Entrevista com Margaret Abraham, presidente da ISA

Por Edmar M. Braga Filho, Leonel Salgueiro e Raphael Lebigre

Tivemos o prazer de entrevistar Margaret Abraham, atual presidente da Associação Internacional de Sociologia (ISA, em inglês). Abraham veio ao Brasil ano passado, para participar de vários eventos acadêmicos, entre os quais o XVII Congresso Brasileiro de Sociologia, em Porto Alegre. O Circuito Acadêmico não poderia ter perdido essa oportunidade. Ao entrevistá-la, discutimos temas como a circulação do conhecimento, as desigualdades de gênero nas ciências sociais e o vínculo entre ativismo e pesquisa. A versão original pode ser encontrada aqui. Confira abaixo e dê sua opinião!

Para você, o que significa ser uma mulher do Sul Global ocupando a posição de presidente da ISA?

Eu me vejo como uma cidadã global. Sim, sou uma mulher do Sul Global, já que vivi meus anos de formação na Índia e isso norteou minhas percepções de várias formas. Mas eu também vivo nos EUA desde 1984, e como tal sou transnacional. Contudo, achoMaggie4 importante reconhecer que há muitas mulheres que são provenientes do Sul Global, e nele permanecem, trazendo importantes perspectivas críticas, histórias e contextos para nós, da comunidade internacional. Por exemplo, as acadêmicas e ativistas na América Latina, incluindo o Brasil, que realizam de forma incrível um trabalho transformador sobre uma série de questões de gênero, desigualdade e justiça.

Como presidente da ISA, eu me vejo numa posição encorajadora e fascinante para quem veio do Sul Global, e que também foi formada de várias formas no Norte Global. Ocupar essa posição foi um avanço significativo não apenas em termos de gênero, mas também como uma “mulher de cor” no contexto do Norte. Nós tivemos 18 presidentes , e eu sou a segunda mulher a assumir o posto. Margaret Archer, do Reino Unido, foi a primeira (1986 – 1990), há 25 anos. Este é um grande passo, ao garantir que as mulheres estão cada vez mais representadas em posições de liderança na ISA, e eu sou grata por quem tornou isso possível. É uma grande honra, mas eu penso que é igualmente importante o uso desta liderança como uma oportunidade para construir uma presença mais forte de sociólogos provenientes do Sul Global, para que a ISA seja verdadeiramente global.

De acordo com a sua experiência, quais são os desafios para superar das desigualdades de gênero nas ciências sociais? Você poderia propor alguma alternativa?

MaggiePrimeiro e principalmente, eu acho que as ciências sociais têm estado sob ataque recentemente. Governos e agências de fomento reduziram o financiamento para essas áreas. Universidades em muitos lugares também estão reduzindo departamentos e cursos. Certamente há desigualdades de gênero em certas áreas e instituições, em termos de salário e na proporção de homens e mulheres em empregos temporários (part time positions).

Há diferenças de valor entre as disciplinas, bem como a influência das forças do mercado, que tem cada vez mais moldado as universidades como se fossem empresas, e estudantes como clientes, de forma a impactar negativamente o ambiente de aprendizagem para professores e alunos. Há também desigualdade de gênero no que diz respeito à divisão do trabalho, em que mulheres fazem uma quantidade de trabalho desproporcional de ensino e serviços burocráticos, dedicando menos tempo para a pesquisa. E é justamente esta última que é frequentemente mais valorizada, considerando o aumento de salário e promoções. Creio que devemos ver todos os três componentes como tendo igual valor e peso, ou devemos fazer uma distribuição mais justa destas responsabilidades. Também há as questões sobre licença maternidade/paternidade (parental leave) e outros benefícios importantes.

Contudo, o desafio que nós temos que superar não é somente sobre à desigualdade de gênero nas ciências sociais, mas também se refere às hierarquias da produção do conhecimento. Isto é, conhecimento de quem é apresentado antes (upfront) e disseminado, e quem tem mais acesso aos recursos? Se você olhar as ciências sociais, inclusive a sociologia, por um longo período de tempo, veremos que não há igualdade de gênero não só no âmbito do salário, mas também nas perspectivas que dominam a disciplina. Quero dizer, para muitos de nós, as ciências sociais têm sido dominadas pelo Norte Global, e os sociólogos que nós aprendemos são predominantemente homens.

Dessa forma, penso que este é um aspecto muito importante que está sendo cada vez mais desafiado e retificado por teóricos pós-coloniais, teorias críticas sobre raça, e acadêmicas feministas “de cor” (feminists scholars of color), e através de histórias de pessoas e sociólogos no cotidiano. Como sociólogos, como transformamos a disseminação do conhecimento? Como garantir que nas instituiçõesMaggie8 acadêmicas tenham mais igualdade de gênero e sejam mais diversas? Como assegurar que o trabalho que mulheres e minorias fazem, não apenas no âmbito da pesquisa, mas também do ensino e serviço, sejam valorizados, de forma equânime? Frequentemente há algum tipo de desigualdade. Ainda vivemos em instituições patriarcais. Ao passo que há algumas mudanças, especialmente na retórica em torno do gênero, as mulheres, especialmente as pertencentes a grupos minoritários, ainda encontram obstáculos consideráveis e discriminação no ambiente de trabalho. Isso tem mudado lentamente, e eu acho que um dos caminhos para transformar é mobilizar, e assegurar que mulheres competentes estejam ocupando posições de lideranças em instituições onde decisões importantes sejam feitas.

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Como professores, também precisamos estar cientes acerca da seleção de artigos para ler e ensinar, para que retifiquem algumas das lacunas de gênero em nossos programas de curso e pesquisas. Precisamos mudar políticas no ambiente de trabalho no âmbito das leis. As mulheres, nas ciências sociais, como também em outros campos da ciência, têm muito a contribuir. Contudo, penso que para uma transformação substancial ocorrer, precisamos levar a cabo abordagens de muitas frentes e níveis, que são feitas repensando o desenvolvimento da pesquisa, currículo e ocupações em posições de lideranças. Precisamos de mobilização, e os dados nas ciências sociais revelam desigualdades históricas. Novas estruturas (frameworks), e um forte compromisso em trabalhar e transformar políticas e práticas que assegurarão maior igualdade e justiça social.

As ciências, e em particular as sociais, e o ativismo podem andar juntos? Quais os riscos e vantagens ao fazer isso?

Você está falando com alguém que acredita seriamente que as ciências sociais devem, de várias formas, vincular pesquisa com ativismo. Eu me vejo como uma “pesquisadora de ação” (action-researcher). Sou uma grande proponente de que algumas das melhores sociologias podem ser feitas quando nós de fato traduzimos o conhecimento que temos em ação que, de alguma maneira, resulta em mudanças. Certamente há pessoas que falam sobre os riscos, dizendo que o trabalho que fazemos é enviesado. Sabemos que os dados “objetivos”, incluindo algumas estatísticas, possuem sua quota de viés na apresentação de dados. Precisamos também fazer uso  tanto de dados quantitativos quanto qualitativos em nossas pesquisas. Evidentemente, nossa pesquisa deve ser rigorosa, mas isto de forma alguma impede deve impedir o vínculo entre pesquisa e ação. Eu não estou dizendo que toda pesquisa pode ser traduzida em ação, ou que todos os pesquisadores devam ser “action researchers“, mas eu acredito muito que os tempos desordenados em que vivemos nos requere utilizar a sociologia para ajudar a influenciar  políticas e práticas.

Penso que algumas das melhores pesquisas também podem ser feitas, vinculando-se com ativismo, ao lado de outras disciplinas. E a sociologia está muito bem equipada para isso. Eu conheço projetos comunitários que temos feito, por exemplo, sobre HIV e abuso, em que epidemiologistas, policy makers, sociólogos, psicólogos e outros ativistas trabalham todos juntos. A ideia de fazer trabalho Maggie6colaborativo ao lado de outras disciplinas é verdadeiramente importante. Para muitos de nós, ser compartimentalizado e dizer “isto é ciência dura”, enquanto “isto é ciência social” é extremamente problemático no mundo de hoje, pois a maioria das questões que precisamos resolver, sejam elas na saúde, na violência ou educação, precisam caminhar juntas. De fato, traduzir nossas pesquisas em políticas que possam promover a construção de um mundo melhor. Enquanto há diferenças entre nossas disciplinas, eu penso também que há falsas divisões e hierarquias que impactam a produção do conhecimento, sua disseminação e valores que atribuímos aos campos. Uma importante maneira de fazer pesquisas ao lado de outras disciplinas é estar fundamentado na sociologia. Podemos aprender muito por meio do ativismo e do trabalho colaborativo com comunidades. Para aqueles interessados em se engajarem em pesquisas como “action researchers”, temos que ser cuidadosos para evitar os riscos de se envolver no ativismo sem ter qualquer tempo para pesquisar, e que é crucial para mudanças.

Se algum(a) estudante te dissesse que está pensando em desistir de sociologia, o que você diria a ele(a)? Poderia nos contar também alguém ou  algo que te inspira?

Se alguém me dissesse que está pensando em desistir, eu perguntaria a razão. Eu tenho alguns estudantes que já disseram isso. Geralmente é porque eles estão preocupados com os empregos, e então eu passo um tempo discutindo as especificidades dessa preocupação. Alguns preocupam-se em pagar os empréstimos, enquanto que para outros é simplesmente porque a sociologia não é sua área de interesse. Há muitos outros que são apaixonados pela disciplina, e esperam que ela forneça os fundamentos e as habilidades metodológicas que os ajudarão em suas carreiras, seja na academia, governos, organizações e, mais recentemente, nas áreas de direito e políticas públicas. Eu penso que a sociologia é uma vocação e uma profissão. Para mim, é uma maneira de ajudar a transformar nossas instituições, moldar questões de justiça social e fortalecer a sociedade civil.  Sinto-me tão apaixonada pela sociologia que eu espero persuadir aqueles estudantes a não abandonarem a sociologia.

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Você me perguntou anteriormente sobre quem me inspirou para que eu me tornasse socióloga. Na verdade não foi alguém individual ou um incidente. Foram as questões que surgiram numa sociedade complexa como a Índia, com sua história, incluindo a colonização, estratificação, e as múltiplas identidades que dão forma às vidas das pessoas, e à resiliência e força das pessoas e movimentos lutando contra a discriminação, pela liberdade e justiça. Uma parte muito importante foi o brilho de muitos dos professores que me ensinaram todos esses anos na Índia e nos EUA o feminismo e acadêmicos críticos que estudam raça, além da comunidade de ativistas que influenciam meu pensamento sociológico. E, claro, a minha família. Debates sociológicos e diálogos ocorrem com muita frequência em casa, entre familiares e amigos.

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A equipe do Circuito Acadêmico agradece a professora Abraham pela atenção e gentileza!

Foto de capa: Abraham no XVII CBS, 2015. Fotógrafo: Sidnei Schirmer http://www.sidneischirmer.com.br/

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