As lutas das mulheres numa era global

Por Barbara Grillo e Edmar M. Braga Filho

e32 (1)m um mundo cada vez mais globalizado, a emergência de conflitos tem constituído desafio não só para os movimentos sociais, mas também para a própria sociologia. Pensando nos processos globais e  a construção de identidades políticas, ações coletivas e como se estruturam os movimentos sociais, procuramos fazer algumas reflexões sobre processos dentro do movimento feminista contemporâneo. Para isso, utilizaremos a perspectiva de sociedades globais, como também análises sobre a formação de identidades coletivas na globalização e o conceito de individualização. Pensando os feminismos como uma mobilização heterogênea, ressaltaremos os paradoxos emergentes nesses movimentos, observáveis globalmente.  Além disso, enfatizaremos a importância dos processos individualizatórios para a percepção das mulheres como uma classe, relevante para a formação de movimentos sociais protagonizados por essas mulheres.

Em seu processo de expansão, os movimentos feministas passaram a criticar o ideal universal de “mulher” naqueles estudos tidos como fundadores do pensamento feminista, como os de Simone de Beauvoir e Betty Friedman. Com isso, diversas autoras passaram a requerer localidades subalternas (latino-americanas e de contextos pós-coloniais) em forma de crítica a essa noção fundadora. Seja questionando a “salvação” das mulheres muçulmanas, tendo em vista as mobilizações das mulheres ocidentais (Abu-Lughod, 2012); denunciando uma lógica colonial implícita nas representações das “mulheres do terceiro mundo” pelas ocidentais (Mohanty, 1984); ou evidenciando as necessidades de organizações circunscritas às mulheres representadas de formas diferentes da lógica universal da mulher no contexto latino-americano, como as mulheres negras (González, 2013).

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No livro Teorias da globalização, Octavio Ianni destaca as transformações nas lógicas de trocas de informação, de sociabilidades e de relações de produção. Segundo o autor, esses processos não mais estariam restritos aos territórios dos estados nacionais. A partir disso, podemos perceber que esses novos fluxos propiciaram a expansão do movimento feminista. As lutas das mulheres teriam deixado de ser reconhecidas como restritas às regiões centrais do mundo. Essa expansão possibilitou que as mulheres de outras regiões do mundo, reflexivamente, não se identificassem com os pressupostos do feminismo ocidental. Dessa forma, podemos reconhecer que os processos de globalização das lutas e do conhecimento, por um lado, difundiram as ideias e as práticas feministas, por outro, possibilitaram que as ideias feministas tivessem suas localidades reconhecidas.

Autores como Eder (2003) sublinham o desacoplamento entre localidade – os estados nacionais – e as identidades a partir dos processos de globalização. A partir desse argumento, podemos enxergar os movimentos feministas contemporâneos sob outro paradoxo. Notamos que por mais que os movimentos feministas sejam elementos desestalibizadores das identidades nacionais, ao mesmo tempo esses movimentos reivindicam suas localizações como estratégia legitimadora – política e epistemologicamente. 

Em seu livro Sociedade de Risco, Ulrich Beck analisa o processo individualizatório naquilo que denomina como modernidade reflexiva. No seu arcabouço conceitual, o autor apresenta uma contradição na integração das mulheres alemãs ao mercado de trabalho na década de 1970. Para o autor, se, por um lado, com a individualização a identificação de classe como observada na cultura da era industrial perde sua significação, por outro, grupos que estavam alijados do mercado de trabalho, como as mulheres, cada vez mais passam a requerer o pertencimento a uma classe. Essa mudança no posicionamento das mulheres no mercado trabalho foi uma das pautas centrais dos movimentos feministas norte americanos da década de 1960/1970. Majoritariamente brancas e de classe média alta, elas reivindicavam um mercado de trabalho funcionando de forma equânime para homens e mulheres.

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Cena do documentário “She’s beautiful when she’s angry”

Entretanto, críticas posteriores, advindas principalmente de feministas negras, evidenciam que essas pautas diziam respeito exclusivamente àquelas mulheres brancas. Isso porque as mulheres negras se percebiam como classe trabalhadora anteriormente a essas reivindicações, pois já necessitavam do espaço público para sua emancipação econômica muito antes que as mulheres brancas se percebessem como trabalhadoras externas à casa. Esse argumento é explanado por autoras como Gonzaléz (2013), que evidenciam os distintos posicionamentos das mulheres negras e brancas entre os espaços público e privado como um dos elementos geradores de demandas diferenciadas.

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O fenômeno da globalização condicionou a formação de paradoxos a partir da reivindicação de identidades por vezes globais e noutros momentos locais. Essas reivindicações serviram como um questionamento do pensamento feminista hegemônico, além de constituir uma estratégia política de reconhecimento. Alguns aspectos abordados sugerem lacunas nas teorizações clássicas sobre formação de identidades coletivas e  processos individualizatórios. Se no arcabouço teórico de Eder as identidades não mais seriam circunscritas ao conceito de nação, como identidade de um povo territorialmente delimitado, os movimentos feministas periféricos passaram a reivindicar especificidades – históricas e epistemológicas – que estão localizadas. Além disso, se seguirmos a crítica dos feminismos negros em relação às pautas de mulheres brancas de classe média acerca do mercado de trabalho, podemos nos perguntar sobre a ausente heterogeneidade de mulheres que ficaram de fora da base empírica de Beck na análise do processo individualizatório alemão, como as não brancas e imigrantes, e seu papel naquela sociedade.

Referências

BECK, Ulrich. Sociedade de Risco: rumo a uma nova modernidade. São Paulo: Editora 34, 2010.

IANNI, Octavio. Teorias da Globalização. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

 

Capa: Imagem do clipe de Courtney Marie Andrews chamado Woman of Many Colors.

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