Centralidade periférica

Por Mayara Abrahão,

Continuando as discussões sobre o pós-colonialismo nas ciências sociais, analisamos a relação de “subalternidade” das periferias enquanto produtoras de conhecimento, a partir do feminismo como teoria acadêmica. Como vimos em resenhas anteriores (especialmente em Quijano), o conceito de gênero, assim como o de raça, foi instituído pela modernidade colonizadora como arma política geradora de alteridade: mulheres e negros representam “o outro” diante do homem branco (civilizado). Assim, a partir do pensamento pós-colonial, diversos intelectuais questionam tais conceitos, bem como suas abordagens nos meios científicos e culturais.

No artigo Subalterno quem, cara pálida? Apontamentos às margens sobre pós-colonialismos, feminismos e estudos queer, a professora Larissa Pelúcio (UNESP/Bauru) apresenta diversos autores pós-coloniais e sugere uma nova epistemologia, na qual o “narrador” se localiza:

Anunciar o lugar de fala significa muito em termos epistemológicos, porque rompe não só com aquela ciência que esconde seu narrador, como denuncia que essa forma de produzir conhecimento é geocentrada, e se consolidou a partir da desqualificação de outros sistemas simbólicos e de produção de saberes.

Diante da necessidade de reinventar as ciências sob uma visão não-européia, Pelúcio (a partir da teórica indiana Gaytri Spivak) destaca o silêncio imposto às mulheres, mesmo dentro do pensamento pós-colonial e dos estudos de subalternidade. A teoria feminista, então, teria sido um primeiro passo em direção a um modo de produção de conhecimento afastado dos “saberes canônicos, associados a uma perspectiva eurocêntrica, masculinista, heterossexual e burguesa”.

Mas, como aponta a autora, o feminismo desenvolvido nos Estados Unidos e outros países “centrais” trazia um problema para as mulheres “periféricas”: uma teoria feita por mulheres majoritariamente brancas, heterossexuais, burguesas, cidadãs dos chamados países do primeiro mundo não daria conta dos problemas específicos de mulheres não-brancas, não-heterossexuais e/ ou não-centrais. Com base nessas questões surge a necessidade de se produzir a partir de “lugares” específicos, o que também marca a importância de autoras periféricas escreverem sobre suas questões, introduzindo debates específicos nos círculos feministas-teóricos, como o racismo dentro do próprio movimento de mulheres, as questões de classe, a lesbofobia e a transfobia, por exemplo.

O artigo de Larissa Pelúcio sugere que entre a “igualdade” e a “diferença” deve-se optar pela crítica. Ao invés de criar grandes rivalidades políticas e teóricas, esse afastamento da igualdade que essencializa e dá margem a “colonialismos internos” e da diferença que separa e enfraquece as ações coletivas, se coloca solução. Um meio termo, então, parece ser encontrar a centralidade dos discursos, mesmo os periféricos: reconhecendo-se situações nas quais há igualdade e aquelas em que, pelo contrário, as lógicas de dominação são reforçadas.

Além disso, Pelúcio fala também da posição brasileira na produção de teorias. Segundo ela, o Brasil é um dos países “centrais” na periferia. Ao chamar atenção para esse fato, a autora levanta duas questões: a primeira tem a ver com o reconhecimento desse lugar, que mostra a necessidade de superação da síndrome de vira-lata, que nos faz (brasileiros, periféricos) acreditar numa superioridade qualitativa da produção hegemônica; a segunda, se relaciona ainda mais com o aspecto específico dos nossos temas de estudo: enquanto centros de nossa própria periferia, nossa tarefa seria produzir conhecimento sobre nós mesmos, para que, em diálogo com “os outros”, não só eles sejam objetos de atenção.

Para além das questões apresentadas pela autora, falar em centralidade nos faz contestar a função desse papel. Ser “centro” na periferia requer a criação de novas relações, um cuidado para que não assumamos o lugar do tirano. Não podemos correr o risco de representar para os nossos vizinhos aquilo que criticamos em nossa produção. A “centralidade periférica”, por isso, precisa criar uma nova relação entre os locais, em que haja trocas e não exploração.

Desse modo, a subalternidade e o pós-colonialismo têm ainda essa característica contestadora (e por que não, rebelde), que é traço de uma inventividade própria da periferia – a “malandragem” e o “jeitinho” aos quais Pelúcio refere-se. A produção acadêmica nas periferias não pode se impregnar daquilo que nos torna outros, ou seja, a ciência “daqui” não deve se igualar a “de lá” no que essa tem de pior: “(…) esse conjunto de enunciações teóricas que reconhecemos como sendo saberes subalternos justamente pelo enfrentamento teórico, metodológico, ético e epistemológicos que fazem aos saberes hegemônicos.”

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