HUMANOS DAS HUMANAS: ARCADIO DÍAZ-QUIÑONES

Colaboração de Andre Bittencourt (PPGSA/IFCS),
Introdução e tradução de Vinícius Volcof Antunes,

Humanas das Humanas é a série do Circuito Acadêmico que busca mostrar os bastidores da produção do conhecimento científico, seu lado humano, através de duas ou três perguntas aos nossos entrevistados internacionais. Na primeira edição, conversamos com o sociólogo Michael Burawoy da Universidade da Califórnia (Berkeley), discutindo os prós e contras do fazer sociológico.

Nesta nova edição, conversamos com o professor Arcadio Díaz-Quiñones da Universidade de Princeton. Natural de Porto Rico, ele coordena o Programa de Estudos Latino-americanos (PLAS) e ocupa a cátedra emérita de espanhol naquela universidade. Recentemente publicou no Brasil o livro “A Memória Rota: Ensaios de Cultura e Política” (Companhia das Letras). Na véspera de vir ao país, ele respondeu a três perguntas do C/A:

arcadio

C/A – Para você, a atividade intelectual é uma profissão ou uma vocação?
Arcadio – Essa pergunta apresenta uma difícil separação, mas que precisa ser discutida. Não quero sacralizar a “vocação”, mas me atrai a ideia de um chamado. Ouvimos vocês, vocês que nos chamam a pensar criticamente. Por outro lado, tampouco queria negar a “profissão”, apesar do autoritarismo e a burocratização que ela carrega. Não creio muito nos títulos acadêmicos, mas sim em lutar pelas condições de trabalho que possibilitam o trabalho intelectual, de modo que me localizo entre esse chamado e a materialidade das nossas questões de trabalho.

C/A – Nós, estudantes de graduação, vemos muitos de nossos colegas abandonarem o curso por inúmeras dificuldades que se estendem desde a adaptação cultural com o meio acadêmico até os problemas financeiros. Se um estudante te pedisse uma razão para não desistir, o que você diria?
Arcadio – Não conheço muito bem esse contexto, mas acho que entendo a pergunta porque todos nós já passamos por momentos de grande ceticismo. Penso que existem contextos em que a vida intelectual é realizada com mais satisfação fora do meio acadêmico, por exemplo, em situações de grande repressão política ou quando não existem as mínimas condições de trabalho. Ainda assim, a instituição acadêmica é a que permite a vida intelectual que queremos, por isso vale a pena resistir e permanecer nela, sobretudo por causa das atividades pedagógicas. Caso contrário, podemos buscar nos reinventar, mas o importante seria não renunciar à vida intelectual, nem aos desejos e paixões que a fazem possível. A atividade intelectual não acadêmica também é ampla e rica. 

C/A – Você poderia nos contar sobre algo ou alguém que lhe inspirou a seguir e não desistir da profissão?
Arcadio – Como dizer? Creio que a lembrança de nossos mestres nos detém e, à medida que os anos passam, creio ainda mais na centralidade da amizade, daqueles que nos acompanharam, ainda que já não nos acompanhem mais. Todos vão ocupando um lugar específico ao longo do tempo. Com eles, nos sentimos enraizados. Em Puerto Rico, tive a sorte de contar com mestres inspiradores, desde às aulas de literatura de Margot Arce Vázquez [escritora porto-riquenha], até longas conversas com uma intelectual que eu admiro muito, Nilita Vientós Gastón [jornalista e educadora porto-riquenha]. Também as longas conversas com o escritor [porto-riquenho] José Luis González, quando voltou a Porto Rico depois de seu longo exílio no México, ou com [o escritor argentino] Ricardo Piglia em Princeton.

Sempre estamos descobrindo mestres, dentro e fora da sala de aula. Para mim, os alunos e alunas têm sido decisivos. Mas talvez o que mais me tenha animado a seguir é a potência crítica da literatura e das artes, a dança, a música, o cinema, poetas como Luis Palés Matos ou Julia de Burgos, escritores como Luis Rafael Sánchez ou a grande poesia de Bob Dylan. Penso muito neles, e durante esses últimos anos, por exemplo, na obra de uma nova geração, como o poeta porto-riquenho Noel Luna. Essas vozes nos permitem pensar, falar e agir.

*Entrevista realizada em 20 de agosto de 2016, por email
** Imagem em destaque de Hajime Nawkawa (2016) 

Anúncios

O que você tem a dizer sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s