‘Quali’ versus ‘quanti’?

Por Anna Carolina Düppre,

Números e significado. Variáveis e sentido. Quantidade e complexidade. Todos são fatores que permeiam uma mesma realidade social na ótica das ciências humanas. Por que, afinal, pensamos em objetividade e subjetividade como campos opostos?

Maria Cecília Minayo, antropóloga sanitarista, e Odécio Sanches, da área de bioestatística e métodos quantitativos, ambos pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz, demonstram em seu artigo “Quantitativo-Qualitativo: Oposição ou Complementaridade?” a importância e relevância da complementaridade entre metodologias quantitativa e qualitativa. Outros autores, como Ignacio Cano, já apresentaram defesa pela união entre os métodos, argumentando que nem todos servem a quaisquer pesquisadores e projetos, mas ressaltando o serviço que um presta a outro na hora de se construir profundidade, qualidade analítica e clareza das informações em ciências sociais, já discutido no site do C/A.

Seja em saúde pública, seja em ciências sociais, a pesquisa deve construir um retrato da realidade observada a partir da complementaridade dos métodos. Minayo e Sanches defendem seus respectivos instrumentos de ação, realizando neste trabalho um exercício de relativização e buscando trazer à tona limitações e especificidades dos métodos que levam a pesquisa a construir teorias eficientes.

Em sua discussão, Sanches menciona a problemática do uso de alguns procedimentos estatísticos de controle das condições ambientais nas ciências exatas — probabilidade, variabilidade, ajuste, estimativas, hipóteses, inferência etc — mas também destaca as possibilidades de uso da linguagem matemática nas chamadas soft sciences, a fim de se descrever, representar ou interpretar a multidiversidade de formas vivas e suas possíveis interrelações“.

Contudo, a realidade muitas vezes se mostra conflitante e a linguagem matemática tende a modelos idealizados, construções abstratas e um retrato parcial do fenômeno investigado que, quanto mais complexo for, maior deverá ser o esforço para quantificá-lo de forma adequada, estabelecendo soluções realmente práticas. Por isso, tanto nas investigações biológica e médica quanto na social, deve-se questionar quais fatores são de fato relevantes nessa tarefa de quantificação, num esforço que seja realista e que possa também evitar “supercomplexificações” ou “supersimplificações”.

Segundo Cecília Minayo, a abordagem qualitativa nas ciências humanas se estabelece no campo do simbólico e do subjetivo, na busca pelo sentido de fatos sociais. Ela não produz leis gerais de ordenamento, mas interpretações sobre singularidades de atores e grupos, o que envolve empatia entre sujeito e objeto, que são da mesma natureza. Mas numa realidade na qual tanto investigadores como investigados são agentes, é possível estabelecer a ideia de objeto? A reflexão aqui trata da cientificidade em ciências sociais.

Alguns estudiosos das humanidades explicam que é possível encontrar regularidades no comportamento humano, em qualquer fenômeno cultural e, portanto, podem ser estudados para além das motivações individuais. Por outro lado, um amplo debate acadêmico iniciado na década de 1930 na Escola de Chicago sobre as abordagens quantitativa e qualitativa nas ciências sociais redundou em um claro favorecimento da metodologia quantitativa, por ser considerada mais rápida, fácil e capaz de abranger maior número de casos. Já os resultados qualitativos foram avaliados na ocasião como “estudos heurísticos, pré-científicos, subjetivistas ou, até, ‘reportagens malfeitas’”.

Esse debate sob moldes positivistas, que defende que não é possível tratar cientificamente o significado da ação humana, persiste até os dias de hoje, como observa Minayo. Contudo, à medida que métodos e técnicas de pesquisa foram sendo aperfeiçoados, viu-se a expansão de uma sociologia compreensiva, que coloca a inerência do qualitativo ao estudo social e sua relação essencial com as ciências humanas.

No contexto qualitativo, segundo Minayo, o pesquisador e sua relação com as etapas de investigação e análise podem ser concebidas como “partes do processo social analisado e como sua consciência crítica possível”. A autora propõe que, a partir desse quadro, a cientificidade serve ao trabalho qualitativo como ideia reguladora, e não como sinônimo de modelos e normas rígidas.

Quantificar o simbólico, os significados e as intencionalidades do cotidiano humano é tarefa árdua e complexa. Envolve sistematizar e criar um campo de investigação que, para as ciências exatas, é tema consolidado: analisam-se órbitas de planetas, velocidade de objetos, mudanças de temperatura, reações químicas – fenômenos que não possuem sentido, simplesmente acontecem com certa regularidade, como nos lembra Ignacio Cano. Essa é a raiz do embate epistemológico.

Acerca da linguagem e prática qualitativas, o texto elucida que seu uso é adequado para a compreensão mais profunda de problemas levantados primeiramente pelos estudos quantitativos, assim como para observar novas variáveis que poderão ser utilizadas posteriormente em trabalhos estatísticos. Não são indicados, portanto, para compor grandes perfis populacionais ou indicadores macroeconômicos e sociais, por exemplo. Desse modo, explica Minayo, “O material primordial da investigação qualitativa é a palavra que expressa a fala cotidiana, seja nas relações afetivas e técnicas, seja nos discursos intelectuais, burocráticos e políticos”, capaz de revelar condições estruturais, valores, símbolos e representações sociais e culturais.

Não há para os autores contradição nem continuidade entre as metodologias científicas. Nenhuma das duas abordagens é suficiente em si para uma compreensão completa da realidade, ou que se aproxime disso. Portanto, sendo de naturezas distintas, investigam camadas diferentes de um universo: uma não é mais científica que outra. O que realmente importa no campo científico das ciências humanas é a adequação dos métodos ao que é estudado, sendo fundamental, concluem, que uma abordagem ajude a aprofundar a outra.

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

MINAYO, M. C. S. & SANCHES, O. Quantitativo-Qualitativo: Oposição ou Complementaridade? Cad. Saúde Públ., Rio de Janeiro, 9 (3): 239-262, jul/set, 1993.

CANO, Ignacio. 2012. “Nas trincheiras do método: o ensino da metodologia das ciências sociais no Brasil.” In: Sociologias, Porto Alegre, ano 14, n. 31, set/dez. 2012, p. 94-119.

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