Jornalismo é conhecimento?

Por Anna Carolina Düppre,

Ao longo dos últimos anos, a maneira como lidamos com as notícias e a comunicação foi profundamente modificada pela tecnologia. Com um fluxo de informações e dados cada vez maior, é possível que a função do jornalismo para a sociedade seja reavaliada e posta em questionamento constantemente. Ele é apenas instrumento de transmissão de conhecimentos de terceiros ou é uma forma de conhecimento em si? É uma interpretação válida do real ou “perde” para a ciência em termos de rigor analítico?

As questões são levadas a debate por Eduardo Barreto Vianna Meditsch, jornalista, pesquisador e professor da Universidade Federal de Santa Catarina em “O jornalismo é uma forma de conhecimento?”. O artigo foi publicado pelo periódico Media & Jornalismo, da Universidade Nova de Lisboa. Esta resenha irá apresentar algumas das críticas que o jornalista propõe em sua análise.

Meditsch inicia a discussão deixando clara sua defesa, mas com uma reserva: o jornalismo é, sim, uma forma de produção de conhecimento; contudo, pode, na prática, tanto servir para reproduzir outros saberes, quanto para degradá-los, e por vezes faz os dois simultaneamente.

Ele é guiado por três abordagens teóricas para conduzir a reflexão. A primeira, o pensamento pautado pelo método científico, classifica o jornalismo de maneira negativa. Na era moderna, a visão da ciência como única fonte de conhecimento digna de crédito levou a uma distinção do Jornalismo como forma defeituosa de produção de saberes, que contribuiria apenas para a degradação destes. Tal posicionamento ainda hoje permanece influenciando significativamente a produção acadêmica, avalia Meditsch.

A segunda abordagem observada por ele situa o jornalismo como ciência menor, porém é mais flexível, entendendo que a atividade jornalística gera tipos de conhecimento úteis ao cotidiano humano. Apesar disso, essa postulação considera-o distinto de outras áreas como a ciência e a história quanto à profundidade e capacidade de análise, desfavorecido ainda pela velocidade da produção. A comparação, feita sob uma espécie de gradação do que é mais e menos eficiente nessas áreas, costuma ser corroborada também pelo próprios jornalistas.

A terceira abordagem toca na questão da diferenciação do jornalismo quanto à sua maneira de transmitir conhecimento. O pressuposto nesse âmbito é que o jornalismo não revela mal nem revela menos sobre a realidade que a ciência. Ele revela de forma diferente, explica Meditsch. Portanto, não é menos “prova da verdade”, e pode até mesmo dar conta de alguns aspectos do real que outros modos de conhecimento não conseguem, já que lida com versões de um mesmo fato. Ao mesmo tempo, não apenas reproduz o conhecimento que ele próprio produz, como também o de outras instituições sociais, processo que pode ser mais complexo que uma simples transmissão.

A compreensão das linguagens, da cognição e o estudo dos gêneros de discurso contribuíram em grande medida para a compreensão dessas especificidades. Ironicamente, foi a ciência desmistificando a infalibilidade da própria ciência. Esses estudos permitiram, nas últimas décadas, a relativização do que representa o conhecimento e como ele é afetado pelas subjetividades culturais e históricas. Passou a ser considerada, então, a existência de variados tipos de conhecimento circulando por diversas redes sociais.

Outra questão importante que o artigo aborda é o senso comum. As ciências sociais — e chamo aqui a atenção para o fato de que a Comunicação é uma das Ciências Sociais Aplicadas — têm, ou deveriam ter, o papel de cultivar o maior interesse pelo chamado senso comum. É ele que permite, em grande medida, entendermos qual é a percepção dominante sobre a realidade.

Meditsch defende que, com isso, o conhecimento do jornalismo, embora menos rigoroso que o da ciência dita formal, é “também menos artificial e esotérico”. As redes pelas quais circulam os conhecimentos produzidos pela ciência formal são restritas e nisso o pesquisador enxerga uma limitação comunicacional que vai de encontro ao ideal de universalidade do Jornalismo. Neste, uma outra rede de circulação de conhecimento, idealmente mais democrática, é estabelecida, embora o seja de forma indireta, imperfeita e marcada pelas intenções do emissor.

Uma das funções sociais do jornalismo, então, é a de trabalhar em sentido oposto ao da ciência: parte da linguagem formal e esotérica em direção ao senso comum. Permite assim, a comunicabilidade entre o físico, o advogado, o operário e o filósofo, avalia ele, tratando de uma perspectiva ideal.

Sendo assim, é importante lembrar, no entanto que o jornalismo apresenta algumas questões problemáticas, como os fatores condicionantes dessa atividade: a visão do jornalista sobre o mundo, as orientações da organização onde trabalha, as condições com as quais conta para realizar suas tarefas o os interesses envolvidos na circulação das informações. Assim, sem a devida transparência, a atividade jornalística pode se transvestir de realidade absoluta, sem apresentar claramente ao público os critérios de decisão que pautam suas versões dos fatos.

Diante de suas considerações, Eduardo Meditsch propõe que é necessário aumentar a exigência e rigor sobre os conteúdos jornalísticos e a formação profissional dos jornalistas, como produtores e reprodutores de conhecimento que são. Devo acrescentar que, atualmente, a ascensão dos veículos de mídia independente nos meios digitais tem exercido um importante papel social com a informação crítica. Outro segmento, o jornalismo de dados, vem se especializando cada vez mais em tornar-se acessível ao público, e é um subsídio poderoso a serviço da disseminação de conhecimento.

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