A PERSISTÊNCIA DA COLONIALIDADE NA ACADEMIA – PARTE 2

Por Mayara Abrahão,

A Europa se tornou o centro do mundo graças à exploração das Américas, pelos espanhóis e portugueses, a partir do século XVI. Com isso, criou-se um novo modelo econômico e uma nova hegemonia cultural. É a partir dos valores coloniais que se constrói a Europa enquanto ideologia – pretensamente una e superior ao “resto” do mundo. O ideal de progresso transformou o não-europeu em sinônimo de atraso, a ser superado com a “ajuda” dos colonizadores (como discutido na primeira parte do texto).

Segundo o sociólogo peruano Aníbal Quijano, os europeus se julgaram inventores da modernidade, mas na verdade, o que se pode atribuir ao colonialismo europeu é a invenção da globalização (“sistema-mundo”) e não avanços tecnológicos, como se vem afirmando: Com todas as suas respectivas particularidades e diferenças, todas as chamadas altas culturas (China, Índia, Egito, Grécia, Maia-Asteca, Tauantinsuio) anteriores ao atual sistema-mundo, mostram inequivocamente os sinais dessa modernidade, incluído o racional científico, a secularização do pensamento, etc. (Quijano, 2005:112).

Com isso, as identidades culturais e os modos de vida dos diversos povos tradicionais são apagados e as especificidades dos povos sequestrados da África e escravizados na América, foram substituídos pelas categorias raciais “indígena” e “negro”. O autor chama essa dominação de todas as esferas da vida social (cultural, religiosa, econômica e política) de “colonialidade do poder”.

O saber eurocêntrico produz a divisão razão/sujeito x corpo/objeto (Descartes) e é esse princípio, aliado à ideologia racista, que permite transformar os indivíduos não-europeus em seres inumanos, passíveis de violências como a escravização. Ao assumir a racionalidade científica como única fonte de conhecimento e a natureza como objeto a ser explorado, o pensamento colonial aproxima a Europa ao ideal racional, e os demais continentes ao “estado de natureza”.

O eurocentrismo, portanto, é a lógica cultural do colonialismo, e o pensamento eurocêntrico, aquele que mantém essa linha evolucionista: considerando uma cultura ou país atrasado pela distância dos ideais europeus (brancos, patriarcais, capitalistas, colonizadores); um traço da dominação colonial que persiste até a atualidade.

Outro autor de orientação pós-colonial, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos (2010), trata do “colonialismo interno”. Segundo ele, o colonialismo deixou hierarquias culturais, sociais e econômicas, mesmo após as independências. Geradas a partir da lógica colonial, essas relações desiguais se mantêm onde se percebe a exclusão dos povos originários e afrodescendentes, seus meios de vida e suas culturas. A lógica do colonialismo interno se reflete principalmente nas relações de classe, quando, mesmo em países de maioria indígena ou negra, a elite econômica é formada majoritariamente por brancos.

Santos apresenta duas vertentes do pensamento crítico latino-americano, diante do colonialismo interno. A primeira se caracteriza pela negação. Os pensadores dessa vertente acreditam no fim do colonialismo com o marco das independências, baseando sua discussão teórica no anti-capitalismo e nas questões de classe, sem reconhecer as questões étnico-culturais; abordando a mestiçagem e o mito da democracia racial como exemplos de superação da colonialidade. A segunda vertente do pensamento crítico latino-americano foca seus esforços não apenas no pós-capitalismo, mas também no pós-colonialismo. Compreendendo que as dinâmicas políticas coloniais se arraigaram na construção das identidades nacionais, esse grupo de pensadores busca, através da pluralidade cultural, uma saída para os problemas da região.

O autor expõe o colonialismo interno na produção de conhecimento, mostrando a falta de diálogo entre a teoria (o pensamento crítico clássico, eurocêntrico) e as práticas políticas e sociais na América Latina. As mudanças sociais vividas nas últimas décadas na região têm sido protagonizadas por povos tradicionais, campesinos, negros e mulheres. Os movimentos sociais e suas ações políticas não se assemelham às formas da teoria clássica (que enxerga no proletariado urbano a força revolucionária), o que gera e alimenta a distância entre os dois pólos.

Por isso, há a necessidade de uma nova teoria, que não se limite a produzir modelos, mas que dialogue e faça parte da realidade social, que “acompanhe de perto”. O distanciamento das teorias clássicas não significa sua negação. Pelo contrário, como pleiteia a obra do peruano José Carlos Mariátegui (1894-1930), a construção de um modelo teórico latino-americano envolve a busca de ressignificação das teorias clássicas (“Nacionalização do marxismo”), traduzindo-as aos contextos e especificidades da América Latina e de cada país.

Boaventura de Sousa Santos propõe fundar a “epistemologia do Sul”, a fim de superar a “epistemologia do Norte” ou o eurocentrismo nos saberes. Para isso, a “sociologia das ausências” e a “sociologia das emergências” se mostram fundamentais. As ausências são formadas pelas práticas hegemônicas coloniais: ao buscar a homogeneização, o universalismo e a globalização, a prática colonial nega e invisibiliza a pluralidade e as diferenças, as colocando em lugar subalterno ou ausente. Cabe então à sociologia das ausências trazer, não só as culturas e os saberes apagados, mas também a própria prática de anulação à discussão. Já a sociologia das emergências teria como função detectar “futuros possíveis” para o projeto pós-colonial. A partir das possibilidades e capacidades, ela buscaria perceber as condições e desenvolver princípios de ação que garantam a continuidade da ampliação dos horizontes, iniciada pela sociologia das ausências.

As duas sociologias propostas por Santos são “não-convencionais”, porque propõem o uso das subjetividades no processo de produção do conhecimento, o rompimento com as normas eurocêntricas que definem o que é cultura e o que é ciência. Desse modo, rompe com paradigmas coloniais e busca um caminho de interação dos saberes, abandonando as ideias dicotômicas que separam a ciência da vida cotidiana. Uma proposta a ser considerada.

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