Modernidade Anacrônica

Por Mayara Abrahão,

A partir das discussões sobre colonialidade e pós-colonialismo, compreendemos que a construção do imaginário social atravessa diversas esferas, como a política, a economia e a cultura. Podemos pensar a cultura e a arte sob a perspectiva pós-colonial, compreendeendo tanto a influência do pensamento colonial sobre as expressões artísticas e culturais como também a contribuição destas na formação de uma (ou muitas) identidade coletiva.

A cultura, como defendem autores como Aníbal Quijano e Aimé Césaire, é uma esfera de ressignificação de valores e de criação de sentidos que constroem identidades. Por isso, a Sociologia da Cultura pode contribuir em debates pós-coloniais, oferecendo ferramentas para a compreensão de fenômenos políticos, históricos e sociais. A partir da discussão promovida pelo historiador da arte Luiz Camillo Osorio podemos avaliar o significado das expressões artísticas no Brasil nos últimos cinquenta anos como respostas não só ao modelo tradicional de arte, mas ao pensamento colonial. A arte e a cultura têm papel fundamental tanto na representação de normas como no questionamento e na transformação destas.

Em Genealogias do Contemporâneo, Osorio apresenta um breve histórico da arte contemporânea no Brasil, tangendo uma importante questão a respeito da formação do país enquanto produtor autônomo de arte. Para o autor, a localização do Brasil no cenário artístico mundial reflete a história política e econômica do país que, a partir da redemocratização, conquistou espaço entre os “modernos” e “avançados”. O que se contrapõe a essa nova localização do Brasil entre os tradicionais produtores de arte é o percurso da arte brasileira em direção ao “avanço” e à “modernidade”.

E é exatamente sobre a ideia de modernidade (ou modernização) que o autor se debruça para explicar a singularidade dos processos artísticos nacionais. A modernização, em linhas gerais, pode ser compreendido como o anseio da colônia a alcançar um lugar mais próximo da metrópole, modernizar-se, então, seria deixar para trás o que nos faz “outros” aos olhos do Primeiro Mundo. Segundo Osorio a singularidade do processo de modernização do Brasil, atravessado por crises políticas, permitiu uma liberdade de experimentação no campo da arte. E essa experimentação é o que torna o contemporâneo anacrônico, atravessado ainda por características do moderno. Assim, não se trata de uma expressão artística homogênea, linear, mas de diversas formas que se sobrepõem e formam um cenário complexo.

Há, assim, uma “mestiçagem de tempos históricos”, que faz da cultura brasileira um exemplo de ação pós-colonial, no que se refere à criatividade de lidar com diferentes referências. Agregando à noção de arte europeizada as raízes tradicionais, transformando os modelos estrangeiros em fontes de expressão próprias. Dessa forma, a quebra com o modernismo ocorre através de novas maneiras de se relacionar com a arte, munindo-se da mistura entre “alta cultura” e “cultura popular”, em um movimento tropicalista, os artistas brasileiros, podemos afirmar, adotam uma posição pós-colonial diante dos cânones “civilizados”: “nossa modernidade é contemporânea de nossa pós-modernidade” (p.5).

A universalidade colonial dá lugar a uma específica, particular, no sentido que se produz arte “de dentro”, voltada às questões locais. Esse universal de que fala Osorio é a possibilidade de compreensão, de diálogo entre os singulares. Num sentido geral, o universal na arte brasileira se constrói a partir das especificidades do Brasil. “No processo de afirmação de si (de uma cultura) vai se abrindo um diálogo e uma interseção com os outros. Diálogo que não necessariamente significa compreensão, entendimento, harmonia, mas adversidade e diversidade dentro de um território comum de troca e enfrentamento.” (p.6). Assim, as tensões entre moderno e pós-moderno, interior e exterior, colonial e pós-colonial faz da arte brasileira um exemplo de resistência e criatividade próprio dos países latino-americanos, onde busca-se o debate sobre os efeitos da colonialidade.

Por tanto, a arte, em suas perspectivas e questões próprias, pode contribuir para o pensamento crítico pós-colonial, auxiliando na compreensão de diversos fenômenos sociais. Cabe aos sociólogos e demais interessados a promoção de debates que abarquem a cultura como esfera social dotada de uma capacidade criativa além da estética. A cultura em geral e a arte em particular, não são apenas resultados de processos históricos, mas cada vez mais, produtoras de novas formas, relações e interpretações da subjetividade, da política e da vida social como um todo.

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