que está sofrendo está diante da pessoa que não está; a pena ocorre a distância.

O humanismo e o cosmopolitismo possibilitam que a política de compaixão ocorram. Caso contrário, apenas a política de pena aparecere. Como assinalou Paul Farmer:

“A estrada das emoções instáveis rumo às garantias legais consolidadas – direitos – é aquela pela qual devemos viajar para transformarmos valores humanos em programas significativos e efetivos, que sirvam precisamente àqueles que mais precisam da nossa empatia e solidariedade. ”

Este exercício não está relacionado a nenhuma cultura específica, seja islâmica ou ocidental. Alguns países pertencentes ao primeiro grupo – islâmica- receberam refugiados sírios (Turquia, Líbano, Jordânia), e outros não (países da península arábica). Alguns países ocidentais, tais como a Alemanha e a Suécia, acolheram refugiados sírios; outros não.

Donald Trump, assinando este decreto, redefiniu radicalmente a política de migração nos Estados Unidos. Ele demonstrou que sua percepção de geografia é binária, dividindo o mundo entre “terras muçulmanas” e “terras não-muçulmanas” – exatamente da mesma maneira que alguns islamitas radicais fazem.

Jacques Derrida demonstrou que hospitalidade está sempre tingida com hostilidade e medo. Sociólogos frequentemente argumentam que xenofobia e racismo são produzidos pela presença do “outro”, maneira pela qual imigrantes e refugiados frequentemente são caracterizados.

Eu estou alarmado  com o crescimento do novo populismo nos Estados Unidos e na Europa, o qual está ferindo o direito universal ao asilo. A única maneira de reagir a essa tendência é via debate livre na esfera pública. Migrantes e refugiados não têm que ser vistos como estranhos. Aqui é onde a sociedade civil e a imprensa poderiam ajudar, dada a oportunidade.

Tomemos o exemplo de um grupo chamado “Center for Political Beauty” na Alemanha. Em 2015, o centro promoveu um enterro de larga-escala para corpos de refugiados, no gramado do Palácio de Reichstag em Berlin, com pás, montes de terra e pequenas cruzes brancas.

Esse grupo produz sua própria versão da crise dos refugiados sírios, desafiando narrativas dominantes nas quais funcionários estatais e jornalistas são os principais sujeitos que podem ditar a verdade.

Antropólogos e refugiados sírios iniciaram experimentos usando palavras e música, socializando semanalmente em um café da vizinhança  e oferecendo cursos em algumas das áreas de estudo de antropologia na Alemanha, bem como formas de ativismo para encorajar a admissão de refugiados sírios.

Mas mesmo nos países que aceitam grandes números de refugiados, a hostilidade pode florescer. Na Alemanha, o partido anti-islâmico PEGIDA foi fundado em Dresden em 2014. Desde então, seus membros promoveram diversas marchas contra imigrantes mulçumanos.

Enquanto escrevo essas linhas, parece que nós, pesquisadores que fornecem conhecimento sobre racismo e migração, falhamos em nossa missão.

Como educadores, nós deveríamos promover o pensamento crítico. Nosso conhecimento não se dissemina para outras pessoas por si mesmo.

Nós não podemos controlar o que Donald Trump faz ou deixa de fazer. Porém, além de nossas conversas com nossos pares em ambientes  acadêmicos, podemos renovar nosso discurso e passar mais tempo com diversas comunidades.

Como pesquisadores, podemos estimular o conhecimento público através de mídias de massa. Nós podemos também ouvir os medos de outras pessoas. Diante da xenofobia, é o mínimo que podemos fazer.

Artigo original: http://theconversation.com/in-the-face-of-trumps-muslim-ban-all-academics-have-a-responsibility-to-act-72068

Mini-bio: Sari Hanafi é atualmente professor de sociologia e presidente do Departamento de Sociologia, Antrointerviewphoto4-hanafi-1458625160pologia e Estudos de Mídia da Universidade Americana de Beirute, e editor da revista Idafat: Arab Journal of Sociology. Ele também é Vice-Presidente da Associação Internacional de Sociologia e membro do comité executivo da Associação  Árabe de Sociologia

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