Sociólogos Anônimos – A depressão que ninguém vê, mas todos compartilham.

Por Leonel Salgueiro,

A rotina acadêmica tem crescido como discussão sociológica atual. Também não é novidade que o padrão atual tem perturbado emocionalmente os membros de comunidades científicas diversas, como já discutimos aqui no C/A. Segundo o artigo “Saúde mental no contexto universitário dos graduandos em designer gráfico Marcelo de Costa e Yanne Barros Moreira da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, dos 2.800 estudantes que participaram da pesquisa, quase metade (47,7%) relatou ter vivido uma crise emocional recente. Porém, de que forma estamos discutindo o assunto e como acabamos despersonalizando seu impacto em nossas vidas?

Segundo os autores, o índice de depressão e ansiedade nos alunos universitários é maior que o encontrado na população em geral, trazendo o indício de que o ambiente acadêmico propicia o desenvolvimento desses transtornos emocionais. Um dos principais problemas apontados pelos estudantes diz respeito à excessiva carga de trabalhos acadêmicos, junto com as dificuldades financeiras e as mudanças constantes de cidade por conta da universidade. Podemos pensar os dados da pesquisa à luz da teoria do campo cientifico, de Bourdieu, onde a busca por um capital simbólico e seu prestígio na academia acaba gerando um sistema meritocrático e uma competição doentia entre os próprios pares.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (2012), a depressão é um transtorno mental comum que se apresenta com humor deprimido, perda de interesse ou prazer, diminuição de energia, sentimento de culpa ou baixa autoestima, perturbação do sono ou apetite e concentração pobre. Para Costa e Moreira, dentre os principais fatores que predispõem um indivíduo à depressão, destacam-se o estresse e a ansiedade. O leitor se identifica com as características do quadro acima? Não é de admirar que grande parte se identifique e vivencie um quadro depressivo com o intuito de dedicar-se ao que faz.

Segundo a socióloga Marina Cordeiro, em texto já resenhado para o C/A, grande parte dos entrevistados, apesar das reclamações, ressalta que trabalha e faz parte da comunidade científica porque gosta. Os entrevistados reagiram jocosamente quando questionados sobre o tempo que dedicam à família ou às atividades não profissionais. Como disse um dos pesquisadores entrevistados, membro de PPG e pesquisador de excelência, com mais de vinte anos de carreira, “as pessoas produtivas têm um discurso parecido”, e em sua percepção, apenas aqueles que não estão muito a fim de produção é que podem “chegar em casa e ver uma televisão, descansar, ler um romance, ouvir música, namorar a mulher”. Mais assustador ainda é perceber que a ordem vigente transcende a própria meritocracia, pois você se torna capaz e “produtivo” quando obedece à uma lógica relacionada a condições de sofrimento emocional.

Costa e Moreira ressaltam que as intervenções psicológicas na universidade são importantes, considerando não só o período de estudos, mas também as consequências que a depressão pode causar na vida do aluno após formado ao se inserir no mercado de trabalho, já que um profissional apresentaria baixa competência social e comunicação ineficaz. Porém, mesmo que seja remediada esta situação na formação, seria possível mudar o contexto geral? O acompanhamento psicológico de estudantes seria uma solução ou um pequeno recurso, frente à realidade acadêmica que vivemos?

Por fim, gostaria de terminar de forma diferente. Em determinada aula no IFCS-UFRJ surgiu esta reflexão: “Nos corredores dos congressos não tem um que não se diga insatisfeito com a quantidade de trabalho, de tempo dedicado, falta de verba para pesquisa e etc. Mas se estamos insatisfeitos, porque reproduzimos? Porque reproduzimos algo que criticamos?” Portanto leitor, gostaria de questionar suas experiências na academia. Como graduando me foge a mente o momento em que somos engolidos pela rotina acadêmica e passamos a reproduzir, produzir, adoecer e porque não dizer enlouquecer com isso. Deixe seu comentário e vamos debater a respeito.

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Uma opinião sobre “Sociólogos Anônimos – A depressão que ninguém vê, mas todos compartilham.”

  1. Muito pertinente. Acho que a moderação é o caminho. Quando passamos a viver só no “mundo erudito” nos alienamos em relação ao que esta acontecendo fora da bolha. É a tal da torre de marfim, já que a vida da academia também estimula bastante nosso ego. Acho que a quantidade de trabalho e a falta de investimento é ruim, mas pior ainda são os efeitos de uma lógica que opera e fomenta o individualismo, a competição. E aí se não conseguimos ser tão meritocrátic@s a ponto de conseguir aquela uma bolsa que restou entre os cortes e congelamentos de verba, ou participar de tal evento, publicar tal trabalho, ter a nota mínima para ter um histórico respeitado, ter reconhecimento e prestígio acadêmico, se não conseguimos atingir estes atributos meritocráticos, aí nos sentimos menores, que estamos ficando para traz, que fomos injustiçados ou que estão nos perseguindo, que puxaram nosso tapete, e por aí vai a crise. Por isso doses homeopáticas de senso-comum são fundamentais.

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