A entrada de Bourdieu no Brasil – algumas análises

Por Aurea Thatyanne Ferreira

Pierre Bourdieu, renomado sociólogo francês do século XX, é um autor central nas ciências sociais. Seu legado é extenso, sendo suas primeiras obras publicadas na década de 60. Entretanto, somente em meados dos anos 80 o autor ganha renome no cenário intelectual brasileiro. Em seu artigo “Nota sobre a recepção de Pierre Bourdieu no Brasil”, o professor Renato Ortiz discorre sobre esse tema.


O autor entende que refletir a noção de “recepção” é importante, pois “ler Bourdieu no Brasil não é o mesmo que fazê-lo na França”. Assim, ele descreve brevemente o início de sua trajetória intelectual na França e como conheceu o trabalho do francês na graduação, ainda no início dos anos 70. Ele evidencia que, na época, o sociólogo era conhecido pelas obras que tinha feito em parcerias, inclusive sendo muitas vezes referenciado como “Bourdieu-Passeron”, em alusão à parceria com Jean-Claude Passeron que gerou notáveis publicações na época. Ortiz ressalta que em 1975 o autor passa a produzir majoritariamente de forma singular, sendo consagrado com a nomeação para o Collège de France pouco depois.

No Brasil o processo foi diferente. Ortiz explica que aqui a associação de Bourdieu com outros autores não foi tão exaltada, e isso está relacionado com o fato de terem sido publicados, em meados dos anos 70, livros com o interesse de apresentar sua metodologia antes de ocorrerem as traduções de seus livros em parceria. Portanto, a entrada de Bourdieu no plano intelectual brasileiro ocorre no singular, obtendo mesmo assim pequeno impacto, com poucos textos disponíveis e raras citações sobre seus trabalhos.

Não obstante, é fundamental situar o contexto político e histórico no qual se dá o surgimento de Bourdieu no cenário acadêmico do Brasil, que era o da ditadura militar (1964-1985). Segundo Ortiz, este quadro autoritário influenciará as ciências sociais e a maneira como seriam recebidas novas perspectivas teóricas naquele momento; a restrição que ocorre com os escritos de Bourdieu, ocorre também com outros, como a Escola de Frankfurt. O professor defende que em circunstâncias repressivas e violentas determinadas linhas de pensamento terão pouca repercussão, e só poderão ser melhor utilizadas após mudanças nas circunstâncias políticas vigentes.

Ortiz comenta que a coletânea de Bourdieu produzida por ele em 1983 é fruto do convite de Florestan Fernandes. Embora tenha havido certa resistência de Florestan, o livro acabou sendo publicado, e o autor pondera que a relutância não fora por questões pessoais, mas sim por conta de perspectivas intelectuais vigentes; havia um grande debate acerca das correntes de “sociologia do conflito” e “sociologia da ordem”.

A sociologia da ordem relaciona-se ao estrutural-funcionalismo de Talcott Parsons e ao funcionalismo de Robert Merton, tendo como concepção que a sociedade seria composta por partes com funções individuais específicas voltadas a promover o bem estar geral. Já a sociologia do conflito dedica-se a compreender os organismos que botam à prova a estabilidade social, ou seja, os conflitos.

Nessa conjuntura, Bourdieu foi lido como representante da sociologia da ordem, embora o professor Ortiz discorde e argumente que a própria noção de habitus seria uma prova da contradição dessa interpretação. Ele defende que o sociólogo francês nunca se alinhara à sociologia do conflito ou da ordem, mas sim que suas análises faziam críticas à ordem vigente, e isso apenas; a dicotomia ordem/conflito na obra só fazia sentido na interpretação brasileira da época, relacionada aos contextos que o país enfrentava.

O autor ressalta que a partir dos anos 60 ocorre intensa modificação na vida acadêmica brasileira, que se configura como um processo de institucionalização das ciências sociais no país; é Bourdieu quem fornece arcabouço teórico-metodológico para tais transformações. Nos anos 80 a obra do autor passa a ser mais acessada no Brasil, com as traduções de seus livros e a utilização de sua metodologia no processo de compreensão da realidade social do país. Para Ortiz o sucesso ocorreu devido ao referido processo de institucionalização das ciências sociais e também pela problemática do poder.

A questão do poder diz respeito à maneira como Bourdieu encarava este conceito. De acordo com Ortiz, o francês seguia a mesma linha teórica de Foucault ao priorizar os elementos “inconscientes” para fazer suas análises, e não os “conscientes” (como fazia a teoria marxista, em especial Sartre). Esta perspectiva estava alinhada à corrente estruturalista, pois esta priorizava a análise das estruturas, se distanciando dos fatos que estavam na “superfície do real”, na consciência. Sendo assim, o estudo do poder deveria ser feito em termos mais amplos, não se confundindo com política, na visão de Bourdieu, pois estas não estariam em esferas equivalentes; segundo o autor, esse é um traço importante expresso na obra do sociólogo.

Por fim, Ortiz acredita que a resistência à Bourdieu num primeiro momento se deu pela interpretação de seus estudos marcada pela associação entre poder e política, em que num cenário de ditadura militar violenta e repressiva era difícil distinguir-se das duas esferas. Porém, com o processo de democratização a noção de que estes não seriam processos homólogos permitiu que a recepção ao sociólogo tornasse fácil. Ortiz define que, a partir dessa dinâmica, as análises críticas das relações de poder na perspectiva de Bourdieu puderam, finalmente, serem feitas sem “constrangimentos”, sendo enfim consagrado na academia brasileira.

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