As ideias são nômades — algumas mais do que outras

Por Edmar M. Braga Filho

As ideias são nômades por natureza. Elas circulam por diferentes contextos, são apropriadas e transformadas. Com o conhecimento científico não é diferente: todos os processos que o constituem, da produção à difusão, nunca ficam restritos ao local de origem. E isso se deve ao fato de que, para ganhar vida, ele precisa ser lido, reconhecido e analisado por cientistas do mundo todo. Como atividade coletiva, a ciência depende da cooperação constante para que seus resultados deem frutos e prosperem. 

Caso continuemos com essa caracterização acrítica da circulação do conhecimento, muitas frases de efeito surgirão, mas pouca compreensão será efetivamente obtida. A perspectiva sociológica, com sua percepção de totalidade da realidade, oferece melhores instrumentos para analisar a circulação das ideias. Contudo, mal nos aventuramos na seara das interpretações sociológicas e nos deparamos com inúmeros pontos de vistas, todos muito bem fundamentados. Considerando esse aspecto, aqui será considerada uma determinada interpretação da circulação do conhecimento científico, a saber, aquela que enfatiza a formação de centros e periferias, com ênfase no conhecimento das ciências sociais. Ela leva em conta as condições da circulação do conhecimento, os meios pelos quais fluem, as diferenças entre as comunidades científicas, e como elas se efetivam em assimetrias no reconhecimento de sua produção científica.

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Por meio dessa chave analítica centro/periferia, muitos autores têm pensado as desigualdades que permeiam a circulação do conhecimento na arena internacional. Um marco para essa perspectiva é a constatação empírica de que as ciências sociais de alguns países, notadamente periféricos nos âmbitos econômicos e geopolíticos, dependeriam do desenvolvimento das ciências sociais de outros países, ricos e influentes politicamente, para desenvolverem a si mesmas. Essa relação seria constituída por uma divisão internacional do trabalho acadêmico, por meio do qual conceitos, teorias e metodologias partiriam dos centros, ao passo que das periferias se espera a coleta de dados e a replicação daqueles standards. Essa constatação foi teorizada, de forma mais impactante, pelo sociólogo malaio Syed Farid Alatas.

Outras proponentes dessa perspectiva, as sociólogas Raewyn Connell e Wiebke Keim defendem outra internacionalização das ciências sociais, em específico a sociologia. Na perspectiva das autoras, os cânones da disciplina, como também as teorias que apreendem a realidade social, estão centralizados na produção científica de alguns poucos países, especificamente EUA e aqueles da Europa Ocidental. Isso ocorre não porque a sua produção seja mais relevante, mas porque a internacionalização atual privilegia a comunidade acadêmica desses países. Para uma ciência cuja uma das especificidades é a sua relação com os contextos social e cultural onde é produzida, essa desigualdade seria danosa para a própria criatividade sociológica, já que ignoraria a produção de inúmeros outros países periféricos. O diálogo internacional entre os cientistas dessas regiões seria muito inferior comparado àquele que possuem com os centros.

Em sequência: Keim, Alatas e Connell
Em sequência: Keim, Alatas e Connell

Ressalta-se que esses autores atentam suas análises para os aspectos estruturais da circulação do conhecimento, ou seja, aqueles mais duradouros e que fogem do controle individual, condicionando o fenômeno em questão em grande escala. Atentos às essas questões, que envolvem processos históricos duradouros, como o colonialismo ou o imperialismo, os autores dão pouco espaço para uma investigação microssociológica. De fato, entender os mecanismos que fortalecem essa desigualdade internacional sob essa ótica seria importante não apenas para o esclarecimento do fenômeno, mas também para a procura por formas de minimizá-lo.

O sociólogo Rodriguez Medina contribui para essa perspectiva sociológica, na medida em que analisa o fenômeno da circulação internacional do conhecimento em sua ordem micro, sem perder de vista os seus condicionantes estruturais. Para isso, o autor dialoga com os estudos sociais da ciência e tecnologia, cuja uma das principais contribuições é a chamada teoria ator-rede. Através dela, ele identifica o papel não só dos atores “humanos”, mas também dos “não-humanos”, como artigos, livros, conferências, softwares e bibliotecas.

Partindo da análise dos campos científicos, que possuem diferenças estruturais marcantes, a depender do contexto em que está imerso, Medina forja o conceito de “objetos subordinantes”. Eles seriam a materialização do conhecimento que circula entre campos científicos de diferentes graus de autonomia e institucionalização, e teriam o poder de estruturar aqueles notadamente periféricos. Esse processo é verificável, por exemplo, em sua capacidade de (I) organizar planos de estudo, ementas e canonizar ideias; (II) regular temas de conferências; (III) determinar agendas de pesquisa; e (IV) regular a mobilidade acadêmica. Medina articula, dessa forma, aspectos do cotidiano da atividade científica com questões estruturais do campo científico.

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Os programas de curso, ou ementas, permitem ao professor ministrar o curso em torno da obra de alguns autores considerados fundamentais. Como objetos subordinantes, eles possuem a capacidade de canonizar esses autores e o campo acadêmico de onde provêm, dado que a socialização dos estudantes se dá sobretudo através de textos.

De fato, o conhecimento é nômade. Mas ele também não possui um valor intrínseco em si mesmo – ao menos para fazer-se reconhecido. Ele depende de meios desigualmente constituídos de circulação e da capacidade do cientista de mobilizar redes internacionais. O prestígio está centralizado em determinadas instituições, que concentram capital simbólico e recursos materiais. Além disso, a ciência depende de cooperação coletiva, mas isso não quer dizer que isso não ocorra sob uma divisão social do trabalho.

A modo de conclusão, ressalta-se que o tema é imerso em questões delicadas, uma vez que envolve os próprios sociólogos, habituados a desmistificar outros mundos sociais que não os seus. Contudo, também é importante frisar o esforço por tomar o problema em seus aspectos operacionalizáveis cientificamente, deixando questões políticas para outros espaços de atuação do cientista. Vale lembrar que a reflexividade é constituinte da produção conhecimento sociológico, o que significa dizer que a sua apropriação pelos atores sociais pode transformar a realidade social – mesmo que esses atores sejam os próprios sociólogos.

 

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