Irmãs distantes: diálogos entre Ásia e América Latina

Por Edmar M. Braga Filho

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ema de interesse do Circuito Acadêmico, a assimetria na produção e circulação do conhecimento e a dependência acadêmica constitui grande desafio para as ciências sociais contemporâneas. As razões de sua ocorrência são múltiplas: seja como efeito de estruturas operantes durante a colonização britânica na Ásia, até a permanência de condicionantes que afetam a autonomia de campos científicos periféricos. Dentre outras, uma das consequências é a marginalização da produção dessas comunidades no âmbito internacional.

Acadêmicos do mundo todo têm pensado em estratégias e linhas de ação heterogêneas, visando reduzir, se não superar, os entraves que dificultam um diálogo internacional mais equânime. Há desde perspectivas que defendem critérios que tornem produção periférica mais relevante contextualmente, até críticas ao eurocentrismo nas ciências sociais, colocando em xeque perspectivas epistemológicas fundadas na filosofia ocidental. Algumas tentativas surgem como alternativas para tornar a produção global mais diversa, sugerindo profundas mudanças na teoria social.

Contudo, para que qualquer mudança de fato ocorra, é necessário pensar os mecanismos que contribuem para a reprodução de tais assimetrias. Isso implica levar em conta, entre outras coisas, um sistema mundial acadêmico, no âmbito da circulação de artigos e livros, que privilegia a produção anglo-americana. Mas não só.  Torna-se crucial o estabelecimento de redes de colaboração que propiciem o intercâmbio institucional entre comunidades periféricas. A esse respeito, o evento “Perspectivas sobre estudos asiáticos na América Latina”, realizado no dia 9 de novembro no Colégio Brasileiro de Altos Estudos (UFRJ), representa um marco para o diálogo interinstitucional entre América Latina e Ásia.

Fruto da parceria entre três institutos, International Convention of Asia Scholars (ICAS), International Institute for Asian Studies (IIAS) e South-South Exchange Programme for Research on the History of Development (Sephis), o evento foi a abertura de uma série de encontros que visavam à criação de uma plataforma que possibilitasse a aproximação entre instituições acadêmicas das duas regiões do mundo. No primeiro dia, especialistas de diversas universidades trocaram experiências intelectuais e de pesquisa sobre o estado da arte tanto dos estudos asiáticos na América Latina, quanto dos estudos desta em instituições asiáticas.

Axel Gasquet (Université Blaise Pascal) refletiu sobre o imaginário do Oriente na tradição intelectual argentina, desde meados do século XIX. Claudio Pinheiro (Sephis, IH/UFRJ) esboçou uma cartografia sobre o interesse da América Latina sobre a Ásia, mostrando como as imagens que se formavam sobre o “Oriente” mudaram historicamente em nossa região. Jie Guo, da Universidade de Pequim, trouxe dados do Japão, Coreia do Sul e China para elucidar o crescente interesse pela América Latina no continente.

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Na sequência: Philippe Peycam (IIAS), Claudio Costa (Sephis), Jie Guo (Univ. de Pequim), Mônica Lima (IH/UFRJ) e Axel Gasquet (Univ. Blaise Pascal). Foto de Mayara Farage

O evento é representativo de um movimento de descentralização das humanidades, e das ciências sociais em particular, em várias frentes. Primeiramente, a criação de redes e o intercâmbio acadêmico com instituições acadêmicas alocadas nas mais diversas sociedades permite um olhar mais plural sobre os modelos de universidades. Além disso, estimula a troca de agendas de pesquisa e de conhecimento para além do eixo EUA-Europa Ocidental, enriquecendo o imaginário cultural e histórico, possibilitando uma perspectiva mais global da produção de conhecimento.

O questionamento e a crítica dos modelos teóricos e epistemológicos hegemônicos, no âmbito das ciências sociais, é necessário. Contudo, a criação de redes e parcerias interinstitucionais é um passo além nesse processo, na medida em que cria oportunidades mais concretas de intercâmbio de experiências e diálogo. Ainda que distantes, os dois continentes guardam similaridades históricas e um potencial criativo que só enriquecem a imaginação sociológica.

Foto de capa: bairro Liberdade, em São Paulo

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