As diferenças como alternativa

Por Mayara Abrahão,

O que é universal e o que é particular? Segundo o teórico político Ernesto Laclau (2012), o universal é um particular tornado hegemônico. Assim, todas as identidades são particulares, ou seja, todas as culturas possuem formas particulares e próprias. O universalismo é uma maneira de dominação, porque classifica as diferenças como desvios. No mesmo sentindo, ao tratar da “invenção” da América Latina, o intelectual argentino Walter Mignolo (2008) demonstra o estabelecimento da diferença racial, a partir de um ideal universal de humanidade baseado no homem branco europeu, como principal forma de dominação e apagamento de identidades.

A discussão sobre universal e particular se apresenta de forma complexa, visto que as relações contemporâneas estão baseadas na diferença. O desenvolvimento do chamado Ocidente se deve a essa divisão, portanto, pares como universal/ particular ou moderno/ colonial possuem uma relação de interdependência, onde um não pode existir sem o outro. A proposta de Mignolo é a de que se criem pensamentos resistentes (“fronteiriços”), contra-hegemônicos que, em vez de negar a modernidade, evidencie-se o “outro lado”.

O silêncio foi um poderoso recurso para a dominação colonial, através do universalismo, da criação de uma história única, as vozes dominadas eram impossibilitadas de contar sua versão, os saberes e as culturas “particulares” eram consideradas, no máximo, curiosidade e folclore. Transformando as diferentes formas de vida em costumes “exóticos” os colonizadores mantiveram seu domínio, mas, apesar disso, não apagaram completamente as diferenças. Se, por um lado, a ideia de universal exclui os particulares, por outro, ele reforça as diferenças; essa contradição excludente pode ser entendida como meio de resistência, pelo qual as particularidades se mantêm vivas.

Dessa forma, parece cada vez mais difícil dissociar os binômios univeral/ particular, moderno/ colonial, porque compreende-se deles uma relação complexa. No pensamento de autores como Mignolo e Laclau, a contradição presente nessas relações é como um motor, que gera a contestação e o pensamento em direção ao debate pós e decolonial. Ao voltarem-se para dentro, para a América Latina, esses autores propõem reflexões sobre o passado visando alternativas para o futuro que se construam no presente. Quebrar a lógica da história hegemônica, conhecer e valorizar as culturas regionais e, a partir do reconhecimento da indissociação da modernidade (o ponto onde estamos) e da colonialidade (como uma herança cultural da dominação), criar alternativas que fortaleçam as identidades até então silenciadas.

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