Ciências sociais e as pesquisas em saúde no Brasil

Por Aurea Thatyanne Ferreira

Uma das principais características do campo das ciências sociais é a sua amplitude de temas. Sendo diversos, seus objetos de estudo podem adquirir um caráter interdisciplinar. O tema da saúde é um desses exemplos e, embora vasto e complexo, a análise das ciências sociais em saúde ainda é pouco presente no ensino institucionalizado da disciplina no Brasil. O artigo O campo temático das ciências sociais em saúde no Brasil, da professora doutora Aurea Maria Zöllner Ianni, da Faculdade de Saúde Pública da USP, aborda esse domínio específico na área, introduzindo o leitor aos seus contextos sócio-históricos, entre outros tópicos.

Segundo a autora, a intersecção entre ciências sociais e saúde não é recente no Brasil, porém a configuração de um campo científico específico materializa-se somente por volta dos anos 1970. A origem como perfil interdisciplinar impôs desde o início um esforço aos seus pesquisadores, a fim de constituir um posicionamento próprio e afirmar o valor dos estudos da área para a intelectualidade. Isso teria favorecido à composição de um ‘olhar reflexivo’ próprio do campo.

Duas características fundamentais explicariam essa dinâmica dialética da área, segundo Ianni. Primeiro, por apresentar um objeto pouco analisado no espaço das ciências sociais, os estudiosos da análise social da saúde precisariam se afirmar perante os ‘cientistas sociais “típicos”’. Segundo, em relação às disciplinas das ciências naturais, constitutivas e prevalecentes na área da saúde, as ciências sociais enfrentam disputa tanto para afirmar seu valor epistemológico, quanto pelo objeto de estudo em si.

Em breve contextualização histórica, a autora ilustra o surgimento da área e posiciona as ciências sociais em saúde no Brasil enquanto campo científico, dentro do âmbito da saúde coletiva. Embora seja um domínio oriundo de espaços e sujeitos heterogêneos, com distintas interpretações teóricas e epistemológicas, a articulação da área baseou-se a partir da concepção da saúde enquanto questão social e política, propiciando a constituição do conceito-chave de “determinação social do processo saúde-doença”.

O objeto ‘saúde’ sempre esteve em disputa, continua Ianni, e a visão do ensino médico sobre ele, de matriz ‘preventivista’, é considerada o maior contraponto à perspectiva das ciências sociais. Essa matriz encara a doença como um desequilíbrio biológico do corpo individual e a sociedade enquanto espaço que deve ser higienizado preventivamente. Na década de 70 são empreendidos os primeiros esforços para desconstruir essa ideia, quando são produzidos trabalhos que buscavam questionar o ‘biológico’ restrito à funcionalidade dos órgãos em corpos individuais, e desconexo do contexto social em que se localiza.

A assistência médica é, então, apontada por alguns teóricos como um objeto de estudos das ciências sociais por excelência. Essa argumentação se dá principalmente por essa área ter atuação norteada pela observação do desenvolvimento histórico e social da relação saúde-doença nos pacientes, ultrapassando os âmbitos comuns do biológico, e do ‘normal’ versus patológico. Pereira (1986; 2003), citado como referência nessa perspectiva, tece produção intelectual que reconhece o indivíduo como um ser social, sendo, portanto, a compreensão da doença um processo intrínseco à compreensão da posição do indivíduo em classes, estratos ou grupos sociais. Dessa forma, saúde e doença passam a ser compreendidas enquanto pertencentes ao contexto social e só podem ser explicadas se posicionadas no seio de uma sociedade que não é homogênea, estável e a-histórica, mas sim dividida e desigual.

Ao abordar a dinâmica da tecnologia no artigo, a professora evidencia algumas perspectivas dos teóricos da área, como por exemplo a compreensão da especialização médica como uma especialização do corpo humano e suas enfermidades. Conforme essa especialização tecnológica ocorre, haveria também a diferenciação imediata dos médicos entre si, de seus instrumentos de trabalho e, principalmente, do objeto de seu trabalho. A autora defende que a relação médico-paciente, em seu viés técnico, é a materialização do processo produtivo capitalista.

Por fim, Ianni observa que, por ser um campo científico recente e em constante processo dialético, a única maneira de analisar as contribuições teóricas dessa esfera seria encarando-as como ainda em processo, e não finalizadas. Ela crê que atualmente a área tem se desenvolvido em processo dicotômico, marcado, por um lado, pela ampliação e diversificação de temas e abordagens metodológicas e, por outro, pela “rarefação” teórica. Na prática, isso resultaria em um campo de Saúde Coletiva mais propositivo, prático e com maior caráter técnico.

O artigo da professora oferece ao leitor uma boa introdução ao tema abordado, de seu contexto histórico à compreensão do conceito de ‘saúde’ formulado na área. A contribuição das ciências sociais às dinâmicas de saúde-doença fica clara e demonstra a necessidade de que esse tema esteja cada vez mais presente nos espaços e debates acadêmicos da sociologia, antropologia, ciência política e outros campos de estudos sociais.

Os processos sociais presentes nas relações do campo da ‘saúde’ produzem “identidades, culturas, relações produtivas, econômicas, conformações políticas, etc” diversas, sendo mais que urgente que as ciências sociais tomem para si as análises dessas dinâmicas e (re)afirmem seu valor epistemológico e contribuição científica em campos tradicionalmente dominados pela área biológica ou exata.

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