Participação e Mudança: O lugar da transexualidade no feminismo.

Por Mayara Farage,

No artigo “Feminismo: velhos e novos dilemas uma contribuição de Joan Scott” Erica Melo Mestre em Sociologia pela UNICAMP abre espaço para pensarmos em uma ponte entre o dilema que Joan Scott aponta no livro “A cidadã paradoxal: as feministas francesas e os direitos do homem” e um problema do movimento atualmente. Os dois dilemas estão ligados por um ponto em comum: a anatomia dos corpos humanos.  Os corpos femininos foram negados e afirmados para legitimar o movimento feminista. E nessa dicotomia os corpos de mulheres transexuais se tornaram hoje uma barreira para sua aceitação por algumas partes do movimento.

Podemos ver um pouco sobre as mulheres de quem Scott fala ao longo de seu livro, 4 das grandes sufragistas, que eram mulheres que lutaram pelo direito de voto universal que era negado a elas na época. Elas se tornaram seres andróginos para a sociedade. Eram como anomalias que a sociedade não podia qualificar. Elas que negavam nomes paternos ou de maridos, que se portavam de maneiras que eram restritas aos homens da época. Mulheres que participavam da vida política e não aceitavam o que era naturalizado pela sociedade como verdade. Não viviam sob a separação de papeis imposta: homem/espaço público e mulher/espaço doméstico. Revelavam assim a ideia de que sexo e gênero poderiam se separar. As definições de feminino e masculino eram expostas e mostradas em sua verdadeira natureza: a de uma disputa por poder, privilégio ou prestígio.

Na época pós revolução francesa, para que o movimento feminista se consolidasse o mesmo fundamentou-se sobre uma ideia ambígua: por um lado negava que existiria qualquer diferença entre homens e mulheres e por isso todos deviam ter acesso aos mesmos direitos, mas em suas fileiras e para ganhar forças baseava-se em apontar as mulheres como uma categoria a parte dos homens. E criou, portanto, essa dicotomia dentro do movimento: que negava e aceitava a diferença sexual como verdade.

E essa ambiguidade é escancarada hoje com uma diferença que na época não se podia imaginar, mas que é parte do dia-a-dia das feministas modernas. Existe nos dias atuais uma luta de algumas mulheres que desejam participar do movimento e ser reconhecidas por ele. Um grupo que é muitas vezes hostilizado e excluído: as mulheres transexuais. Mulheres que tem diferenças biológicas em relação as outras, nasceram em corpos masculinos e passaram por uma transição. Um processo quase sempre lento e muitas vezes doloroso para chegarem ao seu verdadeiro corpo. Erica Melo aponta essas mulheres e suas diferenças biológicas como o novo dilema do feminismo.

Se as diferenças corporais entre homens e mulheres são as definidoras do que recebemos ou perdemos, então devemos aceitar que as diferenças impostas as mulheres baseadas na ideia de diferença entre nossos corpos. Mas se não acreditamos que as diferenças sexuais devem influenciar como a sociedade nos trata e sobre o que podemos ou não conquistar. Então como é que podemos negar as mulheres transexuais o direito a participar do movimento feminista baseado no fato de que seus corpos são diferentes dos nossos?

Assim sendo precisamos nos atentar ao que indica Erica Melo com este artigo: enquanto as feministas não resolverem esta questão paradoxal que está ligada à fundação do seu movimento continuarão lidando com novos dilemas ligados aos corpos e sexualidades. Enquanto a base do feminismo estiver ligada à esta questão, não existirá uma concepção realista do indivíduo e novos problemas continuarão a surgir e ficar sem solução dentro do movimento. Enquanto mulher e feminista acredito que a solução para velhos e novos dilemas seria separar o feminismo dessa ideia político-ideológica que impede, ainda hoje, o movimento de alcançar o máximo do seu potencial.

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