O legado de Neide Esterci às ciências sociais

por Vinícius Volcof Antunes

No último dia 20 de junho, o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ recebeu o seminário A contribuição de Neide Esterci para os estudos rurais e ambientais no Brasil, organizado pelo Núcleo de Desenvolvimento, Trabalho e Ambiente (DTA) do departamento de ciências sociais da instituição. Na ocasião, colegas de longa data, parceiros de pesquisa e orientados acadêmicos puderam homenagear uma das pesquisadoras mais relevantes da antropologia rural e ambiental brasileira, autora de mais de nove livros e vinte e cinco artigos, que este ano aposentou-se de suas funções.

Aproveitando a ocasião na qual o Circuito Acadêmico esteve presente, esse texto pretende resumir alguns dos destaques do evento, que contou com a presença de notáveis pesquisadores da ciências humanas do país, bem como repassar alguns dos aspectos mais relevantes da produção da homenageada, cujos estudos sobre trabalho escravo contemporâneo, meio ambiente, ruralidade, conflitos ambientais na Amazônia, entre outros, constituem um verdadeiro legado intelectual que Esterci deixa àqueles que pretendem seguir por caminhos semelhantes.

Graduada em ciências sociais pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Esterci realizou mestrado em antropologia pelo Museu Nacional (UFRJ) e, na sequência, doutorado em ciência política pela Universidade de São Paulo, voltando em definitivo ao Rio de Janeiro nos anos 70 como professora do departamento de antropologia do IFCS/UFRJ. Posteriormente, ligou-se como colaboradora ao Institut de Recherche Pour Le Développement (IRD), da Ecole des Hautes Études em Sciences Sociales de Paris, onde realizou pós-doutorado nos anos 90 e trabalhos com o professor Philippe Léna.

Do doutorado, sob orientação do professor Juarez Brandão Lopes, um dos pioneiros dos estudos de desenvolvimento na sociologia brasileira, resultou uma publicação logo notabilizada na área: Conflito no Araguaia: peões e posseiros contra grandes empresas (1987). Na obra, a pesquisadora retoma as análises de um trabalho de campo iniciado ainda na década de 60 sob orientação do antropólogo Roberto Oliveira, em que observou a interação conflituosa entre os trabalhadores do campo (peões e posseiros) e as forças policiais do Estado no município de Santa Teresinha, às margens do rio Araguaia, no estado do Mato Grosso. Somava-se à disputa a figura do empresariado local e dos representantes da igreja católica.

Mesmo sendo um de seus primeiros trabalhos de fôlego, já aqui Esterci lança mão de conceitos que marcaram sua produção, retrabalhados em obras futuras e instrumentalizados por novos pesquisadores que a tiveram como referência. Um deles é a noção de conflito, sobre a qual a pesquisadora Elide Rugai (Unicamp) sinalizou como dos mais relevantes, ao destacar como “o conflito socioambiental compreende concretamente a formação da sociedade”.

Já a antropóloga Eliane Cantarino (UFF), lembrou que Esterci e seus contemporâneos produziam num contexto de institucionalização da pós-graduação em ciências sociais no Brasil, certamente enfrentando os desafios de atuar numa área ainda pouco legitimada. Mas a força de seus escritos não arrefeceu, e em 1994 a pesquisadora publica Escravos da Desigualdade: um estudo sobre o uso repressivo da força de trabalho hoje, editado pelo Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI). Nesse trabalho, destaca-se seu uso da dominação, tratando a fuga e o consentimento como reações a ela. Em pesquisas futuras sobre trabalho escravo contemporâneo, a pesquisadora cunharia outros termos, como a de “imobilização por dívida” (1996), que ultrapassariam o círculo das ciências sociais, sendo apropriado inclusive em sentenças judiciais.

Permeando essas temáticas, há ainda trabalhos acerca da Amazônia brasileira, voltados às questões ambientais, trabalhistas e de territorialidade, caracterizando época de extremo vigor produtivo e das mais profícuas em termos acadêmicos. Os presentes no evento lembraram que Esterci nunca negou a experiência do campo, quaisquer que fossem as condições e dificuldades presentes. Annelise Fernandez (UFRRJ), que compartilhou com ela a autoria de O legado conservacionista em questão (2009), pontuou como uma de suas maiores contribuições às análises amazônicas a recuperação da origem do termo “socioambiental”, nascido dos conflitos situados naqueles locais.

Como uma das fundadoras e presidenta entre 2001 e 2010 do Instituto Socioambiental (ISA), a antropóloga também foi lembrada por suas ações de engajamento, sem perder o rigor metodológico de seus estudos ou, como apresentou Rugai, “uma neutralidade científica nunca confundida frente às práticas de poder no campo”. Sobre isso, Leonilde Sérvolo (CPDA/UFRRJ) disse que a antropóloga sempre tivera “um pé cá e outro lá” no campo, não apenas na melhor prática de uma etnografia de fato participante, como também dotada de uma sensível vontade em exercer uma sociologia pública, como nos termos do sociólogo Michael Burawoy (2004).

Por fim, sua circulação profissional também foi ressaltada como profícua à formação de parcerias institucionais, como entre as pós-graduações das universidades federais do Maranhão (UFMA) e do Rio de Janeiro (UFRJ), bem como lhe foi atribuída a reestruturação do programa de pós-graduação em sociologia e antropologia da universidade federal do Pará (PPGSA/UFPA).

Com vocação e engajamento, esmero e sensibilidade para com os orientandos, a produção de Neide Esterci caracteriza-se por um notável esforço interdisciplinar, bem como respeito e valorização das instituições em que se faz ciência e aos alunos que seguem pelo meio acadêmico. Como lembrado por seus ex-alunos, a antropóloga tinha uma rara capacidade de desestabilizar seus orientandos com perguntas óbvias, mas que muitas vezes mudavam a perspectiva de uma pesquisa. Notável ensinamento numa profissão em que as perguntas são mais importantes do que as respostas.

Anúncios

Uma consideração sobre “O legado de Neide Esterci às ciências sociais”

  1. Somente hoje tomei conhecimento da merecida homenagem a essa notável Antropóloga Dra. Neide Esterci. Mesmo com bastante atraso, desejo expressar minhas congratulações por essa iniciativa, pelo legado que a homenageada deixa por sua atuação como Professora, Pesquisadora e Escritora na área de Ciências Sociais, e por sua contribuição ao debate e à busca de soluções para as graves questões sociais e ambientais que o Brasil vem enfrentando. Aproveito a oportunidade para desejar à Dra. Neide uma feliz aposentadoria.

O que você tem a dizer sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s