A nova razão da academia

Por Edmar M. Braga Filho

Garantir a autonomia no trabalho científico não é tarefa simples, razão pela qual a carreira acadêmica está constantemente imersa em desafios. Atualmente, a situação ganha dramaticidade, especialmente levando em consideração o contexto econômico e político em que vivemos. Vem da presidente da Associação Internacional de Sociologia, Margaret Abraham, o lembrete de que as ciências sociais, no âmbito global, estão em perigo: cortes nos orçamentos e financiamentos e a redução dos departamentos em universidades constituem algumas das ameaças que rondam o cenário nos dias de hoje.

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Crédito da imagem: Milena Kremakova, em http://blogs.lse.ac.uk/impactofsocialsciences/2016/03/03/mathematicians-against-the-clock-neoliberal-university/

Em seu ensaio/desabafo sobre a era da precariedade nas universidades, a antropóloga Maryia Ivancheva expõe como determinada racionalidade econômica tem corroído a produção de conhecimento das universidades. O pagamento de taxas, cortes de investimento público em ciência e tecnologia e o aumento de contratos flexíveis têm contribuído para a diminuição da estabilidade profissional, além de precarizar as condições de trabalho. Nessas circunstâncias, as consequências emocionais são danosas, como também se aprofundam as desigualdades de gênero, com mulheres ocupando cargos de menor estabilidade profissional que os homens. Quanto à produção do conhecimento em si, tal instabilidade, somada às altas cargas de trabalho e a prática de escrita sob o imperativo do “publish or perish”, tende a empobrecer a experiência de pesquisa.

As comparações para ilustrar a organização social subjacente a esse contexto são das mais criativas.

Em seu breve texto sobre o processo de celebrização da academia, o sociólogo da Universidade de Sidney, Robert Van Krieker,pyramid-of-capitalist-system argumenta que em circunstâncias de grande competitividade, com a criação de rankings globais de avaliação e a mensuração da performance de produtividade, observa-se a formação de celebridades. No caso, celebridades acadêmicas. A estrutura dessa organização social pode ser dividida em três: no topo, uma diminuta elite de pesquisadores high profile, que goza de grande visibilidade internacional; no meio, uma “classe média” com enorme pressão tanto para publicar, ensinar e assumir cargos administrativos; por fim, um proletariado em rápida expansão, em condições de trabalho precário e insegurança.

Mais cáustico, Alexandre Alonso, do King’s College London, compara a academia a gangues de drogas. A convergência de ambos os grupos se dá na disposição dos neófitos em aceitar condições de trabalho mal remunerado e inseguro, com a esperança de que, no futuro (cada vez mais remoto), ocupem um lugar de prestígio. Com dados referentes às instituições alemãs, americanas e inglesas, o autor elucida como um crescente número de doutores outsiders chegam ao mercado acadêmico, aceitando trabalhos mais precários e incertos – sobretudo de ensino –, ao passo que um grupo diminuto de insiders, já estabelecidos, dispõe de tempo para pesquisar e publicar, além de segurança e altos salários.

Essas questões nos levam a uma reflexão sobre o estudo da produção do conhecimento acadêmico, talvez mais que científico. A adjetivação distinta remete ao fato de que o conhecimento produzido em instituições acadêmicas possui peculiaridades, seja entre diferentes áreas de pesquisa, seja pela dinâmica das instituições de ensino superior na atualidade. Tal dinâmica envolve o ensino nos âmbitos da graduação e pós-graduação, as atividades de extensão e pesquisa, além de regimes temporais de publicação e avaliação que afetam o cotidiano do trabalho acadêmico. É preciso, assim, particularizar esse conhecimento em comparação àquele produzido em institutos e laboratórios dedicados somente à pesquisa, além daquele que se relaciona à inovação em empresas, privadas ou públicas (quando não aliadas à universidade, o que torna o argumento ainda mais complexo).

Levar em conta as práticas dos acadêmicos, suas rotinas de trabalho e a dinâmica das instituições em que estão alocados representa uma mudança na forma como lidamos com o estudo do conhecimento. Como argumentam Connell et al., a ênfase nesses aspectos, conjugada à importância das condições materiais que perpassam a produção e a circulação do conhecimento, possibilita uma abordagem global de estudo, com atenção para os desníveis entre distintas regiões. Dessa forma, falar de Norte e Sul Global não implica fazer menção às relações fixas entre regiões centrais e periféricas, nem a uma subordinação acrítica do último em relação ao primeiro. Conforme argumentam, o recorte geopolítico é necessário para reconhecer não apenas a diversidade dos modos de práticas e circulação, como também as estruturas de desigualdades na economia mundial do conhecimento que se desenvolveram historicamente._92228824_mapa_jjj

Dito isso, o leitor pode ter percebido que as descrições e as referências mencionadas no começo do texto sobre a situação nas academias em tempos de radicalização neoliberal dizem respeito em sua maioria ao Norte Global. De fato, inúmeros são os blogs e trabalhos que têm se debruçado sobre essas regiões, ou que se espelham apenas nelas. Pouco se sabe, contudo, sobre a situação das academias periféricas, o que enviesa nossa percepção sobre as transformações globais pelas quais passam as universidades, centros de pesquisa e institutos científicos. Essa dificuldade de achar fontes sugere a falta de diálogo e de pontes entre elas.

Num difícil momento em que são anunciados cortes em bolsas de pesquisa e nos investimentos de universidades federais, além da tramitação de uma PEC que pretende congelar os gastos públicos por 20 anos, incluindo educação, torna-se necessário pensar o impacto de tais reformas neoliberais sobre a produção e circulação do conhecimento, e como isso intensifica as desigualdades globais. Numa economia dependente, os efeitos podem ser mais drásticos que nas economias centrais. Um enfoque nas práticas e a conceitualização das atividades acadêmica e científica como trabalho abrem margem para novas e profícuas teorizações, além de possíveis efeitos políticos.

O título deste texto faz referência ao livro A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal, de Laval e Dardot.

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