A encruzilhada da Antropologia e da Filosofia, o caso de Kant

Por Raphael Lebigre

É sabido que as ciências sociais, disciplina que marca sua fronteira com as demais áreas a partir do século XIX, têm por base a filosofia, mãe de grande parte das ciências ocidentais. Apesar da paixão que alguns possuem em estudar as sociedades, não é incomum na cultura acadêmica brasileira a falta de profundidade entre a as ciências e o pensamento do “amor pelo saber”.  Um exemplo claro está na base frágil de filosofia entre os nossos alunos graduandos.  Na tentativa de utilizar a filosofia para entender a antropologia, proponho apresentar em poucas linhas a visão de Emmanuel Kant (1724-1804) sobre a última, situada no seu livro: “Antropologia a partir de um ponto de vista pragmático”, publicado em 1798.

Como aponta Barnard (2000), a antropologia filosófica, ou “filosofia do discurso humano”, em grego, começa a se consolidar entre o século XVI e XVIII, sendo discorrida por autores tais Hobbes, Locke e Rousseau que estavam preocupados em compreender o que seria a “natureza humana”.  O pensamento de Kant surge num contexto europeu de ebulição política com a decomposição paulatina das monarquias absolutistas. Segundo Danilo Marcondes (2007), o filósofo foi influenciado por duas grandes transformações que nortearam a revolução científica moderna: a demonstração da validade do modelo heliocêntrico, traçado por Copérnico e empreendida por Galileu; e a valorização da observação e do método experimental de uma ciência inquieta diante do mundo, que se opõe àquela contemplativa dos antigos. Em consequência, ocorre o rompimento com a separação no mundo Antigo, entre a ciência, o saber teórico e a técnica. No lugar, o saber aplicado e técnico faz com que problemas práticos e metodológicos impulsionem os desenvolvimentos científicos. 

Seguindo o fio condutor do comentador, no livro denominado: “A Lógica”, Kant expõe sua filosofia com quatro questões fundamentais: “o que posso saber?”, diz respeito a investigar a possibilidade e a legitimidade do conhecimento, “o que devo fazer?” ao lado moral e “o que posso esperar?” tange a religião; por fim, a pergunta que nos interessa aqui, “o que é o homem?”, seria a mais importante das três e para ser respondida precisaria incorporar as demais perguntas. (p.208)

No primeiro prefácio da “Antropologia a Partir de uma Perspectiva Pragmática”, Kant define que seu projeto de filosofia se preocupa com a investigação do que a natureza faz do ser humano. O lado pragmático, por sua vez, se preocuparia com a investigação do que ele, como agente livre, faz e deve fazer de si mesmo. (Stark, 2003). A condição para o ser humano conhecer a si mesmo seria entender suas próprias atividades e os limites delas num universo movido por leis naturais. O que o uniria seria sua natureza racional genérica.

O meio para alcançar a antropologia filosófica seria pela dedução, isto é, das leis gerais às particulares. Ao procurar o conhecimento pragmático do homem, Kant inicia com o funcionamento do entendimento humano. Embora a antropologia tenha se consolidado a partir do século XX, por meio, em parte, da observação participante, método chave na disciplina, segundo Kant, o investigador deveria ser apático às sensações corporais diante do objeto estudado, pois o que contaria seria compreender o mundo externo de maneira racional e objetiva. A distinção que faz entre a “intuição” e o “conhecimento” significa que a experiência principal de um objeto reside numa percepção objetiva, mas intuitiva e sensível somente na primeira etapa da reflexão.

No início do livro, Kant argumenta que o ser humano, ao se reconhecer no mundo como um “eu” genérico, está acima dos demais seres vivos. Para que possa se enxergar enquanto tal, precisa de uma linguagem aprendida durante sua educação. Seria justamente na educação que repousaria o lado pragmático da antropologia, pois a transmissão do conhecimento em sociedade tem por função situar o lugar do homem, enquanto ser racional, no mundo. Diante de uma Europa ainda fragmentada em estados-nações recém nascidos, e ainda compostos por províncias desunidas, como no caso da Alemanha, a “causa” da existência de uma antropologia na concepção de Kant reside na necessidade de conhecer o “outro” a partir de um conhecimento genérico prévio. O conhecimento do homem abriria os horizontes para explorar os países estrangeiros vizinhos e os demais.

A antropologia teria como fim auxiliar qualquer pessoa naquilo em que quer se tornar. Porém, o projeto individual de cada um deveria se ajustar aos projetos dos demais, o que pressupõe uma humanidade moldada no respeito em não prejudicar a liberdade alheia. A partir desta pedagogia, estendida para todas as esferas da educação, o “homem” se tornaria um cidadão cosmopolita. Ele, ao se debruçar sobre o seu papel de entender racionalmente o mundo, ao mesmo tempo, acharia as similitudes com os outros agentes em sociedades, cujo ideal de governo seria o democrático liberal. Kant, apesar do apreço em seus escritos pelo cosmopolitismo e pela importância do contato entre os povos, teve a particularidade de não ter saído de sua cidade semelhante a uma maquete, Konigsberg, na Prússia. Não à toa, dois séculos depois, seu conterrâneo, Nietzsche, se referia a ele como o “chinês”.

Todavia, Kant teve a importância de plantar as sementes do pensamento humanista e liberal, ao reconhecer o ser humano como emancipado, dotado da possibilidade de conhecer a si mesmo por meio dos demais. Tal contribuição abre as possibilidades, dois séculos depois, para o germino da antropologia, enquanto ciência social.

Referências bibliográficas

KANT, Emmanuel. (2006). “Antropologia do ponto de vista pragmático”. São Paulo: Iluminuras

MARCONDES, Danilo. (2007). “Iniciação a história da filosofia”. Rio de Janeiro: Ed Zahar.

STARK, W. (2003). “Historical Notes and Interpretative Questions about Kant´s Lectures on Anthropology”. Cambridge.

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