Humanos das Humanas – Entrevista com Michael Burawoy

Por Edmar Machado, Leonel Salgueiro e Raphael Lebigre,

Temos o prazer de apresentar Humanos das Humanas, o novo projeto do Circuito Acadêmico. No Humanos das Humanas discutiremos as dificuldades, os prós e os contras do afazer dos sociólogos, e os desafios da carreira. Para isso, realizaremos entrevistas com sociólogos ao redor do mundo, tentando alcançar diferentes realidades e pontos de vista a respeito da profissão. Como primeiro entrevistado, temos a honra de apresentar Michael Burawoy, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley.

Humanos das Humanas procura mostrar a cozinha da produção do conhecimento, o seu lado humano. De modo de capturar as diversas reações e respostas espontâneas dos entrevistados, e pensarmos juntos sobre os temas debatidos, as perguntas não são enviadas com antecedência.

Confira abaixo a inspiradora conversa que tivemos com Michael Burawoy, quem muito gentilmente nos concedeu alguns minutos de seu tempo na sua vinda ao Brasil em 2015.

C/A – O que você prefere, publicar ou perecer?

R – Eu definitivamente não quero perecer. Então eu tenho que publicar. A grande questão é o quão importante é a publicação para a carreira científica. Do meu ponto de vista, a publicação é um aspecto importante da carreira, mas há outras coisas também. Eu acho que o ensino não é menos importante. E cultivar essa imaginação sociológica nos outros que me dá o maior prazer. O envolvimento com as pessoas para além da academia também é importante. Nós não só publicamos em revistas científicas, como também realizamos entrevistas na televisão e rádio, contribuímos em colunas de jornais, produzimos blogs, e assim por diante. A publicação pode ser para seus pares, ou seja, para os próprios colegas sociólogos, mas também pode ser parte de um diálogo com as pessoas que trabalham nos sindicatos, com as empresas ou agências do Estado, com os movimentos sociais, e assim por diante. Nós, os cientistas deveríamos ser capazes de transmitir as nossas ideias de maneiras diferentes para públicos diferentes.

C/A – Para você, sociologia é uma profissão ou uma vocação?

R – Oh, essa é uma pergunta difícil. Eu tanto vivo fora sociologia, como também vivo para a sociologia. Irving Louis Horowitz, um famoso sociólogo norte-americano, referindo-se a proporção por dia em que os sociólogos fazem sociologia, relata a distinção entre aqueles que passam 8 horas, 12 horas e 24 horas que dedicam a isso. Eu costumo  pensar que sou um sociólogo de 24 horas. Sim, eu vivo para a sociologia, tornou-se um fim em si, um princípio de vida. Eu sou muito privilegiado, pois a maneira que eu vivo “off” sociologia me permite também viver para a sociologia. São muito poucos os que têm um rendimento suficientemente seguro para dedicar-se a sociologia, que lhes permite persegui-la dia e noite sem se preocupar com restrições materiais ou perder o emprego. Aí reside o perigo – que eu vou perder a sensibilidade e empatia com os menos afortunados. É por isso que eu acho que é importante estudar pessoas muito diferentes de si mesmo. Eu mergulhei em comunidades operárias em diferentes países, tanto como objeto de estudo e como uma lembrança do meu próprio privilégio.

C/A – Nós, estudantes de graduação, vemos muitos dos nossos colegas saírem da universidade e da sociologia, por ser algo inacessível. Portanto, se um estudante pedir uma razão para não desistir o que você diria?

R – Verdade. A possibilidade de fazer a sociologia de uma maneira formal tornou-se mais difícil em todo o mundo. É difícil ganhar a vida como um sociólogo. Se em primeiro lugar procura-se uma estabilidade financeira aconselho que se torne um engenheiro, um médico, um empresário – e mesmo assim, pode ter um modo de vida precário. Mas a sociologia pode ser mais do que um emprego, pode ser um modo de vida, uma disposição que, uma vez aprendi a nunca dissipar. Se alguém pensa nos clássicos da sociologia – Marx, Weber e Durkheim – cada um deles tinha uma orientação crítica para o mundo, uma maneira de ver como as coisas são determinadas e além do nosso controle por um lado, mas como as coisas poderiam ser diferentes por outro. Sociologia tem tanto uma maneira anti-utópica e utópica de pensar. Podemos tomar essa perspectiva em nossos mundos diariamente, pensando em como o mundo parece durar, mas como ele também pode mudar.

Então, sobre a minha própria carreira e meu desejo de ser um sociólogo – Fui treinado como um matemático, mas perdi o interesse no assunto quando eu fiquei extasiado com o movimento estudantil nos anos 1960 e 1970. Naqueles dias a sociologia atraía tantos de nós que pensavam em fazer um mundo melhor. Eu começei como um sociólogo na África, na Zâmbia, onde trabalhei e estudei entre 1968 e 1972. Zâmbia tinha ganho fazia pouco tempo a independência. Estávamos todos interessados em como o pós-colonialismo levaria o país – em direção ao socialismo, capitalismo, ou uma mistura dos dois? Quais eram as chances de consolidação da democracia e independência econômica. Foram dias inebriantes quando tudo parecia possível.

C/A – Você poderia nos contar alguma coisa ou alguém que lhe inspirou a seguir e não desistir da profissão?

R – Eu tive professores maravilhosos na África, antropólogos marxistas que moldaram a minha visão sobre as ciências sociais. Além de meus professores, se há uma pessoa que tem inspirado meu pensamento, seria o marxista italiano, Antonio Gramsci. Ai está um homem que veio de uma origem muito pobre na Sardenha, que sofreu dor física toda a sua vida, um homem que estava muito preocupado com a desigualdade e dominação, e que respeitava as qualidades intelectuais de todos. Ele era um porta-voz do movimento da classe trabalhadora, em Turim, especialmente durante as ocupações de fábricas de 1919-1920. Ele foi membro fundador do Partido Comunista Italiano e preso pelo regime fascista de sua atividade política. Foi na prisão que ele escreveu seu famoso “Cadernos do Cárcere” que contêm a análise mais penetrante da “hegemonia” encontrada no marxismo ocidental. Ele, também, como os sociólogos, teve seus momentos utópicos e anti-utópicos, reconhecendo a durabilidade do capitalismo, mas sem nunca perder de vista a sua possível transcendência. Eu poderia falar sobre Gramsci por muitas horas, mas o Circuito Acadêmico só me deu cinco minutos, por isso vou terminar aqui.

2015-06-03 17.35.45Confira a versão em inglês clicando aqui.

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Uma opinião sobre “Humanos das Humanas – Entrevista com Michael Burawoy”

  1. Sensacional esse novo projeto do CA. Pena que foi tão curta a entrevista rsrsrsrs…no aguardo de mais novidades ! Abraços a todos do CA.

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