Irrelevância Sociológica

por Vinícius Volcof Antunes,

Em texto bastante polêmico publicado pelo The Chronicle of Higher Education em julho, a pesquisadora Danah Boyd questiona o risco da perda de relevância das ciências sociais devido a nossa estrutura acadêmica e a postura apartada que temos diante das reflexões que partem da própria sociedade. Em Why Social Sciences Risk Irrelevance? (Por que as ciências sociais correm o risco da irrelevância?, em português), seguindo a discussão iniciada por Kenneth Prewiitt, Boyd argumenta que as mesmas bases que construímos para garantir nossa legitimidade e, mais pragmaticamente, o próprio financiamento de nossos estudos, têm causado o efeito perverso de nos afastar das questões que a sociedade faz sobre si mesma e hierarquizado nosso trabalho, de modo a limitar os diálogos tanto internos quanto externos ao espaço acadêmico. A seguir, reproduzo as ideias gerais do artigo, com traduções próprias dos enxertos inseridos, complementando com reflexões e eventuais críticas sobre algumas de suas afirmações.

Boyd parte do julgamento de que os cientistas sociais seriam profissionais privilegiados por terem como função o exercício reflexivo. Mas, como dito nos quadrinhos do Homem-Aranha (exemplo seu): “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. Qual seria, portanto, a responsabilidade do cientista social diante da sociedade e quais têm sido nossas práticas e vícios que, segunda ela, vêm diminuindo o interesse pelo debate que propomos e a validade de nossas explicações?

Partindo do pressuposto que concordamos com a crise de legitimidade de nossa profissão, assunto incessantemente refletido nas mesas sociológicas (onde os economistas são vistos como os maiores ofuscadores de nossa fala e tomadores de nosso espaço), a autora aponta que a primeira pergunta a ser feita nesse debate é: por que pesquisamos?

À parte as pressões externas, como as institucionais e disciplinares, a autora aponta que existem também fatores internos preponderantes enquanto guias de nossas arguições. É o velho debate dialético entre consciência interna e neutralidade axiológica já presente em Max Weber (1904), que Boyd condensa na afirmação de que “os pesquisadores tendem a escolher seus objetos de estudo em conformidade com seus valores”, e justifica pela sua própria experiência, enquanto mulher queer que seguiu seus estudos sobre as diferenças de percepção visual entre os gêneros. Desde já podemos problematizá-la, uma vez que infinitos exemplos mostram que parte considerável de nossas investigações pode estar em lidar com a alteridade, vide a atividade etnográfica, alteridade esta que não se limita ao cultural, também podendo ser ética ou moral. Mas os pontos mais críticos de suas justificações ainda não são esses.

Seguindo, uma de nossas responsabilidades (traduzido de accountability, termo caro e com outra função na ciência política) para com a sociedade seria a de fazer as “perguntas que importam”. Para além das métricas de impacto utilizadas na quantificação de nossa produtividade (especialmente para atender aos relatórios de nossos financiadores), um maior diálogo com o social talvez seja mais adequado para colocarmos nossa relevância em perspectiva:  “impacto significa estar completamente imerso o mundo social que buscamos entender.”

Esse seria nosso “mandato profissional”. Ao invés disso, nos enclausuramos entre pares, considerando suas revisões como o único parâmetro de validade do conhecimento científico, disputando entre os campos tanto por financiamento quanto pelo espaço de fala. Internamente, fomos nos tornado heterodoxos, temendo o enfraquecimento da profissão que, paradoxalmente, essa própria atitude acabou causando. Outro problema seria a hierarquia entre discentes e docentes, justificada pela idade e experiência, ela desestimularia a criatividades e silenciaria novas abordagens. Ao meu ver, porém, o problema aqui é partir do princípio que os alunos sejam naturalmente mais criativos, ou ainda que a inovação seja a virada de chave do nosso método.

Nossa rigidez, continua a autora, nos impede de rir do próprio absurdo da estrutura que nós montamos, ciosos de nosso espaço dentro das formas de conhecimento. A famosa “torre de marfim” da qual jogamos conhecimento à sociedade nos aparta do social. Pior: aparta o social de nós.

Como se daria essa reaproximação com o social é seu ponto central: as ciências sociais deveriam “engajar-se num sério debate reflexivo, perguntando-se por que o público perdeu a fé na importância de nosso tipo de conhecimento”. Vale-nos perguntar, contudo, se em algum momento existiu essa fé da qual ela se refere. Além disso, ainda que não haja dúvida de que nossa legitimidade não está no debate feito apenas entre nós, me parece que buscar essa “fé pública” talvez seja um pouco além.

Boyd afirma que deveríamos “reconhecer que a chave para o conhecimento é informar e empoderar através do conhecimento”. Mas isso é contar com um potencial transformador do qual nossa ciência talvez não seja dotada. De fato, talvez nenhuma ciência seja. Assim, surge algo de utilitarismo em sua visão sobre as ciências sociais, cujo erro seria o de não tentar fazer nossa função ser mais reconhecida pela sociedade. Segundo a autora, o caminho seria pela reaproximação com o social, mas essa fábula de “reencantamento com o mundo” parece quase transformar a disciplina num produto, só legítimo se reconhecido socialmente. Esquece-se da velha máxima de que uma realidade existe, independente de reconhecermos ou não sua existência.

Não se nega que num mundo cada vez mais fragmentado (ou líquido, reflexivo, como queira), nosso saber encontra-se em disputa, demandando-nos novidades e adaptações. Mas isso apenas a mesma medida em que todos os saberes se encontram em disputa e que as novas-velhas formas de conhecimento reemergem conquistando mentes e corações. Assim, não devemos perder de vista que, da mesma forma que as ciências sociais são (e devem ser) um esporte de combate, ela é também filha da modernidade, nascida e criada nesse caldeirão de ansiedades do novo mundo, e por isso dotada das potências que podem garantir sua sobrevivência.

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