Das (im)possibilidades de uma socioantropologia do desenvolvimento

Por Vinícius Volcof Antunes

Assim como outras áreas do conhecimento, a sociologia é composta por alguns grandes temas, que parecem render produções e debates constantemente renováveis, mas também por assuntos mais sazonais, que surgem diante de contingências históricas e depois arrefecem, podendo reaparecer em momentos mais oportunos. Assim se deu com as abordagens acerca do desenvolvimento.

Neste texto passearemos, com Peter Schroder (1997; 2014), pelas origens desse campo disciplinar, destacando seu complexo questionamento inicial. Já com Guilherme Radomsky (2011), traçaremos uma ponte histórica, observando alguns dos principais debates desse meio. Por fim, com Marcelo Carneiro (2012) destacaremos algumas abordagens metodológicas, pontuando também limitações e desafios que lhe surgem diante de uma realidade social complexificada.

Começamos no pós-II Guerra Mundial, quando órgãos e agências internacionais, como o Banco Mundial e a US-AID, surgiram para levar o desenvolvimento a países em situação de pobreza. Essas instituições, associadas aos governos hegemônicos, exportavam projetos modernizadores àqueles que, no jargão da época, eram marcados pelo “atraso”, “subdesenvolvimento” ou “dependência”. A associação de cientistas sociais a esses projetos intervencionistas, Schroder chamou de “pecado original”, enquanto Arturo Escobar, que surgiria tempos depois como símbolo de uma virada epistemológica da área, chamaria criticamente de “antropologia para o desenvolvimento”. Radomsky também pontua esse período como uma continuidade do “caráter colonial da própria disciplina, que estaria a serviço dos governos imperiais” (p. 151).

Em dois artigos revisionais, Peter Schroder retrata a importante discussão interna da socioantropologia do desenvolvimento em constituir uma subdisciplina ou tão somente um campo de trabalho de uma “antropologia aplicada”, empenhada na implementação desses projetos. Curioso é notar como o próprio autor modifica sua visão sobre o assunto: em 1997, parte com ceticismo diante da escala micro analítica dessa abordagem e de sua deficiência em constituir uma corpus teórico próprio, especialmente quanto a uma clara definição do que seria desenvolvimento. Já em 2014, ele defende a necessidade de posicionamento desses pesquisadores em meio à polifonia de opiniões sobre o desenvolvimento, disputando mais notadamente com a economia a legitimidade discursiva sobre o tema.

Raymond Boudon (2000) aponta que nos anos 50 e 60 o desenvolvimento foi um tema quente para a sociologia, esfriando a partir dos 70. O fato é que justamente nessa época começou a virada paradigmática da área, retraindo parte de seu etnocentrismo e adicionando elementos socioculturais na análise. No início dos anos 80, com a emergência do pós-colonialismo, novas leituras da realidade social mudaram o olhar sobre a temática. Notadamente, estão nesse período os antropólogos Arturo Escobar e Olivier De Sardan. Ancorados em suas escolas de formação, ambos vocalizaram algumas das críticas em ascensão na época às abordagens mais tradicionais do desenvolvimento, que seriam pouco questionadoras ou “apolíticas” (Escobar, 2005). Com isso, iniciaram debates teórico-metodológicos que revolucionariam o campo, rumo à interdisciplinaridade.

A partir dos anos 80, surgiu uma antropologia não mais para o, mas do desenvolvimento. A virada, a partir de Escobar, se deu através de uma releitura foucaultiana sobre “regularidades discursivas”, cuja centralidade nos discursos dos atores permitiu uma ruptura a que chamamos de pós-desenvolvimentismo (Carneiro, pp. 132-133).  Dessa linha surgiriam propostas como a do “crescimento zero”, o “slown down consumption” e até o questionável “desenvolvimento sustentável”.

Alinhado à escola franco-africana de antropologia do desenvolvimento (APAD), Olivier De Sardan apresenta uma perspectiva interacionista, fortemente centrada no “entrelaçamento das lógicas sociais”. Defendendo seu argumento, o autor tece fortes críticas a abordagens da linha de Escobar, que pejorativamente classifica como “populista ideológica”, excessivamente ancorada nos relatos dos atores, porém, desconsiderando sua agência, vendo-os como meros sujeitos passivos do desenvolvimento[1] (Radomsky, pp. 154-155). Também critica o caráter prescritivo, de superação do desenvolvimento, dessa outra abordagem. Em De Sardan, o entrelaçamento social se desenrola em espaços escalares chamados de arenas, que para além da noção de “campos” de Pierre Bourdieu, têm atores heterogêneos em interações eminentemente conflituosas.

Ambos os autores, porém, também apresentam convergências, como a herança da Escola de Chicago na recusa da separação disciplinar, combinando uma abordagem antropológica (notavelmente etnográfica) com a sociologia. Além disso, também buscaram dar maior ancoragem à teoria disciplinar, bem como negaram a prerrogativa de mera antropologia aplicada.

Ainda assim, essa socioantropologia do desenvolvimento (ora mais socio, ora mais antro) não deixou de receber críticas. O próprio De Sardan observa que nela existe certo “ecletismo teórico” que permitiria ao pesquisador um passeio solto por teorias muito distintas, do holismo ao individualismo, por exemplo. Outros notaram uma simplificada homogeneização do desenvolvimento em Escobar, que desconsiderava o gap entre como se constrói um projeto e sua implementação, com os imponderáveis das situações concretas. Houve também críticas sobre as limitações da microescala, superada apenas pelo refinamento multivariado introduzido por certos autores. Por fim, outra crítica recorrente se deu pela ausência ora de agentes políticos (o poder na perspectiva estrutural, do Estado), ora dos econômicos (especialmente privados) nesses estudos.

De Carlos Vainer (1989) a Jeffrey Henderson (2011), fortemente focados nas variáveis econômicas e multiescalar sobre projetos de desenvolvimento, novas abordagens dessa linha têm tido cuidado em não desconsiderar aspectos fundamentais do complexo mundo contemporâneo, como a internacionalização do capital, demandas ambientais e até mesmo os saberes locais. Mesmo diante dos desafios, sabemos que o movimento interdisciplinar demanda o empenho em encontrar um terreno comum para que epistemologias e métodos se cruzem. A socioantropologia do desenvolvimento, reflexiva desde sua origem, parece disposta a esse esforço.

[1] Conferir o interessante debate sobre “populismo ideológico” e o “populismo metológico” feito por De Sardan in Anthropology and Development: understanding contemporary social change. London; New York: Zed Books, 2005.

Referências:

CARNEIRO, Marcelo S. Práticas, discursos e arenas: notas sobre a socioantropologia do desenvolvimento. Revista sociologia&antropologia, v.02. nº04, pp. 129 –158, 2012.
SCHRODER, Peter. A Antropologia do desenvolvimento: é possível falar de uma subdisciplina verdadeira? Revista de Antropologia, São Paulo, USP, 1997, v. 40, nº2.
______________. Os desafios para uma antropologia do desenvolvimento no cenário atual. Trabalho apresentado na 29º Reunião Brasileira de Antropologia, realizada entre os dias 03 e 06 de agosto de 2014, Natal/RN, no GT 082.
RADOMSKY, Guiherme F. W. Desenvolvimento, pós-estruturalismo e pós-desenvolvimento. A crítica da modernidade e a emergência de “modernidades” alternativas. Revista brasileira de ciências sociais. v. 26, nº 75, fev. 2011 pp. 149-162.

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