Uma arqueologia da colaboração internacional

Por Vinícius Volcof Antunes,

O seminário do Museu Nacional (PPGAS/UFRJ) apresentou em novembro a mesa Modernismo, pan-africanismo e “novas sensibilidades etnográficas”: a propósito do diálogo entre Franz Boas e Kamba Simango, sobre a pesquisa do antropólogo Lorenzo Macagno (UFPR). Argentino com especializações no Brasil e nos EUA, Macagno apresenta a “história mínima” do missionário moçambicano Kamba Simango (1890-1967) e sua relação com o “pai” da antropologia americana Franz Boas (1858-1927).

lorenzo-gustavo-macagno
Lorenzo Gustavo Macagno, UFPR

A reconstrução dos pormenores desse vínculo etnográfico se deu pela análise documental das cartas trocadas entre os principais personagens dessa história, bem como pelas visitas a campo que Macagno realizou em Moçambique de forma intermitente entre 1996 e 2009. Desvela-se, assim, uma trama complexa sobre a formação nacional moçambicana e sua herança colonial, além de uma imbricada cronologia de idas e vindas entre África, Europa e Estados Unidos e múltiplos personagens. A partir de sua pesquisa é possível discutir formas não-heterodoxas de produção do conhecimento, o papel dos colaboradores locais na ciência, bem como o lugar ou não-lugar de suas vozes na construção da narrativa etnográfica.

Boas notabilizou-se como um relativista da cultura, atrelado à história da antropologia cultural. Seu trabalho de campo se deu, sobretudo, nas regiões do Ártico e na costa noroeste do Pacífico norte-americano, secundarizando sua produção dotada de uma “sensibilidade africanista”. O missionário moçambicano foi seu “elo africano” por duas décadas, mas o diálogo não se deu apenas em termos antropológicos ou restritos aos assuntos profissionais. Misturando a intimidade de desabafos emocionais com comentários sobre “cultura” e “folclore”, a colaboração foi valiosa aos estudos africanistas, sobretudo sobre os vandau.  

Estudar a biografia de Simango é adentar um caminho tortuoso, propício a maus entendidos por sua complexa mistura de dramas pessoais e dilemas políticos, individualismo étnico e particularismo e discussões sobre nacionalismo, missões protestantes no continente e até o movimento cultural do Harlem .

Diante da impossibilidade de resumir essa história sem prejuízo ao entendimento, o esforço aqui é o de ver na relação entre os dois dimensões da parceria de pesquisa no início da disciplina, problematizando o apagamento do papel de figuras como a dele. Ciente da complexidade da tarefa e do número diminuto de pesquisadores interessados nessa biografia, trabalhos como o de Macagno e outros, como Leon Spencer e Eric Morier-Genoud, felizmente conseguem retomar essas narrativas de forma detalhada.

Saindo cedo de seu país de origem e se inserido no trabalho missionário na American Board Mission, o primeiro destino de Kamba nos EUA foi o Hampton Institute, em Virgínia, em 1914. Lá conheceu a musicóloga Natalie Curtis (1875-1921), com quem desenvolveu pesquisas musicais na língua ndau e que posteriormente fizera a interlocução com o já respeitado antropólogo.

Kamba mudou-se para Nova York nos anos 20. Durante sua estadia, também colaborou com trabalhos do africanista Melville Herskovits e possivelmente até conhecera Margaret Mead. Assim, pelo menos naqueles anos sua figura improvável frequentou a “elite etnográfica” americana, embora sua presença é feita ausência diante do apagamento histórico de sua figura.

Desse ponto de sua trajetória Macagno tira um dos melhores altos de seu trabalho, revelando as razões que levaram Curtis a recomendar o colega como interlocutor de Boas. Em carta enviada ao antropólogo, Curtis define Simango como um “nativo puro” [full blood], fonte de material que, com Boas, passaria por uma “análise antropológica mais refinada”. Essa visão do informante dotado de “pureza cultural” e da autoridade etnográfica do antropólogo revela os status desiguais entre eles diante da empreitada de pesquisa.

A parceria, que se deu entre 1917 e 1927, rendeu cinco artigos sobre religião, parentesco e vida cotidiana entre os vandaus, ocupantes da região central de Moçambique, de onde Kamba era originário. A produção adiantou-se até mesmo a um dos maiores clássicos da disciplina, Os Argonautas do Pacífico Ocidental (1922), de Bronislaw Malinowski. Contudo, apenas um texto foi assinado por ambos. Parte daí o debate de Macagno sobre “rituais públicos de reconhecimento”, contrapondo a invisibilidade de Kamba pela historiografia oficial à “consagração” de Boas, intocável em seu prestígio .

Mesmo incentivado por Boas a continuar na profissão, demandas pessoais fizeram Simango mudar de atividade. Finalmente, a instabilidade de Moçambique e os embates cada vez mais intensos com os dirigentes de sua missão religiosa apagam as esperanças do mentor quanto ao futuro antropológico do discípulo africano.

O moçambicano morreu em 1967, atropelado por um carro. Spencer indica que ele teria acabado de sair de um encontro com Eduardo Mondlane, antropólogo moçambicano e presidente da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), partido político com quem a família Simango polemizou-se por estar associada. Figura complexa e participante de vários universos (missionário, acadêmico, etc), Spencer resume Kamba como alguém que de alguma forma era dotado das características necessárias para uma bem sucedida carreira por diversos países, instituições e profissões. Além disso, parece ter se empenhado em aproveitar as oportunidades oferecidas pela atividade missionária. Ainda que Macagno aponte que o colaborador preferia a missão religiosa à antropologia, uma mensagem epistolar a Boas mostra Kamba agradecendo ter sido ensinado a “amar e valorizar as tradições de meu povo” (p. 141).

A revelação de figuras como a de Simango nos permite pensar nas vozes secundárias de nossa atividade, facilmente apagadas pela narrativa individualista da produção científica. Mais do que isso, revela o “dialogismo e a multivocalidade” da atividade etnográfica, como aponta Macagno. Nomeado, a partir de agora falar do trabalho africanista de Boas é falar de Kamba, assim como falar de qualquer produção científica é falar de uma coletividade.

Referências bibliográficas:
MACAGNO, Lorenzo.  Franz Boas e Kamba Simango: epistolários de um diálogo etnográfico. Travessias Antropológicas: estudos em contextos africanos. 1ed.Brasília: ABA Publicações, 2012, v. 1, p. 127-157.
________________. Uma construção social da simpatia. Palestra. Universidade de Brasília, 30/09/2015. Disponível aqui, acesso em 03 de dezembro de 2016.
LUZ, Sergio. “Lorenzo Macagno, antropólogo: ‘a ciência é diálogo.’”. In: Conte algo que eu não sei. Jornal O Globo, entrevista em 20/04/2016. Disponível aqui, acesso em 03 de Dezembro de 2016.
MCCOY, Bill. Toward na African Church in Mozambique: Kamba Simango and the Protestant Church in Manica and Sofala (1892-1945), by Leon P. Spencer. Resenha. In: Internation Bulletin of Missionary Research. Disponível aqui, acesso em 03 de Dezembro de 2016.
Morier-Genoud, E. Columbus Kamba Simango. In: E. K. Akyeampong, H. L. Gates, & Jr (Eds.), Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2011.
SPENCER, Leon P. Bostwana Diary: Kamba Simango. Disponível aqui, acesso em 01 de Dezembro de 2016.
____________________. Toward na African Church in Mozambique: Kamba Simango and the Protestant Church in Manica and Sofala (1892-1945). Disponível aqui [fragmentos], acesso em 03 de dezembro de 2016.

Anúncios

O que você tem a dizer sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s